Developer: Insomniac Games
Plataforma: PlayStation 4 e PlayStation 5
Data de Lançamento: 11 de Novembro de 2020

Marvel’s Spider-Man: Miles Morales vem numa altura curiosa, numa altura onde os Estados Unidos da América estavam a votar o seu futuro, e o futuro de todos nós. Numa altura em que todos parecíamos “disposables“, em que os valores, o moral, a ética, a verdade não contavam, é aí que surgem os heróis. Foi assim que um novo presidente dos EUA foi eleito, e foi eleito pelos maiores heróis, as pessoas, aquelas que tinham medo do seu futuro, dos seus filhos, de como lhe iam ensinar que é importante ser verdadeiro, falar a verdade e defender os morais que sustentam a democracia. A catch phrase deste videojogo foi Be Greater curiosamente até nisso existe uma paralelismo grande com o estado da América, basta nos lembrar como Melania Trump nem isso soube escrever nas costas de um seu casaco. Mas também é Be Yourself e é no meio do caos, é no meio da tempestade, é no meio das dificuldades que temos que ser maiores, melhores, que damos o exemplo e lançamos a esperança aos outros, aos nossos, a todos.

É isto que este Marvel’s Spider-Man: Miles Morales fez, foi isso que os comics sempre me ensinaram, não é por acaso que a frase que mais ecoa na minha cabeça é: “com um grande poder vem uma grande responsabilidade“. E é com essa mesma responsabilidade que a Insomniac nos traz este jogo, com o background de ter efeito um incrível primeiro jogo, se lhe quisermos chamar assim, que trouxe de volta a animação e o êxtase de um Spider-Man a percorrer Nova Iorque de teia em teia, em grande estilo, com uma jogabilidade super fluída, divertida, cheio de andamento e com uma beleza notável. Será que conseguiu nos dar isso mesmo neste jogo, com Miles Morales como a peça central?!

Vamos por partes, todos nós sabemos como o hábito faz o monge, e neste caso é sempre difícil ver um Spider-Man que não seja o Peter Parker, apesar de todas as transformações que a personagem já sofreu quer nos comics quer nas adaptações ao cinema, e até neste jogo, onde o seu face model também mudou. Portanto a tarefa de Miles Morales não seria fácil, muitos apenas o conhecem não só por já ter aparecido de uma forma tímida no primeiro jogo da Insomniac, mas pela filme de animação Into the Spider-Verse, isto falando de um público mais mainstream claro.  E foi aí que a a produtora de outros jogos como o caso do Ratchet and Clanck, conseguiu subir a fasquia, Miles Morales acaba por ser muito mais pertinente nos dias de hoje do que Peter Parker, estamos a falar de um rapaz porto-riquenho a viver nos Estados Unidos da América, negro, filho de um militar e de uma mãe que se está a candidatar para representar o distrito de Harlem.

E todas as tensões que tudo isso implica são sentidas, quer seja o fenómeno de Black Lives Matter que até teve direito a um mural neste jogo e a um fato especial para Miles Morales, a tentativa de uma comunidade multi-cultural em sobreviver que se sente ao tentarmos resolver muitos dos seus problemas, passando pela banda sonora muito mais urbana e atual, com um adolescente a tentar lidar com a perda do pai, ao mesmo tempo que tenta que os seus amigos, com laços maiores do que os de sangue, não se percam para a “escuridão”.

Miles Morales é um jovem do povo, que dedica o seu tempo a ajudar a organização F.E.A.S.T., que conheceu através de Peter Parker, para acolher e ajudar os sem abrigo, é um rapaz que cuida de gatos e de pombos quando é preciso, e que ainda tem tempo para tentar aspirar a ser cientista. É um exemplo, um rapaz que tenta ser melhor todos os dias, e que não desiste, e essa mensagem e a maior de todas neste jogo.

Posto isto, passemos a dar algum contexto ao que se passa no jogo sem tentar spoilar nada, como já devem ter percebido Miles Morales é o centro do jogo e portanto será com ele que vamos percorrer toda esta aventura, enquanto Peter Parker está ausente num trabalho para o Daily Buggle ao lado de Mary Jane. Depois de uma intensa luta contra Rhino no início do jogo, Miles acaba por salvar Peter Parker e dar garantias de que ele aguenta lidar com o peso da responsabilidade de ser o único Spider-Man. Miles no meio dessa luta apercebe-se que tem poderes diferentes do que Peter, uma espécie de electricidade que percorre o seu corpo e o permite fazer ataques devastadores.

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Enquanto Miles tenta perceber que poderes são estes e o que fazer com eles, vai-se deparar com um ataque à cidade por um grupo chamado The Underground, que estão a tentar roubar uma substância chamada Neuroform que poderá ser a nova forma de energia sustentável para Harlem e para todo o mundo, numa experiência liderada por Michael Kruger da empresa Roxxon. Mas as coisas nunca são aquilo que parecem e como todos nós sabemos, muitas vezes as grandes ideias para ajudar o mundo não são mais do que uma forma de ganhar dinheiro com elas, portanto, há muita coisa para descobrir sobre o que faz esta substancia, os seus prós e contras e o que é o grupo The Underground quer com ela, mas os detalhes eu não posso revelar para não vos estragar a surpresa, só posso dizer que nada é linear.

Marvel’s Spider-Man: Miles Morales talvez por ser mais curto que o seu antecessor, são cerca de 15 horinhas se andarem a fazer todas as side-missions e colecionáveis, acaba por ter um andamento mais frenético e por nos colar mais à história. Como as missões secundárias por vezes contêm informação sobre a trama principal e sobre as personagens que vamos encontrando na campanha, sentimo-nos sempre mais colados à história principal. No entanto isso não quer dizer que não vamos perder umas horinhas valentes a pesquisar quer seja as Cápsulas do Tempo, quer seja os postais da infância Miles, recolher sons da cidade para fazer músicas, para além das já conhecidas missões de gangues, onde teremos que limpar determinadas zonas cheias de elementos desses gangues e restabelecer as comunicações da cidade, ou mesmo tentar deitar abaixo laboratórios da Rexxon.

Há ainda um recolher de caixas de tecnologia que acabam por ser transversais a todas estas missões que falava. Por fim, mas acaba por ser o início na verdade, vão poder tentar adquirir habilidades especiais, habilidades que já tínhamos no fundo desbloqueado com Peter Parker, e que fazia sentido as ter logo no início do jogo. Então a Insomniac lembrou-se que se Peter Parker deixa-se uma série de treinos para Miles Morales, poderia ser a forma perfeita de adquirir novas técnicas, de os jogadores novos aprenderem as técnicas, e de dar logo no início aquilo que os jogadores que já jogaram o primeiro tiveram acesso e exigiam nas mecânicas de jogabilidade.

Para além disso vamos ter uma App que nos vai informando dos crimes que estão a decorrer na zona, os pedidos de auxílio dos cidadãos e ainda as tais side-missions. É uma excelente forma de dar aquele toque de integração na vida real, do nosso amigo Ganke que está sempre pronto a dar-nos conselhos preciosos e a informação dos crimes que estão a decorrer, e uma forma mais atual de como o próprio Spider-Man viveria.

A jogabilidade em si é muito semelhante à do jogo anterior. O sistema de combate e as mecânicas de web-swing são praticamente idênticos, embora com animações novas, que demonstram a personalidade de Miles, um Spider-Man mais trapalhão, com algumas dificuldades em manter o equilíbrio, mas ao mesmo tempo mais destemido e por vezes ingénuo. Existem contudo novos acessórios para Miles usar, para além dos tradicionais lançadores de teias, temos também minas elétricas para lançar, holo-drones que criam “amigos” holográficos para combater os inimigos e ainda os lançadores de vórtices que criam uma espécie de buraco negro em que sugam os inimigos ao seu redor. Mais importante ainda são as habilidades exclusivas de Miles, como os ataques “Venom“, ataques então carregados de eletricidade que podem ser socos elétricos, atirar os inimigos pelo ar, ou lançarmo-nos no ar e fazer um “smash” no chão que eletrifica os inimigos ao seu redor. E depois há a invisibilidade, onde vamos poder desaparecer à frente dos olhos de qualquer um durante um período determinado de tempo, mas o suficiente para sair de apertos, ou neutralizar inimigos sem que eles sequer saibam o que se passou. Não tendo os movimentos “ultimate” como o anterior, é uma excelente adição.

Nova Iorque continua com um aspeto impecável, com os seus edifícios emblemáticos, seja o Empire State Building ou a Torre dos Vingadores, passando por cafés e spots de referência dos transeuntes, como a magnífica Square Garden ou o Central Park. A grande novidade desta cidade em movimento constante é o facto de introduzir novos locais, com um grande foco em Harlem, mas também pelo fator de estarmos no inverno em plenas celebrações natalícias e com neve e tempestades de neve à mistura. E toda a gente diz que Nova Iorque é lindo quando neva e ainda mais no Natal, pois bem, sentimos isso facilmente neste jogo, e está executado na perfeição.

Capturado na PS5

Marvel’s Spider-Man: Miles Morales tem um excelente aspeto na PS4 Pro, onde começamos e acabámos o jogo, mas decidimos adiar até hoje o lançamento desta análise para darmos um parecer também à versão da PS5 para que os nossos leitores estivessem totalmente informados. O que podemos dizer é que se Nova Iorque já estava bonita, tornou-se linda com a capacidade gráfica da consola, os reflexos, a água, a neve a cair, o raios de sol, o detalhe está incrível. E como diria Stevie Wonder, ver para crer, aqui fica um pequeno vídeo de andarmos a vaguear pela cidade para verem como corre na PS5.

Outra das diferenças prendem-se com a velocidade nos loadings, que passam de poucos segundos na PS4 Pro para inexistentes na PS5, assim como a sensação que o DualSense é capaz de dar a qualquer jogo, sentindo a força nos gatilhos hápticos, como se tivéssemos a sentir o lançador de teias a disparar. Para além disso destaque ainda para ouvirmos o disparo das teias no pequeno speaker do Dualsense.

Marvel’s Spider-Man: Miles Morales não leva um redondo 5 não pela sua duração, mas pela problemática de passarmos o nosso save da PS4 para a PS5, que apenas é possível se tivermos a Ultimate Edition que traz também o primeiro Marvel’s Spider-Man, porque de resto, é um excelente jogo na PS4 e melhor ainda na PS5 num trabalho irrepreensível da Insomniac a caracterizar Miles Morales e a dar sentido à sua existência como Spider-Man e a conquistar o seu lugar no trono de Nova Iorque.