Developer: Capcom
Plataforma: Nintendo Switch 2, PlayStation 5, Xbox Series X|S, PC
Data de Lançamento: 13 de março de 2026
A Capcom tem vindo a criar um verdadeiro monstro dentro da sua já extensa lista de jogos. Se antigamente o nome da companhia estava inevitavelmente associado a franquias como Resident Evil, Street Fighter ou até Mega Man, hoje em dia é praticamente impossível falar da editora japonesa sem mencionar Monster Hunter. Ao longo de décadas, a série foi conquistando uma identidade muito própria dentro da indústria dos videojogos. A fórmula principal da franquia sempre se baseou na caça de criaturas colossais, exigindo precisão, preparação e um bom domínio de sistemas complexos para sobreviver a confrontos intensos. No entanto, o crescente sucesso da série levou a Capcom a explorar o universo de Monster Hunter através de uma abordagem completamente diferente. Assim nasceu Monster Hunter Stories, um spin-off que mudou um pouco a lógica tradicional da franquia.
Em vez de focar a experiência na caça aos monstros, Monster Hunter Stories coloca essas criaturas no centro de uma relação de cooperação com os jogadores. A caça deixa de ser o elemento principal, dando lugar ao colecionismo e à criação de laços com os chamados Monsties. O resultado é um RPG por turnos que reinterpreta o mundo de Monster Hunter de uma forma mais leve, explorando conceitos como amizade, descoberta e ligação com as criaturas. Ao longo dos anos, a Capcom tem vindo a refinar esta fórmula, melhorando gradualmente as histórias, expandindo os mapas e introduzindo novos monstros em cada capítulo. É precisamente neste contexto que surge Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection, um jogo que representa, até ao momento, o ponto mais ambicioso de toda a série Stories.
Um dos locais onde mais se nota essa ambição é na forma como a narrativa foi criada, entrelaçando conflitos políticos, drama familiar e mistério. Embora o universo da série sempre tenha andado à volta da relação entre humanos e monstros, este capítulo expande significativamente esse conceito ao explorar como essa relação pode afetar reinos inteiros e moldar decisões que ultrapassam a esfera pessoal. O passado do protagonista é o primeiro grande elemento que impulsiona a narrativa. Anos antes dos acontecimentos do jogo, a rainha Amara — mãe do protagonista e fundadora da patrulha dedicada à preservação dos Monsties — fez uma descoberta que viria a alterar o destino de Azuria. Durante uma expedição, foi encontrado um ovo de Rathalos, criatura cuja existência já era considerada praticamente extinta naquela região. No entanto, o momento da eclosão revelou algo ainda mais inesperado, dentro do mesmo ovo estavam dois Rathalos, marcados por um símbolo associado a antigas profecias que anunciavam grandes calamidades.
A reação do reino foi imediata e carregada de superstição. Para muitos habitantes de Azuria, a existência de dois Rathalos ligados à mesma profecia era vista como um presságio de destruição iminente. O medo rapidamente transformou o acontecimento num episódio de tensão política e religiosa. Uma das criaturas foi imediatamente vista como uma ameaça que deveria ser eliminada antes que o destino anunciado se concretizasse. Foi nesse momento que Amara tomou uma decisão que mudaria para sempre a história do reino. Convencida de que os monstros não deveriam ser julgados por crenças antigas, decidiu salvar um dos Rathalos e fugir com a criatura, desaparecendo do reino e passando a ser considerada uma traidora. Para o jovem protagonista, que testemunhou esses acontecimentos ainda em criança, este episódio deixou uma marca profunda, visto que a mãe que ele conhecia como uma protetora do equilíbrio natural transformou-se numa figura envolta em mistério, controvérsia e suspeita.
Anos mais tarde, já adulto e agora capitão da patrulha criada pela própria mãe, o protagonista carrega o peso desse legado. O desaparecimento da rainha nunca foi totalmente esclarecido, e muitos habitantes de Azuria ainda veem o evento como um capítulo sombrio da história do reino. A presença do Rathalos, que acompanha o protagonista, funciona como uma constante lembrança desse passado, alimentando tanto a curiosidade sobre o destino de Amara como as suspeitas de quem acredita que a profecia ainda está longe de terminar. Este mistério ganha ainda mais relevância quando a narrativa introduz o conceito de um território proibido, uma região remota que parece estar diretamente ligada aos acontecimentos do passado. Ao longo da campanha, várias pistas sugerem que esta área isolada pode esconder respostas sobre o desaparecimento da rainha e sobre a origem do fenómeno de cristalização que ameaça o mundo. A reputação deste território é envolta em rumores e histórias antigas, aumentando a sensação de que ali reside uma parte crucial da verdade.
Enquanto o protagonista tenta lidar com o peso da sua história familiar, um conflito político entre Azuria e Vermeil — o reino que faz fronteira com Azuria e que um dia já foi parte do mesmo território — continua a intensificar-se. Vermeil, devastado pelo avanço da cristalização, enfrenta uma crise ambiental e económica que ameaça a sobrevivência do reino. Sem recursos suficientes para sustentar a sua população, a liderança de Vermeil começa a considerar medidas cada vez mais desesperadas para garantir o futuro do seu povo. É neste contexto que surge uma das personagens mais importantes da narrativa, a princesa Eleanor. Vinda diretamente de Vermeil para um pedido de auxílio a Azuria, acaba por permanecer nesse reino enquanto tenta impedir que a guerra entre as duas nações se concretize. A sua presença adiciona uma dimensão particularmente interessante à história, representando a ligação direta entre dois lados de um conflito que se aproxima de forma inevitável.
Eleanor não partilha totalmente da visão agressiva adotada por parte da liderança do seu reino. Embora compreenda o desespero que levou Vermeil a considerar ações mais radicais, ela acredita que a guerra apenas agravaria uma situação já extremamente frágil. Ao decidir colaborar com o protagonista, a princesa tenta encontrar uma solução que possa salvar o seu povo sem destruir as relações entre as duas nações. A relação entre os dois personagens torna-se um dos pilares emocionais da narrativa, já que ambos carregam responsabilidades enormes: ele como herdeiro de Azuria e líder da patrulha, ela como representante de um reino em crise. Apesar de partirem de posições aparentemente opostas, partilham um objetivo comum: compreender a origem da cristalização e impedir que o conflito entre os reinos se transforme numa guerra total.
A jornada conjunta dos dois personagens também permite explorar as diferenças culturais e políticas entre Azuria e Vermeil. Enquanto Azuria ainda mantém um certo equilíbrio graças aos seus recursos naturais, Vermeil já enfrenta as consequências mais severas da crise ambiental. Esta disparidade ajuda a explicar as decisões extremas tomadas pela liderança de Vermeil, reforçando a ideia de que o antagonismo entre os reinos nasce mais do desespero do que de verdadeira hostilidade. Ao longo da campanha, estas linhas narrativas — o desaparecimento da rainha Amara, o mistério do território proibido, a profecia associada aos Rathalos gémeos e a tensão crescente entre Azuria e Vermeil — começam gradualmente a convergir. Cada nova descoberta aproxima os personagens de uma verdade que parece ligar o passado e o presente de forma inevitável.
É com todos estas ideias e conceitos que Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection consegue facilmente nos segurar durante horas e horas, tentar perceber tudo o que está por trás desta história é um motivo fácil para nos agarrar. E a cada avançar da história mais respostas e outras perguntas iam surgindo, algo que me deixou bastante satisfeito neste ponto.
O jogo não se limita apenas à história principal, oferecendo também uma variedade de missões secundárias que enriquecem significativamente a experiência. Estas atividades paralelas surgem frequentemente através de pedidos feitos por habitantes das várias regiões que visitamos e envolvem tarefas como investigar monstros, recolher materiais ou proteger determinadas zonas. Embora muitas sigam estruturas simples, o jogo consegue compensar essa simplicidade através da forma como cada missão expande o mundo, mostrando como a presença dos monstros influencia a vida das comunidades locais e o equilíbrio ecológico. Para os jogadores mais atentos, estas missões secundárias funcionam também como incentivo à exploração, levando a revisitar zonas já conhecidas com novos objetivos, oportunidades para encontrar ninhos de monstros adicionais, descobrir materiais raros ou enfrentar variantes mais poderosas.
Outro elemento importante são as missões de arco dos personagens, que permitem aprofundar a personalidade, o passado e as motivações de cada aliado. Ao completar estas missões, podemos ver os dilemas pessoais e as responsabilidades de cada personagem, tornando-os mais humanos e credíveis. No caso de Eleanor, por exemplo, estas missões revelam o peso que carrega enquanto representante de Vermeil e o conflito entre o dever para com o seu povo e a sua convicção de que a guerra não é a solução. Além de enriquecerem a narrativa, estas missões trazem recompensas práticas, como melhorias no desempenho em combate ou novas habilidades para os Monsties.
Saltando para a jogabilidade, esta mantém a estrutura base que sempre definiu a franquia, mas introduz melhorias e refinamentos importantes. O sistema de combate continua a ser por turnos, utilizando uma lógica semelhante a pedra-papel-tesoura entre três tipos de ataques: força, velocidade e técnica. Cada tipo possui vantagens e desvantagens contra os outros, obrigando-nos a antecipar as ações do inimigo para obter vantagem nas batalhas. Cada monstro possui padrões de comportamento específicos que podem ser observados durante o combate. Posturas, animações e sinais visuais indicam frequentemente qual será o próximo tipo de ataque utilizado, incentivando-nos a estudar o adversário em vez de confiar apenas em tentativa e erro.
As batalhas envolvem uma equipa composta pelo protagonista, pelo seu Monstie, por um companheiro humano e pelo Monstie desse aliado. Embora apenas tenhamos controlo direto sobre o protagonista e a sua criatura, a presença dos aliados revela-se frequentemente fundamental para o sucesso dos confrontos. É possível coordenar ataques com o Monstie, desencadeando golpes combinados que causam danos elevados, sobretudo quando conseguimos antecipar e superar os ataques do inimigo. Na maioria das vezes, a IA dos aliados funciona bem, mas por vezes toma decisões que parecem pouco sensatas naquele momento, embora raramente comprometa o combate. Um dos elementos centrais da experiência é o sistema de afinidade entre o protagonista e o seu Monstie, e à medida que a batalha progride, uma barra especial é preenchida, permitindo montar a criatura e executar ataques especiais de grande poder. Estas sequências vêm acompanhadas de animações detalhadas, que podem ser saltadas quando se tornam repetitivas após múltiplas batalhas.
Outra das novidades é o mecanismo que representa a determinação do monstro adversário durante a batalha. Ao atacar consistentemente o inimigo, podemos reduzir essa resistência e criar oportunidades para o derrubar temporariamente, permitindo ataques devastadores de toda a equipa. Esta implementação adiciona estratégia às batalhas e oferece alternativas além de simplesmente reduzir os pontos de vida do adversário. Naturalmente, os monstros continuam a ser o coração da experiência. Tal como nos títulos anteriores, podemos recolher ovos encontrados em ninhos espalhados pelo mundo e chocá-los para obter novos Monsties. Cada criatura possui habilidades únicas, estilos de combate próprios e capacidades de exploração específicas que permitem aceder a novas áreas do mapa.
O sistema de transferência de genes entre monstros permanece como um dos elementos mais importantes do jogo. Permite criar combinações extremamente variadas de ataques e atributos, e a organização estratégica dos genes concede bónus adicionais, permitindo personalizar os Monsties de inúmeras formas. Além disso, a restauração do ambiente é uma das novidades mais interessantes, já que podemos libertar Monsties para repovoar ecossistemas locais. À medida que novas espécies são introduzidas num habitat, surgem combinações inesperadas que podem originar variantes mais poderosas ou criaturas com habilidades raras, criando uma ligação direta entre exploração, progressão e personalização. Ainda assim, é importante referir que quem procurar maximizar o potencial dos Monsties terá pela frente uma tarefa algo repetitiva, já que será necessário recolher uma grande quantidade de ovos para otimizar genes e continuar o processo de repovoação dos ecossistemas.
A exploração também recebeu uma grande melhoria em relação aos títulos anteriores. Em vez de mapas simples e relativamente planos, Twisted Reflection apresenta regiões com maior verticalidade e diversidade geográfica. Florestas densas, desertos vastos, zonas montanhosas e áreas costeiras oferecem ambientes distintos que nos convidam a investigar cada canto do mapa. Certas zonas apenas podem ser alcançadas utilizando habilidades específicas dos Monsties, como nadar, planar ou escalar obstáculos, incentivando a criação de uma equipa equilibrada tanto em combate como em mobilidade.
Em termos gráficos, o jogo apresenta uma evolução significativa. O estilo visual mantém a estética estilizada da série, mas com um nível de detalhe e sofisticação muito superior. Os cenários são ricos em cor e variedade, e a direção artística consegue equilibrar o tom mais leve da subsérie com a atmosfera mais séria da narrativa. As animações das criaturas merecem destaque especial, capturando os movimentos característicos e ataques especiais de cada monstro, oferecendo momentos visuais memoráveis.
A componente sonora é outro ponto forte do jogo. A banda sonora acompanha magistralmente os diferentes momentos da aventura, alternando entre temas leves durante a exploração e composições mais intensas nas batalhas. Cada região possui identidade musical própria, dando logo a sensação de que estamos a viajar por territórios distintos. Durante os combates, a música intensifica a tensão, enquanto o design sonoro dos monstros, com rugidos e efeitos específicos, dá-lhes personalidade e torna cada confronto mais envolvente. O voice acting também se apresenta bastante competente, dando vida ao jogo a cada diálogo entre personagens.
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection é, sem dúvida, o jogo que os fãs tanto esperavam, representando um marco significativo na série. A Capcom conseguiu criar uma experiência mais adulta, com uma narrativa mais profunda e envolvente, sistemas de combate refinados e uma jogabilidade mais estratégica e gratificante do que nos títulos anteriores. A exploração também foi elevada a outro patamar, com mapas mais complexos, cheios de verticalidade e segredos a descobrir. Quase todos os elementos do jogo foram aprimorados sem perder a essência que torna a série tão especial, mostrando que a Capcom soube equilibrar inovação com respeito pelas origens. É certamente um dos RPG com combate por turnos mais interessantes do ano.




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