Developer: Studio Koba / Team 17
Plataforma: Xbox One, PlayStation 4 e Nintendo Switch
Data de Lançamento: 30 de março de 2021

Devo de começar esta análise pelo fim, é que não pegava num jogo há muito tempo que tão rapidamente me enchesse as medidas. Seja por vezes pela complexidade, pela devoção ou pela tentativa de ser algo maior, muitos jogos acabam por falhar e não deixar aquele sentimento de pura alegria e prazer. Narita Boy, como já perceberam, deixaram-me com um enorme sorriso na cara.

O jogo de estreia da Studio Koba com o carimbo da Team 17, deu-me tudo aquilo que eu gosto, máquinas arcade, um estilo retro-futurístico cheio de pinta, a nostalgia da década de 80 e 90, uma jogabilidade fluída e divertida, um enredo melhor que o Tron e uma banda sonora rock e synthwave de luxo. Dizem que o segredo de um grande videojogo está nos detalhes e Narita Boy arrebata já o prémio, seja pelo arredondado do ecrã de jogo, transportando-nos para um velhinho CRT ou ecrã de máquina arcade, seja pelo save em forma de disquete ou pelos peças que vamos ter que recolher com esse mesmo formato. Os inimigos são apresentados como se inserisse uma nova disquete com o seu nome, assim como morremos e voltamos à vida.

Vamos lá então à história do jogo, aqui o digital e o real misturam-se no universo de Narita Boy. Um developer criou um videojogo que se tornou um tremendo sucesso em todo o mundo. No entanto, um dia acontece algo de muito estranho, estamos a falar de uma anomalia no código binário que acaba por criar Him, uma entidade corrompida e maligna. Com poderes estranhos, esse defeito consegue alcançar o mundo real e apaga as memórias do programador, que é conhecido como O Criador. Sem isso, o Reino Digital perde sua estabilidade e o caos aparece e surge uma oportunidade perfeita para Him e os seus “capangas”, os Stallions, dominarem o Mundo.

É aqui que surge a nossa personagem, um jovem rapaz, um gamer, que é transportado para dentro do jogo, tornando-se o Narita Boy. Empunhando a Tecno-Espada, artefato especial forjado pelo denso código-fonte dos Feixes do Tricroma, o herói vai explorar todo o Reino Digital com a missão de dar cabo de Him e restaurar as memórias do Criador.

O que torna este jogo tão especial é o ambiente em si. Existe qualquer coisa do primeiro Prince of Persia, seja pelo tipo de plataformas, seja pelos ambientes escuros e azulados, ao mesmo tempo que sentimos inspirações em animes como Evangelion, nomeadamente na caracterização dos inimigos, e na cultura japonesa já que temos vários momentos de saudação nipónica e meditação budista. É esse sentimento misto entre realidade e o virtual que nos faz mergulhar no jogo, para além da execução técnica do mesmo. Tudo nos é familiar em algum aspecto, e muito tem a ver com a riqueza dos cenários, onde e apesar de ser um scroller 2D, sentimos sempre a profundidade dos cenários com vários elementos a acontecer nos fundos e a darem-nos indicações subliminares.

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Esse é para mim outro dos pontos chave de Narita Boy, a sua capacidade de não nos dizer para onde temos que ir, dando-nos objectivos chave que temos que concretizar, mas tendo sempre que perceber como os atingir. Vão perceber que no início do jogo parece tudo muito simples, andar no mapa da esquerda para a direita e vice-versa, mas conforme vão avançando no jogo e com mais áreas descobertas poderia criar o sentimento de “não temos mapa, tou perdido outra vez”, mas a verdade é que não acontece. Seja por setas que estão disfarçadas no cenário, seja pela intuição que o jogo nos provoca, parece que sabemos sempre o que fazer, gastamos sempre o tempo certo para perceber o puzzle, e para continuarmos na nossa aventura.

A nível de jogabilidade, como qualquer jogo de plataformas, temos os tradicionais saltos e dash’s, sendo que o combate é também ponto fulcral do jogo. E apesar da facilidade de comandos do jogo, dominá-los é desafiante q.b. e com uma enorme fluidez que nos deleita. Temos a nossa Tecno-Espada que faz uma série de ataques normais, se pressionarmos com mais força e tempo transforma-se numa espécie de taco de basebol, assim como também se transforma numa espingarda para atirar prejecteis aos inimigos. Para “carregarmos” a espingarda temos que executar ataques de corpo a corpo, enchendo a barra podemos disparar um ataque poderoso.

O foco são os golpes com a espada, mas precisamos também observar os inimigos para escapar na hora certa, já que recuperar a vida é custoso. Elementos e habilidades são introduzidos constantemente, o que mantém a sensação de novidade dos embates. Cada inimigo exige estratégias distintas, como uma criatura com escudo que só fica vulnerável após uma investida de ombro ou um monstro que se teletransporta, e a mistura de oponentes traz complexidade aos combates.

Pelo caminho, como já tinha dito, vamos recuperar as memórias do Criador, mas na verdade vão as viver também, visto que vamos sentir na pele aquilo que o programador sentiu quando se mudou para o Japão na sua juventude, e o preconceito que sofreu por ser um “estrangeiro”. E isso vai-nos sempre deixar com a pulga atrás da orelha para perceber o Criador e o mundo em que estamos a jogar.

Narita Boy aposta numa ambientação ímpar e conceitos básicos de plataforma e ação para criar uma aventura muito agradável. O combate empolga com movimentos ágeis e boa variedade de situações, especialmente nos Bosses. O grande destaque é a atmosfera exótica e elaborada inspirada nos anos 80 e 90, na sua banda sonora criada por Salvinsky e o visual pixel art que encanta. Narita Boy é para aqueles que desejam ser transportados para uma realidade diferente.

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