Developer: Ghost Games
Plataforma: Xbox One, PS4 e PC
Data de Lançamento: 8 de Novembro de 2019

Era com muita expectativa que os fãs mais antiguinhos, se me permitem, esperavam por um novo Need For Speed. Aquele velho fantasma do magnífico Need For Speed Underground continua a colocar uma fasquia muita alta à EA e neste caso à Ghost para a concepção do “reviva” desse jogo no tempo moderno. Curiosamente os fãs vão satisfeitos por várias razões, mas os jogadores mais exigentes vão encontrar várias falhas de torcer o nariz. Vamos lá então queimar borracha, neste caso, as teclas, a explicar Need for Speed Heat.

Comecemos pela história, e em vários pontos vamos facilmente usar outros jogos da franquia como comparação, por exemplo, Payback, tinha quanto a mim uma história e uma narrativa mais sumarenta, mais bem delineada e com mais arcos, isto é, com aquelas 3 personagens, existia uma maior ligação ao jogador, mas ao mesmo tempo uma maior curiosidade para conhecer as suas estórias e como se entrelaçavam. Neste caso Heat coloca-nos no cliché de fugir à polícia porque frequentamos corridas ilegais à noite, e causando todo o tipo de sarilhos por causa disso. A questão é que a história é um pouco colada a cuspo, porque tecnicamente somos apanhados por uma força especial liderada por Frank Mercer que tem como objectivo de vida acabar com a raça dos corredores ilegais, e temos de começar do zero, aliando-nos a duas personagens, os irmãos Rivera, e bem antagónicas, Lucas é o mecânico de serviço que vai passar a vida a alimentar o nosso vício de customização e de criação do monstro mais veloz de Miami, já Ana, tem sangue na guelra e toda ela é velocidade e perigo, portanto a miúda que queremos impressionar.

Portanto na verdade não há grade história apesar um twist aqui e ali, a parte mais sumarenta da história é dualidade que vamos encontrar em os dois climas de corrida, isto é, entre o dia e a noite. Um ciclo do qual podemos escolher um lado, o de dia, com as corridas legais, onde vamos competir com outros corredores para ganhar o prize pool da corrida, dinheirinho que podemos utilizar para comprar novas peças para o nosso carro, sejam de upgrade de motor, de chassi, transmissão ou auxiliar, seja a parte da customização estética, onde podemos mudar as partes da carroceria, a cor e vinil que podemos aplicar, efeitos das cores do nitro, do fumo do pneu, de neon que instalemos até da suspensão e da buzina, mas ainda destaque para a suspensão onde podemos rebaixar o nosso carro, e mudar o som do nosso tubo de escape, que para os amantes da velocidade é sempre um plus.

Mais importante que tudo é que ao contrário de Payback não existem aquelas cartas parvas que saiam em loot boxes para fazer estes upgrades, basicamente temos de ganhar dinheiro para os comprar e temos de desbloquear as opções perante a reputação ganha. É aí que este Need For Speed Heat ganha uma nova dimensão, com o facto de podermos escolher o dia para correr em corridas oficiais e legais onde vamos ganhar dinheiro, por outro lado nas corridas da noite vamos ganhar a tal reputação para desbloquear novas partes e upgrades para comprarmos com o dinheiro ganho de dia.

Apesar de o jogo custar um pouco a arrancar e a dar-nos toda a diversidade que tem, a verdade é que chegando a certa altura para além das corridas tradicionais de circuito ou de sprint, passamos a ter outras tantas de Drift, onde temos de acumular pontos ou o Time Attack onde temos de bater os tempos de outros jogadores online. A juntar a isso temos vários elementos para coleccionar, que vai desde o Street Art para até utilizarmos no nosso carro, passando por Flamingos de Neon, efectuar saltos, bater os radares de velocidade ou mandar placares de publicidade abaixo, todos eles com o mesmo própósito que é, em cada zona do mapa ir desbloqueando pinturas novas ou até customizações específicas e carros especiais. A verdade é que conforme vamos jogando Heat, vamos gostando mais do jogo, vamos tendo mais opões, mais pistas, mais afazeres e isso vai crescendo em nós.

O que não faz muito sentido são as perseguições, atenção não estou a falar de existirem, isso na verdade era obrigatório, o problema aqui está numa coisa muito pouco real, é que os policias quando iniciam uma perseguição estão a circular nas vias e quando pedem reforços spawnam, isto é, aparecem do nada, e por vezes é praticamente à nossa frente, e quando já estamos com 3 ou 4 à perna torna-se impossível fugir de todos e escapar. Para complicar ainda mais o cenário, é que o nosso carro sofre dano das investidas dos carros da polícia, e apesar de podermos passar pelas bombas de gasolina para arranjarem o nosso carro automaticamente, só temos direito a consertar 3 vezes, e os carros de polícia para quase ilimitados.

Para além disso há uma espécie de bug ou se quiserem glitch, porque se atirarmos o nosso carro para o mar, os carros dos polícias vêm atrás e assim despachamos uns quantos, mas continua a não fazer sentido. Se somos apanhados a nossa noite acaba, e com ela os multiplicadores de heat que vão aumentando conforme fomos perseguidos por policias, e ficamos praticamente a zero, e às vezes depois de andarmos a fugir durante uma boa meia hora para aumentar os multiplicadores. É uma espécie de Dark Souls Mode que o Heat gostou de incorporar no seu jogo, o que acelera, e muito a adrenalina, mas quando corre mal só apetece partir comandos. É verdade que mais para a frente vamos ter acesso a subornar os polícias e depois até a ter alguns gadgets que nos ajudam a fugir, como um EMP, mas até lá chegarem ainda vão suar.

Já que falámos de alguns elementos da jogabilidade, falemos da pura e dura, de como os carros reagem aos comandos, aqui deixo já uma dica, assim que começarem a jogar mudem as opções de Drift, isto porque se o deixarem no modo pre definido aquilo que vai acontecer é que para fazer as curvas em Drift, vão ter de largar o acelerador e voltar a carregar enquanto guinam para um lado, e é muito mais lógico e fácil, se, como na vida real, travarem para o fazer, isso de facto faz muita diferença para entrarmos no espírito do jogo. Depois tenham em conta que a jogabilidade é muito arcada, mais perto de um Scud Race, onde o intuito é ter sempre o pé na tábua e o Drift é a forma natural de fazer todas as curvas. Para este lado Arcade tudo é destrutível, não esperem ficar ficar bloqueados em árvores ou postes, isso só vai acontecer quando forem de frente contra um prédio. Em Need For Speed Heat velocidade é a palavra de ordem e por isso não esperem sentir grande diferença entre bólides, é claro que a potência ou a velocidade de ponta serão sempre diferentes, mas coisas como a diferença entre tracção à frente ou atrás não serão notados, tais como outros pormenores que os jogadores de simulação procuram, simplesmente não é isso tipo de jogo.

Graficamente Heat varia entre o brilhante e o fraco, o que vale é que notamos pouco o fraco, nós com o nosso olhar clinico encontramos vários problemas, nomeadamente os reflexos dos vidros das lojas ou dos prédios serem apenas uma textura sem dimensão e pixelizada, a destruição dos carros não está muito real, nem caem bocados, só ficam amachucados ou riscados, mas o maior problema que encontrei é a falta de vida da cidade. Parece que todas as pessoas de Palm City vivem dentro dos carros ou então estão em casa a ver o Preço Certo, porque percorremos a cidade e nunca vemos viva alma. Existem bancos de jardim, lojas, bombas de gasolina, mas nunca com pessoas, só encontramos alguns dos refugiados em casa no arranque de alguns circuitos no modo de campanha, simplesmente não consigo perceber o porquê. Por outro lado o ciclo dia e noite e até o clima estão brilhantes, com os efeitos da chuva, por exemplo, a mostrarem toda a capacidade gráfica do jogo, com as poças de água a reflectirem as luzes e os elementos, do melhor que já vimos, e por isso ainda mais nos faz confusão de como outros elementos , como este que mostramos em baixo, acontecem.

No entanto Heat vai nos fazendo esquecer estas questões com a brilhante e vibrante Palm City à noite, as luzes, os reflexos, a iluminação a fumaça dos pneus, os drifts e o disparar do nitro estão incríveis, em alguns momentos sentimos mesmo que é a melhor recriação à noite de um jogo de corridas, e vai-nos apetecer sermos apenas boémios esquecendo que temos coisas para fazer de dia. Não que a qualidade gráfica não esteja presente também de dia, está, mas os efeitos de iluminação e reflexos são mais diminutos pela existência da luz solar, e torna mais “normal” a experiência.

Como sempre existe sempre a experiência online, onde podemos jogar com amigos e fazer o clássico show off dos nossos bólides, assim como correr ao lado deles ou fugir ao lado deles, é gratificante termos a nossa Crew, especialmente a fugir da polícia onde equilibramos as coisas.

Outro dos pormenores de Heat, é o Studio uma componente transversal entre app para o nosso smartphone e a biblioteca do jogo que nos permite customizar os nossos bólides na app e trazê-los para o jogo. Durante os meses que antecederam o lançamento de Heat, Studio, a app, dava-nos a possibilidade de todas as semanas desbloquear carros novos, exigindo que fossemos custodiando os que recebíamos para desbloquear carros mistérios. Eu julgava que depois teríamos acesso aos bólides automaticamente no jogo, mas a verdade é que temos de chegar a alguns níveis de reputação para acedermos a esses carros, o que me deixou algo desapontado, no entanto o facto de podermos fazer vídeos para mostrar os nossos carros ou até utilizar a Realidade Aumentada para colocar no set do Truques e Dicas, tem imensa piada.

Need For Speed Heat é um jogo arcade de alma e coração, com uma jogabilidade criada para apenas e só nos saciar a vontade de acelerar pelas ruas, deixando de lado os pormenores mais reais de lado e exigindo audácia e destreza ao volante. É um jogo para impressionar os nossos amigos com os bólides que construímos e para andar a fugir à polícia em perseguições épicas, mas precisava de ser polido, de ter mais vida, de ter uma história mais densa, de criar uma narrativa mais interessante, e peca por alguma pressa em ser editado do que ser aquilo que toda a gente desejava, e a acaba por ser mais um Need For Speed que fica aquém das suas possibilidades.

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