Developer: Toylogic / Square Enix
Plataforma: Xbox One, PS4 e PC
Data de Lançamento: 23 de Abril de 2021

Para percebermos toda a lógica, história e conceito de NieR Replicant vamos ter que recuar muitas vezes no tempo, até porque o jogo original foi lançado em 2010 para a PlayStation 3 e Xbox 360, na altura, e só 7 anos mais tarde é que foi lançado Nier Replicant para PS4 e PC. Agora chega-nos a versão remasterizada da versão oriental do jogo para Xbox One, PS4 e pela primeira vez para Xbox Series S|X, PS5 e PC, num trabalho realizado pela Toylogic juntos dos criadores originais com o selo da Square Enix, mas que nos obriga a contextualizar todo o enredo que liga os dois.

Estamos a falar da prequela de NieR Automata, portanto é normal, ao início, ficarem um pouco confusos, especialmente se já jogaram Automata e nunca Replicant, mas nós vamos tentar encadear tudo para que fiquem esclarecidos.

Para começar vamos ainda mais longe no tempo, a um jogo chamado Drakengard, estamos a falar de um jogo que foi ainda lançado na PS2 em 2003 e que na verdade através dos seus múltiplos finais, vai originar o enredo para NieR. Por isso expliquemos rapidamente essa parte, o príncipe Caim e o seu dragão Angelus travam uma dura batalha contra a Rainha Besta, nessa batalha, e naquilo que é o quinto final do jogo, os dois são lançados por um portal dimensional, e a luta acaba por continuar em Tóquio nos dias de hoje. Os dois vencem a Rainha Besta mas levam com dois mísseis de um caça. A morte da Rainha Besta e a sua desintegração faz com que uma espécie de nuvem tóxica apelidada de White Chlorination Syndrome que varre o mundo. A única solução que os cientistas conseguiram chegar foi de que, ao investigar os corpos de Caim e de Angelus, que poderia existir uma forma de separar o corpo da alma, visto que esta doença apenas afeta a alma, e que assim poderiam criar Replicant’s, isto é, novos corpos para depositar as almas que seriam salvas ao serem separadas dos corpos infetados pela doença.

No meio disto tudo os Estados Unidos lançam uma bomba atómica no Japão na tentativa de irradiar a doença, mas ainda fazem pior, acabam por espalhar todas as partículas para todo os lugares do mundo, e portanto a Humanidade está prestes a desaparecer. Com tal a acontecer, o mundo reúne as almas humanas, protegidas por dois andróides, Devola e Popola, até que a doença seja extinta e seja seguro colocar então as almas nos Replicant’s. A solução para devolver todas as almas aos seus novos corpos, aos Replicant’s, depende da junção de dois livros mágicos, o Grimoire Weiss e o Grimoire Noir. Estes são elementos fundamentais que precisam saber para se inteirarem daquilo que vamos falar ao longo da análise.

Em 2049 existem apenas alguns sobreviventes, entre os quais dois irmãos, Nier e Yonah, com Yonah infectada com aquilo que é apelidado de Black Scrawl (Rabisco Negro), nesse prelúdio do jogo, vamos nos aliar ao livro que apenas pede em troca a alma de Nier, mas lhe vai poder conceder a forma de derrotar as Sombras para manter Yonah em segurança. De facto isso acontece, mas Yonah fica pior.

A ação depois passa para 1312 anos depois, onde as personagens Nier e Yonah vivem numa pequena vila que se ergueu perante os destroços da antiga civilização. Não querendo estragar toda a experiência, não são os mesmo, são Replicant’s, e daí a sua aparência diferente e tudo, mas o problema subsiste. Yonah continua doente e Nier precisa de encontrar um cura para ajudar a sua irmã. Nessa busca pela cura Nier vai encontrar Griomoire Weiss, um dos livros de que vos falava, e apesar da sua memória estar meio turva, Weiss vai dizer a Nier que a solução para a cura da sua irmã, é matar todas as Sombras, isto é, as almas penadas que vagueiam pelo mundo, mas a verdade pode não ser bem essa, mas não vou dizer mais nada, porque a parte do storytelling é uma das partes mais fulcrais do jogo e o porque do seu culto. Acho que com isto já ficam com uma boa ideia do jogo.

Não, não posso dizer que seja fácil de assimilar, compreender e até acompanhar, mas a verdade é que esta narrativa acaba por nos agarrar por isso mesmo, pela qualidade e complexidade de cada uma das personagens e pela imprevisibilidade do argumento. No entanto mesmo aqueles que estão a jogar NieR pela primeira vez vão se sentir mais confortáveis com esta versão que acaba por ter vários elementos, diálogos, cenas, cut scenes que vão enquadrar um pouco melhor a história. Mesmo assim, são 15 horas de jogo que só vão conseguir retirar todas as respostas se jogarem cerca de 40 horas para acederem a todos os finais.

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As primeiras horas, diria que são aquelas que acabam por ser as mais fraquinhas. O início é confuso, a assimilação de todo o conceito não é fácil, e só o é, se souberem a história, como eu a expliquei no início deste texto. As missões iniciais são aborrecidas e apenas consistem em viajar do Ponto A ao Ponto B, fazendo recados de um lado para o outro sem grande lógica. O contraste com o prólogo que foi logo a disparar na ação Hack N’ Slash, contrasta com essas horas lineares onde vamos andar atrás de um flor que pode de alguma forma curar Yonah. Curiosamente essa busca vai levar-nos até ao Grimoire Weiss e a primeira luta com um boss, ou um par deles, neste caso, aí sim começa a dinâmica da utilização dos ataques corporais com os mágicos do nosso livro, que se desenvolve ainda mais com o encontro com uma das personagens centrais do jogo, Kainé, com o desenvolvimento e conhecimento de novas técnicas de combate e de magias a poderem ser utilizadas.

A base dos controles é um clássico Hack N’ Slash com uma mistura de combates corpo a corpo, mecânicas de disparos rápidos ou de disparos carregados por tempo, assim como outro tipo de feitiços que podem disparar lanças do chão ou invocar um punho gigante para varrer os inimigos. Uma das melhorias bastante importantes passa pelo lock da câmera para que seja bastante mais simples e intuitivo atacar o adversário que queremos assim como disparar os projéteis.

Como já referi, é esse livro apelidado de Grimoire Weiss, que tem o funcionamento idêntico do Pod em NieR Automata, fica a voar ao nosso redor e dispara, com as suas funções a serem definidas através do menu de pausa, onde podemos atribuir os poderes que queremos usar. Ao abrir o grimório, o jogador pode customizar as suas armas e equipá-las com diferentes “palavras” que correspondem a magias. Elas, por sua vez, são obtidas ao derrotar inimigos em combate e servem para garantir alguns buffs passivos, como aumentar a percentagem de dano causado por ataques físicos e mágicos. Se o jogador estiver com preguiça de mexer nesse sistema, é sempre possível otimizar o uso das palavras instantaneamente com a opção de escolha automática.

À primeira vista, NieR Replicant é um JRPG como tantos outros do seu tempo. Bem no centro da vila, temos a casa do protagonista e da sua irmãzinha doente, e um pouco mais ao sul fica o comércio local, com diversas lojas a vender item, equipamentos e melhorias para o nosso inventário. É na procura por todas as armas do jogo, que vão desbloquear também os vários finais do mesmo, são varias as forma de as adquirirmos, seja por “quests”, seja apenas por compra ou por satisfazer a vontade de algum NPC, este será mais um dos elementos a ter em conta. Fica a dica, utilizem bem as 3 slots de save, para que não passem o ponto sem retorno do jogo e depois terem que jogar do início para ter “aquela” arma que precisam para desvendar um dos fins.

Mais ao norte, fica a grande biblioteca local, onde frequentemente vamo-nos encontrar com Popola, que nos vai dando mais missões para cumprir e com isso abrindo o mapa, dando novas áreas para explorar e até novas mecânicas para experimentar. Por exemplo, ao explorar uma grande mansão misteriosa, acabamos por andar a procurar por chaves para abrir portas num mapa bem parecido com Resident Evil. Mais adiante, ao explorar um laboratório subterrâneo, o jogo abraça uma perspectiva isométrica e a aventura quase que parece um dungeon crawler na escola de Diablo.

O jogo não é de todo consensual em termos gerais, mas a banda sonora do jogo agrada a todos, composta por Keeichi Okabe, também responsável por outras franquias como o  Tekken e Ridge Racer, as composições orquestradas, são mágicas, são ricas e cheias de camadas, texturas e profundidade. É impossível não vaguear pelos cenários, também eles lindíssimos, e não ficar emocionado ao ouvir tais composições.

Como não poderia deixar de ser, a ver.122474487139 resgata todos os temas musicais incríveis presentes no jogo original, mas o compositor e a sua equipe da MONACA regravaram bastante material, com direito a faixas expandidas e material inédito.

O cuidado sonoro foi muito além das músicas, e as falas dos personagens também foram regravadas em melhor qualidade sonora, já que o jogo de 2010 não era exatamente primoroso nesse departamento, especialmente a sua versão em inglês.

Graficamente o jogo situa-se entre o remake e o remaster, isto porque a arte conceptual é a mesma, o design dos cenários são os mesmos, mas a qualidade é muito maior. Em termos gerais, o jogo passa dos 720p a 30fps para os 4K a 60fps, para além de todos os ambientes, modelos das personagens terem sido refeitos, assim como os efeitos de iluminação e o horizonte mais pormenorizado e sem aquele efeito de blur.

Em termos de diferenças em comparação com o original, destacar ainda o novo modo de Auto-Batalha, isto é, para todos aqueles que apenas quiserem viver a narrativa e deixar os combates de parte, focando-se só nos Bosses, por exemplo, vão o poder fazer através de um simples premir de botão que vai ativar a Inteligência Artificial a combater por vocês.

Em termos de narrativa podem ainda contar com mais um capítulo com um novo objetivo e também com novos pormenores sobre a história do jogo para desvendar. Ainda neste campo, podem contar ainda com um novo final de jogo, o Ending E, que dará um maior conhecimento e ligação com NieR Automata, para que possam compreender melhor o enredo.

NieR Replicant ver.122474487139 é um jogo de culto, e se já o era em 2010, certamente o será agora também em 2021. Recebe um remake ou remaster, como quiserem, efetivamente merecedor da sua qualidade, tornando-o quase um jogo para esta geração. As suas paisagens por vezes demasiado vazias, e a navegação de ponto A para o ponto B poderá ser algo entediante, por vezes, mas o seu refinado sistema de combate, aliado a uma narrativa densa, aprimorada, detalhada; ao lado de uma banda sonora magnífica vão vos levar a jogar vezes sem conta para descobrir todos os seus finais.

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