Developer: Notgames, tinyBuild
Plataforma: PC
Data de Lançamento: 30 de Janeiro de 2020

Não é necessário dizer a importância que a televisão teve na construção da nossa sociedade actual e na maneira como a mudou para sempre. Tanto assim é, que às vezes quase a olhamos como uma entidade omnipresente que existe quase como que naturalmente. Como se não tivesse toda uma máquina por trás onde várias pessoas trabalham para que tudo funcione como um relógio e sem a mínima irregularidade.

Porém, não é bem assim, especialmente se olharmos para a imprevisibilidade das transmissões em directo, cujo controlo sobre as várias situações é bem menor. Not for Broadcast aborda precisamente isso, um interessante e engenhoso jogo que nos coloca no papel de um editor de TV, que tem de se desembaraçar gerindo todo o conteúdo a ser transmitido ao público. E sim, com a dificuldade de ser em tempo real.

Não se preocupem, não é exigida uma formação especial. Ou melhor, é; mas tudo o que precisamos saber acaba por nos ser explicado num tutorial. Um tutorial que surge quando um colega nos telefona atrapalhado e pedindo para o substituirmos no comando de uma transmissão que está prestes a ir para o ar.

A tarefa pode parecer simples, mas será necessária bastante calma, atenção e coordenação. Temos um painel com vários ecrãs, luzes e botões que nos farão suar para correspondermos momentos de transição entre os ângulos adequados das câmaras, cortar e passar publicidade. Tudo nos tempos certos.

É uma sátira à atmosfera dos 80, numa espécie de distopia Orweliana para a qual foram contratados actores reais e criarão o ambiente movimentado – e muitas vezes imprevisível – de uma estação de notícias que passa directos.

São precisamente os imponderáveis e os inconvenientes das transmissões ao vivo que provocam situações absolutamente hilariantes, e em Not For Broadcast não é diferente. Na verdade, o próprio jogo foi desenvolvido nesse sentido, com um humor muito britânico e nonsense que dá cor ao título da NotGames. A nossa missão, como devem calcular, será a de prever e cortar episódios que podem tornar a transmissão num desastre.

No entanto, nem é esse o aspecto mais interessante de Not For Broadcast, porque eventualmente ver-nos-emos envolvidos no centro de uma trama política, que por sua vez nos irá colocar alguns dilemas morais. É na realidade o perfeito exemplo de que a forma como se dá uma notícia pode fazer toda a diferença na influência que terá no expectador. Imaginem o clássico Papers Please, mas remetido ao mundo da televisão. Onde até a publicidade que decidimos passar, irá obrigar-nos a ponderar entre o lucro e as consequências para o consumidor.

Estão planeados chegar mais capítulos no futuro, provavelmente com conjunturas e desafios diferentes. Graficamente, dadas as próprias características do jogo, não há muito a relatar, no entanto, é importante referir as excelentes a actuações dos actores, que têm a capacidade de ser naturalmente cómicos sem que pareça que estão a exagerar. Todos os painéis e a própria sala que acabará por ser o nosso posto de trabalho estão suficientemente credíveis para que pareça que estamos perante uma verdadeira redacção de notícias.

Not For Broadcast é mais uma gema que nos chega através da tinyBuild e uma das suas experiências mais interessantes. Entretém-nos de um modo bizarro, porém, excepcionalmente divertido: e consegue uma coisa extraordinária – consegue levar-nos a reflectir até que ponto estamos realmente informados.