Developer: Toei Animation / ILCA
Plataforma: Xbox One, Xbox Series X|S, PC, PlayStation 4 e PlayStation 5
Data de Lançamento: 12 de janeiro de 2023

O jogo que homenageia de forma completa a visão de Eichiro Oda e do anime que empolgou milhões, One Piece, chegou ao nosso porto, isto é, à nossa redação. Será que chegou a bom porto…

Os mais de mil episódios do anime são, por si só, sinal de que existe uma legião de fãs, e, como tal, os que querem ver as suas personagens favoritas nos videojogos também. Daí não é de estranhar a quantidade de jogos que já saíram sobre o One Piece. Quer seja dedicado a um arco em específico ou mais amplo na sua abordagem, não havia, até hoje, um jogo que recordasse todos os anos e todos os momentos chave desde o início. One Piece Odissey é esse jogo, mas não terá sido que tentou ser demasiado?!

Comecemos pela história deste jogo, o bando do Chapéu de Palha a vaguear pelo mar são projectados pelo ar rumo a misteriosa ilha apelidada Waford, mas pelo caminho são atacados por pedaços de gelo que carregam relâmpagos dentro de si e o seu navio, o Thousand Sunny, fica severamente danificado da queda. Luffy e os seus amigos são salvos por duas personagens misteriosas, Lim e Adio que não são propriamente muito fãs de piratas.

Publicidade - Continue a ler a seguir

Logo após começarem a desbravar a tal ilha, o que acontece é que são atingidos por uma habilidade que retira todo o seu conhecimento de como usar as suas próprias técnicas. Essas habilidades ficam aprisionadas em cubos que só podem ser recolhidos em condições especiais. Como já estão rapidamente a perceber, a história é um pouco atabalhoada para servir um propósito, o de conseguir que as nossas personagens jogáveis não tenham muitas técnicas para utilizar e obrigar-nos a procurá-las incessantemente durante as 40 horas de jogo. Exacto, 40 horas de jogo que poderiam ser um óptimo sinal para os fãs mais acérrimos, mas até esses, certamente, vão achar várias secções completamente desnecessárias e criadas apenas para este propósito que referi.

Eu tenho uma grande dificuldade em assimilar um jogo cujo conceito seja dar um pequeno aperitivo das habilidades que vamos ter ao dispor, mas depois do tutorial, geralmente, magicamente perdem todos os seus poderes e habilidades, ou até se esquecem de como os executar, como é o caso. Sinto que é quase como ir pelo caminho mais fácil para atingir o seu fim, sem aproveitar a viagem. E One Piece é exactamente sobre a viagem, sobre a relação de Luffy com os seus amigos que o acompanham fielmente até aos confins do mundo para encontrar o misterioso tesouro do ex-rei dos piratas, Gol D. Roger falava, é sobre os sacrifícios que muitas vezes são feitos em nome da amizade, do amor, da camaradagem, da justiça, da honra e do bem.

E é aí que este One Piece Odyssey me perde por completo, porque por mais horas que o jogo tenha no seu desenvolvimento, a dedicação a essa viagem, a essa construção da narrativa que encontramos no anime acaba por ficar de fora, porque, o bando do Chapéu de Palha está a viajar nas suas próprias memórias, através do poder de Lim, que os permite reviver os momentos fulcrais da sua vida para readquirirem as habilidades perdidas, ou esquecidas.

A viagem, acaba assim, por ser meramente saudosista, com boas recordações, dos momentos chave da franquia, dos vilões mais icónicos de todos os tempos do One Piece, mas com os nossos heróis pirata dos dias de hoje, torna-se difícil de assimilar. Não me entendam mal, adorei recordar esses momentos, com o grafismo cell shading bem executado, ao nível de Dragonball Z Kakarot, e em especial, as cut scenes com os momentos de maior impacto, mas o esforço para lá chegar é simplesmente demasiado.

Como já perceberam, o jogo divide-se entre a ilha Waford e Memoria, esse lugar mágico criado por Lim onde vamos tentar recuperar as nossas habilidades. No início exploramos a ilha, nomeadamente uma gruta para percebermos as mecânicas do jogo e recuperarmos algumas habilidades de Luffy e companhia. O gangue agora progride como um grupo e isso significa que podemos usar as suas habilidades especiais para alcançar lugares ou objetos que, de outra forma, seriam inacessíveis. Por exemplo, Luffy pode usar os seus poderes de borracha para se agarrar a bordas distantes e contornar obstáculos, mas terá que ser Chopper a passar por estreitos e pequenos túneis para chegar a novas áreas. Zoro pode cortar portas de metal, e a capacidade de Sanji de encontrar ingredientes e itens pode ser vital para cozinhar pratos especiais. O design dos personagens, as vozes originais do anime e o mesmo senso de humor está tudo intacto, e são, de longe o ponto alto do jogo.

Quando não estamos a percorrer todos os cantos de Waford ou de algum lugar a que acedemos através de Memoria, estamos naquilo que conhecemos como o tradicional combate por turnos clássico. Vamos ter quatro membros ativos do gangue e cada um deles terá um conjunto diferente de habilidades de combate, dependendo da sua especialidade ou, é claro, da Fruta do Diabo que tenham comido.

Este combate por turnos é alimentado por uma lógica de pedra/papel/tesoura que atribui a cada membro do grupo, inimigo ou boss um tipo de dano poder, velocidade ou técnica. O poder supera a velocidade, a técnica supera o poder e a velocidade supera a técnica. O que faz esse sistema funcionar é que não há uma ordem nos turnos, podemos escolher livremente qualquer personagem para atacar primeiro. Mesmo que não estejam no nosso grupo de quatro personagens activas, podemos trocá-las livremente sem perder o turno. Também podemos ver qual dos inimigos será o próximo a jogar e tentar criar a melhor estratégia. Uma vez que todos os quatro personagens no nosso grupo ativo tenham realizado uma ação, a ronda de combate termina e todos podem agir novamente. As animações dos ataques então muito boas, iguaizinhas ao anime e dão aquela adrenalina que gostamos, mas isso, por si só, não chega.

Qual é o problema? É que o jogo é tão fácil que ter algum tipo de estratégia ou não é quase irrelevante. Ao ponto dos combates chegarem a pontos de serem apenas uma mera formalidade, onde colocamos a acção em modo rápido, colocamos em auto-battle ou andamos a fugir no mapa dos inimigos para não perder tempo em confrontos que não fazem a mínima diferença. E não fazem porque a atribuição de pontos de experiência não está equilibrada, isto é, podem conseguir mais XP por derrotar um bando de macaquinhos ou um Boss.

Esta problemática aliada a um sem número de pequenas missões intercalares, de ir do ponto A ao ponto B, para trás e para adiante só para dar um item ou receber uma chave, ou abrir uma porta ou desvendar o caminho a seguir, etc, tornam as horas de jogo longas, pouco dinâmicas e aborrecidas.

O jogo foi cuidadosamente elaborado ao longo de muitos anos, produzido com envolvimento direto do criador da série Eiichiro Oda, apresentando uma história enraizada no cânone e complementada por uma trilha sonora composta por Motoi Sakuraba, conhecido pelas suas contribuições musicais para videojogos como Dark Souls e a série Tales of.

Paga-nos o café hoje!

E esse cuidado denota-se na recriação das personagens, dos diálogos, do humor, da imagética de todo o anime que foi lançado originalmente em 1999 e que vai com 24 anos de vida e para além dos mais de mil episódios, também 15 filmes. Isso está de facto muito bom e é, juntamente com as cinemáticas e as animações de combate de cada personagem o ponto alto do jogo. No entanto o cuidado não me parece retribuído de igual forma na progressão, na dinâmica das missões apresentadas e na facilidade do jogo no combate por turnos. One Piece Odissey, para mim é como o Gomu Gomu No Gatling Gun do Luffy, a disparar em todas as direcções, mas depois não acerta em todos.

Deixa um comentário