Developer: Atlus, Omega Force, P Studio
Plataforma: PlayStation 4, Nintendo Switch, PC
Data de Lançamento: 23 de Fevereiro 2021

Sempre que se fala num novo Persona soam os alarmes para perceber se é uma sequela, um jogo novo ou outra mistura qualquer que a Atlus às vezes se lembra de fazer. Apesar do jogo já não ser totalmente novo, pelo menos no Japão, Persona 5 Strikers chegou finalmente a este lado do Continente, quase um ano depois, como já tinha acontecido noutros casos. 

Persona 5 Strikers é o resultado de uma colaboração que juntou a P Studio, responsável pelos antigos jogos de Persona, à Omega Force, um estúdio da Koei Tecmo acostumada a colaborações para colocar o seu estilo de combate à Dynasty Warriors. Estilo esse que é muito apetecível em diversas colaborações e que ficou celebrizado como “Musou”.

O jogo é uma continuação de Persona 5 original que saiu em 2017, mas se jogaram Persona 5 Royal, esqueçam essa sequência de acontecimentos. Até porque em relação a esse, há personagens chave que não aparecem neste, nomeadamente Kasumi, a miúda ruiva que desempenhava um papel importante na história. Mas não é só, também ficaram de fora algumas das novidades da jogabilidade de P5R como foi o caso do uso do gancho que Joker, a figura principal deste JRPG, usava para chegar a zonas que pareciam inacessíveis. Posso então dizer que Persona 5 Strikers é um spin-off ou se preferirem uma extensão de Persona 5 com um toque de requinte de Musou que marca o regresso dos ladrões mais famosos do Planeta, os  Phantom Thieves.

Para quem aterra de pára-quedas neste Persona, não deve assumir que este é o estilo normal da franquia, mas pode ser uma boa forma de entrar na série porque esta maneira de combater, em tempo real, misturado com estratégia, dá uma nova vida a Persona que até aqui nos tinha habituado com combates por turnos bastante evoluídos. Também podem ficar descansados quanto ao enquadramento da história e respetivas personagens, até porque o jogo usa, de forma inteligente, a chegada de novas caras para ir explicando quem é quem e o que estão ali a fazer. Para quem já está familiarizado com Persona 5, como é o meu caso, é sempre bom rever caras conhecidas e poder logo usar as capacidades de cada um para ultrapassar os inimigos.

Enquanto em Persona 5 andámos a juntar a nossa grupeta perfeita para combater os que, de uma forma ou de outra, estão a corromper a sociedade, Strikers celebra a amizade do grupo e leva-nos numa aventura com todos aqueles amigos que criamos laços inseparáveis, diria, para a vida. No início do jogo, 4 meses depois do final de P5, Joker e o nosso fiel companheiro Morgana, o tal gato que se recusa a ser chamado como tal, voltam a Tóquio para celebrar as férias de verão. Ryuji, Ann, Makoto, Yasuke e companhia decidem juntar-se e claro que se depararam logo com mais aventuras e corações corruptos para a sociedade que só eles, os Phantom Thieves, terão a capacidade de purificar e até perdoar algumas pessoas pelos seus comportamentos desumanos.

Tudo é familiar em Strikers, até Sojiro, que em Persona 5, nos acolheu no sótão do seu café LeBlanc, que se tornou o ponto de encontro do nosso grupo que foi crescendo ao longo do jogo. Sojiro está novamente disposto a oferecer o seu espaço para o grupo planear as férias de verão. E que férias. Embora a primeira grande missão seja na nossa zona de conforto, preparem-se depois para andar por várias cidades japonesas numa autocaravana. Para quem gosta de cultura japonesa e de cidades nipónicas, vai achar um mimo.

Já sabem, os habituados a estas andanças, que Persona se divide em dois mundos. De um lado o real e do outro um universo paralelo, onde nos deparamos com os desejos e características mais imorais dos inimigos. Comportamentos esses que precisam de ser modificados por nós, sejam eles de abuso de poder, bullying, assédio sexual, entre outros. É nesse mundo cognitivo que se passa a maior parte da ação. Enquanto do lado mais “real” andamos a planear o ataque ao inimigo, no outro, a ação toma conta de nós nas Jails (Prisões) que substituem os Palaces (Palácios) de Persona 5.

Há algumas diferenças entre aquilo que eram os Palácios e o que as Prisões nos deixam fazer. Por exemplo, quando derrubamos o inimigo responsável por ela, a prisão não se destrói, ao contrário do que acontecia anteriormente com os Palácios. Podemos voltar a viver a ação dessa prisão e lutar novamente para ganhar mais pontos de experiência ou até para fazer outras atividades adicionais que nos levam para uma narrativa mais complexa para descobrirmos alguns porquês, daquilo em que o inimigo se tornou. 

Estas prisões mantém alguns elementos que os Palácios já tinham, como os Tesouros que nos dão itens para nos ajudar em combate por exemplo. Há guardas na mesma e até drones que procuram os invasores. Os checkpoints substituem as salas de debate e é lá que podemos “salvar” o jogo e até mudar a equipa que está em campo, digamos assim. Isto porque podemos ir a jogo com todos os Phantom Thieves, menos Futaba, a ex-reclusa que não vai à escola e prefere ficar em casa. Podemos levar 4 do grupo para a ação e até trocá-los a certa altura, nestes pontos intermitentes, depende da nossa estratégia e abordagem às situações.

A primeira Prisão que vamos visitar é a de Alice, uma rapariga que, entre outras coisas, fez bullying a algumas colegas por inveja e manipula as mentes de vários homens para caírem aos seus pés. Numa das primeiras incursões neste mundo cognitivo damos de caras com Sophia, uma misteriosa personagem que insiste ser um “companheiro humano” e que se junta aos Phantom Thieves para ajudar e bem, uma vez que fora do mundo cognitivo, ela é uma espécie de app que está no telemóvel a falar connosco e a conhecer os nossos amigos. E bem que vamos precisar dela para encomendar itens numa loja virtual em que usamos criptomoedas para pagar. Outro dos personagens novos que destaco é Zenkichi, um policia que acaba por se relacionar com o grupo. Persona 5 Strikers acompanha as tendências do mundo cada vez mais virtual e tecnológico e faz-nos o retrato de uma sociedade que não é leal aos princípios do ser humano, reforçando o poder da amizade e a importância em ter um bom grupo de amigos ao nosso lado, principalmente na hora do combate.

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Os confrontos com os inimigos são uma delícia. Como já falei no início, são a grande mudança para este Strikers. Um combate com ataques Hack n’ Slash em tempo real com o tal estilo Musou que nos coloca no centro da ação, capaz de fazer ataques simples com sucessivos toques no quadrado e depois triangulo, caso joguem na PlayStation, e ao mesmo tempo aliar a estratégia que havia no combate por turnos, onde chamamos as nossas Personas para ir à luta. Cada personagem tem as suas criaturas predefinidas que já vêm de Persona 5, com excepção do nosso personagem principal Joker que tem acesso a vários tipos de monstros que podemos ir mudando e até usar o tradicional Velvet Room para fazer a fusão de Personas ou para melhorar os seus ataques. De resto, esperem usar os já conhecidos de cada um como é o exemplo de Zorro, caso estejamos a jogar com Morgana. Também os tipos de ataque especializados não mudam. Ryuji usa o bastão elétrico, Ann o seu poder de fogo e por aí fora, sem esquecer os “tiros” especiais que podemos usar a qualquer altura com o R1 e L1 com a arma que cada um tem equipada.

Podemos ir mudando de personagens, ao longo do combate, dos tais quatro que decidimos levar, para controlar, mas todos lutam ao mesmo tempo, ou seja, se estivermos com o nosso personagem Joker, o resto da equipa continua a lutar e a ajudar. Isto provoca autênticos momentos de caos e de imensas combinações possíveis. O Baton Pass está de volta para combinações de ataques em equipa com um simples aviso no ecrã em que temos de carregar numa certa direção num determinado período de tempo. Os All Out Attack continuam a existir com um simples toque no círculo, quando esse tipo de ataque está disponível e o Showtime também, o truque especial que os personagens ganham com o aumento de nível à medida que combatem. Podemos usar ainda o cenário para fazer ataques diversificados,como por exemplo subirmos a um poste e depois aproveitar para rodopiar nele destruindo todos os inimigos que estão à nossa volta. Nas imagens pode parecer confuso, mas acreditem que é muito simples e divertido. 

No final os personagens evoluem os seus pontos de XP e ainda aumentam o sistema Bond, uma espécie de árvore de evolução que nos deixa trocar os Bond points por habilidades, como por exemplo, recuperar pontos de vida mais rápido ou ter mais dano quando estamos em combate, entre muitas outras coisas. Estes pontos de Bond aumentam também com o avançar da história. No fundo, substituem os Confidants de Persona 5 Royal e são bem mais simples porque funcionam para todos os personagens ao mesmo tempo e não de forma individual. 

Além do combate, a grande diferença de Strikers para o jogo original e Royal é a falta de atividades extra que ficaram de fora. Uma das partes mais divertidas de Persona é ir à escola, ler livros, sair para jantar com alguém, jogar dardos, ir ao spa, alugar filmes e por aí fora. Aqui, como a história do jogo decorre durante as férias, nota-se a ausência dessa componente de vida social, e isso fez-me alguma falta no Persona 5 Strikers.

Também o ritmo das missões parece-me um pouco mais lento. Basicamente, na introdução a um novo inimigo existe uma parte de história, depois de investigação e só depois a parte de visitar as suas Prisões. Contra isto nada de mau a dizer e até tem bastantes cutscenes, mas os momentos de narrativa de um inimigo para o outro, nomeadamente quando se muda de cidade demora demasiado tempo e quebra o ritmo da aventura. Sem exagero, na passagem para  Sendai, a segunda cidade que visitamos no jogo, há uns 45 minutos de texto/cutscenes, até voltarmos à ação. É certo que Persona, como um dos melhores JRPG de sempre tem de ter esta parte que faz parte da cultura nipónica, mas podia ser mais doseado.

A nível gráfico, o jogo é idêntico ao que já nos habituou, há os habituais tempos de espera e sendo um jogo que saiu para PS4, não houve melhorias para a PS5, nem uma versão que atualizasse o jogo, pelo menos para já, até porque a consola ainda é recente e normalmente os jogos Persona saem primeiro no Japão e passado bastante tempo é que chegam ao Velho Continente. Não posso acabar esta análise sem referir a música e o ambiente deste Persona 5 Strikers que mantém intacta a beleza que lhe é característica com uma vantagem para quem tiver jogado Persona 5 Royal que ainda tem acesso a mais faixas musicais. A nível de longevidade, não atinge as cerca de 130 horas de P5R, mas terão umas boas 45 horas de jogo, ou mais, conforme a exploração que decidam fazer.

Persona 5 Strikers é uma alternativa diferente para os habituais jogadores da franquia. Reúne de novo os Phantom Thieves e inova com um estilo de combate bastante popular ao estilo de Dynasty Warriors. Enquanto não chega um Persona 6, a Atlus vai nos presenteando com estes brindes. Depois da versão Royal, agora chega Strikers, cada um com as suas próprias características e com relativas diferenças entre edições. A expectativa está alta para o futuro de uma franquia de culto para todos os amantes deste tipo de jogo e que por si só vende consolas. É esperar para ver e até lá, aproveitar todo o universo de Persona 5.