Developer: Other Ocean Interactive
Plataforma: Xbox Series S|X, Xbox One e PC
Data de Lançamento: 04 de fevereiro de 2021

Project Winter é um jogo que está a dar muito que falar e não é um exclusivo de um super estúdio com um elenco de luxo e um orçamento astronómico. É um jogo que tem um excelente ideia e uma realização da mesma, acima da média. Apesar de estar no horizonte chegar à PlayStation e à Nintendo Switch, a verdade é que nesta altura, é um exclusivo PC e Xbox, estando disponível no Game Pass.

A Other Ocean Interactive que tem no seu rol o remake do Medievil, Rick & Morty: Virtual Rick-ality ou Super Monkey Ball, decidiu seguir um rumo próprio com este jogo, fugindo ao trabalho com outras companhias e com a sua equipa do Canadá fazer este jogo e editá-lo.

Project Winter segue a ideia, o conceito tradicional de um jogo de tabuleiro, como o Cluedo, por exemplo, onde temos de tentar deduzir quem é o culpado, com gestão de recursos mais perto de um Catan ou de um Pandemic, para recorrer a jogos mais reconhecíveis, mas nem sempre a tentativa de passar do tabuleiro para o jogo corre bem, e já que falei disso, a transposição do Pandemic para jogo não é nem de perto nem de longe algo que satisfaça como o jogo de tabuleiro.

Comecemos então pela ideia central deste Project Winter, estamos a falar de um jogo cooperativo de oito pessoas onde vamos ter que usar a arte da persuasão e de sobrevivência. No fundo somos um alpinista que com outros 7 vamos tentar recolher recursos para criar ferramentas para reparar um gerador para termos energia na nossa Cabin, para conseguirmos enviar um sinal via rádio para chamar um helicóptero para nos tirar dali antes que uma terrível tempestade de neve nos mate a todos.

Esta é a ideia central, sendo que estamos a falar do modo Básico, para os jogadores se habituarem às mecânicas, havendo ainda o modo mais complexo e Blackout que é no fundo o primeiro DLC do jogo, mas já lá iremos.

Primeiro explicar o modo mais básico, se já falámos da ideia central, passemos ao particular. Somos 8 jogadores divididos em dois grupos, um de 6 sobreviventes e outro de 2 Traidores. Os 6 sobreviventes vão ter que recolher recursos, criar engenhos de metal, de electrónica ou gasolina para conseguir arranjar o gerador para enviar o sinal de rádio para o helicóptero nos vir buscar. Os Traidores vão tentar sabotar o gerador, o envio do sinal e que a tempestade de neve nos mate.

Pode parecer simples, mas não é, isto porque, tanto os sobreviventes como os traidores têm que lidar com outros elementos enquanto estão a tentar chegar ao seu objectivo. Desde logo o facto de ao início não terem nada mais do que os seus punhos, portanto o primeiro passo, começa geralmente por partir rochedos e árvores para conseguir criar um machado para tornar esse processo mais fácil e rápido. Depois há um conjunto de factores a ter em conta.

O primeiro é o frio, temos que nos manter quentes para sobreviver, se começarmos a “congelar” depois de esgotada a barra da temperatura, a nossa vida começa a esvair-se, e para que tal não aconteça só há duas soluções, ou regressar à nossa “cabin” para aquecer junto à lareira, ou criar pequenas fogueiras, e para isso temos que criar kits de fogueira e andarmos com um jerrican de gasolina e isso gasta-nos duas das quatro slots de coisas que podemos carregar.

Depois temos a fome, conforme o tempo e o esforço utilizado vamos começar a sentir fome, e tal como o frio, quando essa barra se esgota, começa a roubar-nos vida. Portanto temos que recolher frutos silvestres, carne de animais ferozes ou plantas para sobreviver. Se os comermos ao natural ganhamos menos vida do que se os cozinharmos, mas para isso só o podemos fazer na “cabin” ou se tivermos uma fogueira e uma frigideira. Já parece menos simples não é?!

Então agora juntem o factor de nessa equipa de 8 pessoas, duas delas serem traidores, e não sabermos quem são. Os Traidores para além de terem que se preocupar com a sua própria sobrevivência vão ter algumas armas a seu favor para nivelar a diferença de 6 para 2.

Desde logo o facto de terem espalhadas pelo mapa caixas que só eles podem abrir, com itens fundamentais para “caçar” os sobreviventes, bestas, bestas com setas com veneno, veneno para usar em alimentos para oferecer aos inimigos, metralhadoras, rifles, caçadeiras, minas, armadilhas para ursos, e ainda refrigerantes que aumentam o seu status. Para além disso os Traidores podem ainda sabotar, seja os geradores, como já referi, mas também os mecanismos dos bunkers que encerram em si recursos para os Sobreviventes utilizarem, e ainda podem deslocar-se através de uma espécie de condutas subterrâneas que os levam automaticamente para um ponto mais distante do mapa.

Agora falta falar do fator crucial deste jogo e que lhe dá uma dinâmica e interesse superior, para além de ser super divertido e social, isto é, a comunicação que é preciso ter nas partidas. O chat de voz funciona da seguinte maneira, quando os jogadores estão perto uns dos outros, ouvem-se claramente e podem dialogar facilmente entre si, mas conforme se vão afastando vamos ouvindo mais baixinho até os deixar de ouvir, como acontece na realidade.

O que é que isso permite? Permite que a orientação que é apenas feita por um mapa que dá pistas dos principais locais na tal Cabin e os pontos cardiais que nos indicam mais ou menos a nossa posição, seja difícil de dar aos nossos colegas, isto é, eu não consigo dizer que encontrei o heliporto a outro colega se ele não estiver perto de mim, portanto vou ter que procurar pelos meus colegas para o fazer ou andarmos todos atrelados uns aos outros. No entanto isso constitui dois problemas, um deles é o tempo de 15 minutos que não estica, até chegar a tempestade de neve, e por outro nunca sabemos se não andamos também atrelados com Traidores.

Para tentar resolver, ou até complicar mais a questão, os Traidores entre si têm um walkie talkie que podem utilizar para comunicar entre si sem que os sobreviventes o ouçam, enquanto que os sobreviventes podem fabricar walkie talkies para falarem entre si, ou encontrar em caixas próprias, mas se um Traidor também o tiver também saberá todos os seus passos.

É por isso que a comunicação é tão importante porque vão estar sempre em alerta a tentar perceber pelo discurso quem é sobrevivente e quem é traidor, para além de termos que tentar estar sempre atento a todos os barulhos no mapa ou gritos dos nossos colegas que possam denunciar. Mas como tudo na vida também o Traidor pode fazer-se passar por sobrevivente, mas induzir os outros que um sobrevivente é um Traidor para o tirar fora do jogo. Tanto que existe uma votação que é possível fazer perto da Cabin para exilar jogadores, e isso fará com que determinado jogador não consiga entrar e portanto aceder à cozinha, ao balcão de criação e à fogueira para se aquecer.

Como podem ver o jogo é muito complexo, onde se aprende a jogar e a ver jogar, mas em partidas de 15 minutos super divertidas, cheias de humor e muitas vezes de uma confusão desmedida, em que apenas tenha pena que as salas de matchmaking, no nosso caso, estejam reduzidas à Europa como um todo e não a Portugal em específico, para jogarmos na nossa língua, mas podem sempre arranjar mais 7 amigos, como temos feito por estas noites, para a diversão ainda ser mais real.

Falei-vos do modo Básico, mas o modo Normal já inclui uma série de diferenças e uma dificuldade acrescida, porque tantos os sobreviventes como os traidores podem ter papéis específicos, isto é, habilidades que apenas cada um pode utilizar.

  • O Médico, pode ressuscitar todos os colegas que estiverem para morrer, sendo que também perde vida quando o fizer.
  • O Hacker, pode abrir bunker sem ser preciso ter mais elementos para abrir os mecanismos.
  • Cientista, pode fazer reviver jogadores, ou melhor, cloná-los, com o coração de um jogador morto, podermos no laboratório reviver essa jogador, sendo que há sempre a probabilidade de um sobrevivente se tornar traidor ou vice-versa.

Do lado exclusivo dos Sobreviventes temos:

  • Desertor, pode abrir caixas dedicadas aos Traidores.
  • Inocente, um jogador que se escapar com o grupo de sobreviventes dará um bónus à equipa e a sim mesmo na pontuação.
  • Soldado, que sabe onde está o Armeiro e que tem o código de acesso ao mesmo. Neste caso, tanto o Soldado, como os Traidores sabem o código, portanto cuidado.
  • Detective, pode através da investigação aos corpos daqueles que morreram, descobrir pistas de quem os matou.
  • Ladrão de Identidade, este é um jogador específico, isto é, é um jogador que pode escolher o seu lado, seja os traidores, seja os sobreviventes. Para isso, apenas é preciso roubar a identidade de um jogador morto, roubando o seu papel, mas também a sua habilidade.

Para além desta questão dos papeis e habilidades, dizer ainda que o mapa é muito maior, o dobro, o tempo também é o dobro, os locais, nomeadamente com a introdução do Armeiro, do Laboratório e de os objectivos para conseguir reparar o heliporto são dois, e um deles necessita que vejamos fotos de locais para escavar para encontrar as peças dedicadas, vai fazer com que as coisas sejam muito mais complicadas.

Por fim, e até porque o jogo já estava em Early Acess desde maio do ano passado para PC, já temos o primeiro DLC cá fora que se chama Blackout, e neste modo para além das complicações do modo normal, acrescentem o facto de jogarmos de noite, e de em vez de tempestades de neve, temos escuridão total em determinados períodos de tempo, o que nos leva a ficar mais vulneráveis perante os animais selvagens, mas também perante os traidores que nos podem atacar sem darmos por isso. O que podem fazer é criar um tocha, mas mesmo assim a tarefa vai ser complicada, ainda para mais com alguns fenómenos paranormais que por lá acontecem.

Project Winter tem uma curva de aprendizagem bastante interessante, para jogar bem, é preciso de facto comunicar muito e bem, conseguir organizar a equipa em que estamos e estarmos focados no objectivo, e isso só se aprende a jogar e a jogar e a jogar. Por isso a longevidade do jogo é bastante grande até dominarem as regras, as habilidades, as possibilidades, as mecânicas, etc, e depois para além do modo normal e Blackout também para aprender e dominar, temos ainda a parte da customização da nossa personagem.

Customização essa que pode ser feita com algum conteúdo pré-definido, mas também com a realização de tarefas específicas para ganharmos elementos característicos, e ainda as caixas de recompensas que podemos resgatar com moeda do jogo e a loja para comprar itens cosméticos também referente ao número de vitórias que vamos tendo. Aqui ser o melhor jogador não é apenas aquele que sobrevive ou que mata, mas também aquele que mais e melhor trabalha em prol da equipa.

Project Winter, é um jogo graficamente apelativo, um ar meio cartoonesco, misturado com a série 13, recordam-se?! é fluído, a banda sonora está adequada, o trabalho sónico na comunicação está irrepreensível, as mecânicas são boas, são credíveis, e a ideia do jogo é muito bem conseguida. Pegar na técnica dos jogos de tabuleiro e adaptar a um jogo em que a componente social acaba por ser maior do que um jogo de tabuleiro é um verdadeiro feito, e é para já, e para mim, umas das revelações do ano, um vício constante.

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