Developer: Nerial, Devolver
Plataforma: PC, Android, iOS
Data de Lançamento: 25 de fevereiro de 2026
A série de jogos Reigns é uma franquia conhecida pelo seu estilo minimalista e pela mecânica de deslizar cartas para tomar decisões que moldam o rumo da narrativa. Desenvolvida pela Nerial e publicada pela Devolver Digital, a série conquistou popularidade ao pegar em temas complexos — política, religião, poder e moralidade — e traduzi-los em sistemas simples, intuitivos e altamente acessíveis.
O primeiro título, Reigns, lançado em 2016, estabeleceu esta fórmula com um tom satírico e um humor mordaz, ambientado num contexto medieval e monárquico. O sucesso levou à expansão do conceito com novas abordagens. Em Reigns: Her Majesty, o foco deslocou-se para uma rainha, introduzindo novas dinâmicas ligadas à corte e às intrigas políticas vistas a partir do trono feminino.
Mais tarde, Reigns: Game of Thrones transportou a fórmula para o universo da saga criada por George R. R. Martin, adaptando o imaginário da série televisiva e dos livros ao formato card-driven, explorando jogos de poder, traições e alianças instáveis. Já Reigns: Beyond levou a estrutura para a ficção científica, alterando estética e ambientação, mas mantendo intacto o espírito de decisões rápidas e consequências imprevisíveis.
A mais recente incursão da série é Reigns: The Witcher, onde a Nerial, em parceria com a CD Projekt RED, adapta a icónica saga de Geralt de Rivia ao seu conhecido modelo de escolhas por deslize, fundindo o universo dark fantasy criado por Andrzej Sapkowski com a identidade própria da franquia.
Ao contrário do que se poderia esperar, com Geralt de Rívia a assumir naturalmente o papel central, a escolha criativa foi, no mínimo, surpreendente. Em vez disso, o protagonismo narrativo é entregue a Dandelion (Jaskier nos livros), o irreverente bardo do universo de The Witcher, que surge como narrador e criador das histórias que Geralt irá viver. Esta decisão revela-se particularmente acertada, pois permite preservar o tom humorístico e paródico característico da série Reigns.
As histórias assumem a forma de pequenas crónicas inspiradas pela imaginação do bardo, oferecendo uma revisitação livre e criativa das aventuras do Lobo Branco. Cada narrativa integra personagens bem conhecidos dos livros e dos jogos, estabelecendo um equilíbrio sólido entre fidelidade ao lore e uma adaptação mais leve e descontraída. Esta perspetiva de história cantada por Dandelion confere ao jogo uma identidade muito própria, onde o humor negro convive com situações absurdas e com a familiaridade do mundo de The Witcher.
A nível mecânico, o jogo mantém-se fiel à essência da fórmula original. Tal como nos restantes títulos da série, as decisões são tomadas através do deslizar de cartas para a esquerda ou para a direita, numa estrutura simples, mas eficaz. Cada escolha influencia quatro medidores distintos, que representam a relação de Geralt com humanos, não-humanos, magos e monstros. O equilíbrio destes indicadores é fundamental, pois se permitirmos que um deles atinja o máximo ou o mínimo, resulta inevitavelmente na morte de Geralt, muitas vezes de forma inesperada e carregada de ironia, em perfeita sintonia com o tom satírico da narrativa.
Para além das decisões base, cada partida é moldada por cartas de inspiração que funcionam como objetivos secundários. Estas introduzem missões variadas, desde caçar criaturas específicas, agradar determinadas figuras, desmascarar um assassino, conquistar a simpatia improvável de um troll, entre tantas outras. Conforme vamos progredindo na história, vamos tendo uma avaliação de desempenho através de um sistema de até três estrelas por cada história contada por Dandelion. A conclusão destes desafios traduz-se em pontos adicionais, desbloqueio de novas cartas, personagens e linhas narrativas, aumentado significativamente a rejogabilidade.
Apesar de assentar sobretudo na tomada de decisões, Reigns: The Witcher integra também segmentos de combate sob a forma de mini-jogos. Os confrontos desenrolam-se num tabuleiro onde ícones caem verticalmente e devem ser intercetados no momento certo. Geralt pode recorrer aos seus sinais, à espada e à esquiva, sendo que cada erro ou acerto afeta os pontos de vida de ambos os combatentes. O resultado é uma mecânica simples na sua base, mas exigente na execução, por vezes até demais, podendo levar a alguma frustração.
Digo isto porque os inimigos mais poderosos, especialmente alguns combates de maior destaque, elevam consideravelmente o grau de dificuldade. Aqui o pensamento rápido e o domínio do ritmo e da precisão são essenciais. Embora o sistema de combate não seja o foco central da experiência, acrescenta uma nova jogabilidade e aproxima o jogo do espírito das batalhas que acontecem no universo The Witcher.
Para além dos confrontos, surgem também apresentações musicais protagonizadas por Dandelion em diferentes tavernas. Nestes momentos, devemos selecionar as cartas de inspiração mais adequadas às exigências do público. Esta mecânica oferece alguma variedade e ajuda a quebrar a repetição do constante deslizar de cartas, embora a diversidade global de mini-jogos permaneça algo limitada, mantendo o núcleo da experiência firmemente ancorado na gestão estratégica das decisões.
A progressão no jogo centra-se na reputação de Dandelion, que aumenta conforme os objetivos das inspirações são cumpridos. A subida de nível desbloqueia novas cartas de inspirações, permitindo que cada sessão subsequente seja mais rica em possibilidades. A morte de Geralt nas histórias não deve ser encarada como um fracasso, mas uma oportunidade de explorar caminhos diferentes, desbloquear novas cartas e aumentar as opções na narrativa.
Os contratos musicais do bardo e as interações com tavernas e nobres acrescentam um tónico interessante, escolher a carta certa para agradar a audiência desbloqueia recompensas, novas inspirações e progressão no jogo. Este sistema incentiva a aprendizagem contínua, a experimentação e a atenção às consequências de cada decisão.
A combinação de cartas de inspiração, múltiplos finais e mini-jogos garante uma elevada rejogabilidade. Cada nova run oferece situações únicas, embora algumas histórias e personagens reapareçam frequentemente, o que pode causar repetição. O jogo adapta-se melhor a sessões curtas, de 10 a 20 minutos, em vez de maratonas prolongadas, permitindo que possamos explorar gradualmente novas combinações de cartas de inspirações e desafios.
Embora haja frustração em alguns momentos, principalmente nos combates ou em certos momentos na gestão dos medidores, a curva de aprendizagem recompensa a paciência e o raciocínio estratégico. O jogo consegue equilibrar humor, dificuldade e narrativa, tornando cada morte de Geralt parte do processo de descoberta e progressão.
Reigns: The Witcher é uma experiência divertida, estratégica e muito bem adaptada ao formato de jogo de cartas. Mistura humor, narrativa e desafio, oferecendo sessões curtas mas divertidas, ideais para fãs de The Witcher e para novos jogadores. A elevada rejogabilidade, os mini-jogos de combate, apresentações de Dandelion e a fidelidade ao universo tornam-no uma adição inteligente e cativante à série Reigns. Embora algumas mecânicas possam ser repetitivas e certos desafios frustrantes, o jogo cumpre o seu objetivo de entreter e envolver, tornando cada partida uma nova oportunidade de explorar o mundo do Lobo Branco de forma única e humorística.










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