Developer: Marvelous Games
Plataforma: Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 7 de Dezembro de 2021

Quando olhamos para a relevância que a saga Rune Factory ganhou anos atrás no mercado, parecia que finalmente tinha entrado em velocidade cruzeiro, conquistando mais público a cada lançamento. No entanto, divergências relacionadas com a produção levaram a que a partir de 2013 mais nenhum título conhecesse a luz do dia, sendo que o último foi precisamente Rune Factory 4.

Em 2020, os jogadores ganharam nova esperança, com Rune Factory 4 Special a dar entrada na Switch, numa remasterização do original, simultaneamente com o anúncio de que Rune Factory 5 estava em desenvolvimento. Como forma de ir preparando terreno para o jogo que se segue, a publisher Marvelous Europe decidiu também lançar Rune Factory 4 Special na Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC, para que todos pudéssemos ganhando alguma familiaridade com a proposta.

É JRPG na sua génese, ou pelo menos no que à narrativa e natureza gráfica diz respeito. Já a jogabilidade mistura um farming sim com um RPG mais clássico, e em tudo o que estes dois estilos englobam, nomeadamente no tipo de tarefas que vão ocupando o jogador. Ainda assim, é nos pormenores que Rune Factory 4 Special diverge dos concorrentes, entregando uma experiência verdadeiramente única e, passe a redundância: muito especial.

A história começa com a apresentação, e a escolha do sexo do, ou da protagonista; enquanto esta viaja numa espécie de dirigível, com rumo à cidade de Sephia, e onde terá de entregar uma oferenda ao Deus local, um dragão com o nome de Ventuswill. Tudo se descontrola, porém, quando o veículo é tomado de assalto por soldados misteriosos que procuram roubar o presente que está sob a nossa posse, levando a uma pequena escaramuça e a uma violenta pancada na cabeça, o que por consequência fará com que o nosso herói tenha um surto de amnésia e acabe por ser atirado da aeronave.

Acorda posteriormente em Sephia, e não tem recordação do que se passou, de onde está, e muito menos de quem é. Depois de um longo interrogatório, é confundido com um membro da realeza de quem estavam à espera, e até a protagonista acredita brevemente nessa teoria. Todavia, rapidamente todos percebem que não é o caso, particularmente o verdadeiro príncipe que eventualmente chega a Sephia. Contudo, antes que as coisas se descontrolem, como cavalheiro que é, o príncipe propõe que a protagonista o assista na gestão do reino.

Como tal, muitas e importantes responsabilidades esperam por nós, e vão desde a agricultura, às relações públicas, além de termos de resolver o terrível mistério que se esconde nas masmorras, onde uma força oculta transforma humanos em monstros. Rune Factory 4 Special é isto – uma enorme variedade de opções que de certa forma encontram frequentemente um modo de se relacionarem com a narrativa, e sempre de uma forma bastante complexa no desenvolvimento das várias personagens que vamos conhecendo.

A história está dividida em três fases, ou arcos, se preferirem. O primeiro funciona como uma introdução à história e às personagens principais, mas também como uma preparação para o segundo arco, onde o tudo se começa realmente a desenvolver devido a alguns eventos sobrenaturais e que nos atiram para um mundo de fantasia que até ali era desconhecido. Já o terceiro arco pega num enredo complexo e cheio de possibilidades e dá-lhe a conclusão desejada.

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 É uma narrativa que está muito bem construída, e que provavelmente é um dos aspectos que mais nos atrai. A imprevisibilidade do que irá acontecer a seguir leva a que o jogador queira constantemente completar mais uma tarefa para que lhe seja mostrado aquilo que o espera mais à frente. O ritmo e as revelações acontecem normalmente nos tempos certos, o que não só nos deixa curiosos, como reserva continuamente espaço para mais uma surpresa, até porque existem alguns twists inesperados pelo meio. E uma nota ainda para as doze personagens que estão disponíveis para romances, o que é sempre interessante para o envolvimento com a história.

A partir daí, muito do jogo passará por plantar, tratar das colheitas e domesticar criaturas, mas também craftar armas e equipamentos para nos aventurarmos nas dungeons. Esta dinâmica funciona como uma simbiose, porque quando matamos inimigos apanhamos os recursos necessários para que possamos criar itens cada vez melhores, e assim progredir de forma mais rápida.

Sendo em parte um farming sim, leva muito a sério tudo o que está relacionado com o acto de plantar. Para terem uma ideia, além do básico (trabalhar a terra/plantar/regar/recolher), é igualmente possível melhorar a qualidade do solo e das sementes, o que se traduz depois em melhores resultados. As possibilidades são diversas e por vezes mesmo bizarras, já que podemos plantar desde árvores de fruto, plantas medicinais, ou até dungeons. Sim, leram bem, as crops podem crescer para se tornarem dungeons e serem visitadas.

Quem preferir, pode optar por comprar tudo aquilo que somos capazes de craftar nas várias lojas de Sephia, no entanto, são caros, o que se torna impraticável dada a dificuldade das dungeons quando não estamos bem equipados. Isto significa que não temos grande escolha senão alinhar com o propósito do jogo e tratarmos das nossas próprias criações. E convenhamos, é muito mais divertido desta maneira, até para seguirmos a direcção da história.

A outra face de Rune Factory 4 Special é como um RPG de acção, e um relativamente competente, diga-se de passagem. Eventualmente aventurar-nos-emos para fora da cidade, e mais particularmente nas masmorras que temos espalhadas pelas periferias. Além de ligeiros puzzles, teremos o combate, que é um pouco rudimentar, mas cumpre o objectivo de propiciar algum desafio e uma aventura que sirva de guia à história. Isto nos inimigos ditos normais, porque com os bosses muda de figura, aumentando significativamente a dificuldade, e obrigando a que sejamos criativos no momento de decidir a melhor estratégia. Temos a opção de levar connosco até dois acompanhantes (os quais podemos equipar), o que ajuda muitíssimo quando as coisas apertam, além de tornar toda a batalha mais interessante.

Outro dos pontos que mais se destacam, é sem dúvida o skill system, por vezes, amplo até demais. Quase tudo o que está disponível para fazer em Rune Factory 4 Special está relacionado com uma skill. E quando digo “quase tudo”, é mesmo quase tudo, como andar, por exemplo; comer e dormir também podem ser encarados como skills à sua maneira, além de outros mais complexos, ligados crafting e ao combate. É um sistema idêntico a outros jogos em que vamos subindo o nível dos skills que mais usamos, tornando assim a nossa build única e ajustável à nossa forma de jogar.

Visualmente, tendo sido um jogo lançado originalmente para a Nintendo 3DS, podem calcular que as melhorias são algumas, mas nada que possamos considerar de impressionante. É até algo arcaico se compararmos com o que até estúdios indies conseguem proporcionar hoje em dia, mas tem aquele apelo nostálgico dos top-down RPG’s que crescemos a jogar no passado. Quanto à banda sonora funciona como um complemento e fá-lo bem.

Rune Factory 4 Special é um remaster que se lança agora nas restantes consolas de modo a apresentar a franquia enquanto não chega o seu sucessor. Um intrigante jogo que vale a pena conhecer para quem sempre foi fã do género, tendo em conta a enorme quantidade de opções que oferece.