Developer: BANDAI NAMCO Studios, Tose
Plataformas: PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series S|X e PC
Data de Lançamento: 25 de junho de 2020

Em mais uma ano atípico, também no mundo dos videojogos, onde as dificuldades de produção das consolas da nova geração, e dos estúdios desenvolverem os seus jogos perante uma nova realidade de trabalho, tem sido interessante ver a abordagem da Bandai Namco e os seus parceiros na conceção de videojogos. Basta olhar para o catálogo deste ano, com títulos como o Tales Arise, o Guilty Gear Strive ou futuramente mais um capítulo de Man of Medan, para reparar que são uma das companhias que mais está a conseguir tirar proveito da capacidade da nova geração e na sua própria adaptação a novos conceitos visuais que tem vindo a implementar, no qual este Scarlet Nexus também se insere.

Olhando para um Guilty Gear Strive, que foi analisado recentemente aqui no nosso site, o trabalho da Arc System Works, só pode ser comparado ao salto gráfico de um Naruto Ultimate Ninja Storm, através de cell shading e de uma mecânica abrangente que desafiava os limites físicos dos cenários de um fighter. A qualidade de um verdadeiro Anime da nova geração inserido num jogo, neste caso ainda mais literal porque a campanha é mesmo um filme de anime; mas o jogo cria mesmo aquela sensação de “uau nunca tinha visto algo assim”, e isso tem sido cada vez mais escasso de ver. E este Scarlet Nexus traz-nos esse mesmo sentimento.

É interessante de ver como este videojogo foi pensado de uma forma contrária ao tradicional, isto é, vai ser o jogo Scarlet Nexus que vai ser acompanhado futuramente por um Anime, e não o inverso. A série será um exclusivo do Funimotion, e há varias cut scenes do jogo que vem diretamente da série. Mais uma vez é inserir o Anime no videojogo, mas aqui estamos a falar de uma jogada mais arriscada, onde não será o público que segue o anime que vai atrás do jogo mas o seu inverso. Desculpem-me por voltar a Guilty Gear Strive, mas é tão ousado como foi, neste jogo, fazer o modo campanha um filme animado de uma qualidade superior, e deixar o lado da jogabilidade para o modo arcade. Mas apesar destas jogadas e inovações que a Bandai Namco e os seus parceiros no crime têm trazido, a questão será sempre colocada no mesmo sentido clássico: será que conseguiram traduzir essa visão e inovação na forma de o jogar?! É isso que vamos ver!

Scarlet Nexus desenrola-se num futuro distante, onde foi descoberta uma hormona psiónica no cérebro humana que dá poderes extra-sensoriais e que mudou o mundo como o conhecemos. Enquanto a humanidade entrava nesta nova era, mutantes degenerados apelidados de “Others” começaram a cair do céu e com uma sede imensa por cérebros humanos. Altamente resistentes a ataques convencionais, foi necessário criar medidas extremas para combatê-los e salvar a Humanidade.

É neste contexto que surge a Other Suppression Force (OSF), uma força especial que recruta aqueles que têm essa hormona latente e desenvolvida e que poderão ajudar a suprimir estes Others. E em Scarlett Nexus vamos poder escolher uma de duas personagens jogáveis, com poderes e abordagens diferentes, para além de uma história de vida para descobrir.

Podemos controlar tanto Yuito Sumeragi, um novo recruta da OSF que mesmo vindo de uma família nobre, precisou de passar pelo treino mais exaustivo da academia, pois não possuía um poder latente suficiente para ser indicado como prodígio.

Como do outro lado, a cadete Kasane Randall tinha poder de sobra e formou-se com honras na academia, assumindo um papel de liderança no seu pelotão e conquistando o respeito de (quase) todos ao seu redor.

São dois pontos de partida semelhantes para uma mesma história, onde os momentos chave são praticamente os mesmos, mas com mudanças significativas relacionadas aos motivos de cada um dos personagens. O que é mais interessante é que vão poder saltitar de personagem, se assim o quiserem, ou vão poder seguir apenas um rumo até ao fim, e depois disso abordar o percurso da outra personagem, para compreender todos os pormenores da trama. Vou deixar apenas um conselho, se seguirem a via de andar a saltitar de personagem, não se esqueçam de salvar em slots separadas para depois não perderem o progresso de cada uma delas.

É perante este contexto e um ambiente futurista e Brain Punk que o jogo se desenvolve. É também ao começar a percorrer as ruas de New Himuka que percebemos o trabalho desenvolvido para o jogo, no qual a Bandai Namco chamou os seus “top dogs”, como é o caso de Kenji Anabuki, de Tales of Vesperia, que assumiu a direção, enquanto Keita Iizuka, de God Eater e Code Vein, assinou como produtor. Além dos dois, Asana Inoki (Tales of XilliaBaten Kaitos) foi contratado como um dos guionistas, e Kouta Ochiai (God Eater 2) sesteve encarregue de toda a arte visual do jogo. Sim, foi mesmo um investimento à séria para este novo IP e para deixar de estar dependente da malta da Toei Company.

As ruas de New Himuka emanam tecnologia por todos os poros, com imagens holográficas por todo o lado, com bloqueios mentais para não atravessarmos a estrada à maluca e coisas do género. Sentimos de facto esse lado de futuro, e por outro, esse lado de ligação mental com mensagens a passarem diretamente pelo nosso cérebro. Já para não falar dos novos paparazzi, os drones apelidados de “corvos”, que acho que foi uma ótima forma de os apelidar, não acham?! As ruas nem sempre estão cheias, em situações de crise, são levantadas barreiras em volta das zonas para isolar a população dos Others e deixarem-nos trabalhar à vontade, o que acaba por dar a explicação necessária de por vezes, sentirmos os cenários bastante vazios.

Todos os fãs de Anime sabem como os jogos seguem a mesma linha dramática adjacente, com diálogos longos, profundos, que nos colocam em constante reflexão, e como tal, para os menos afeiçoados ao estilo, por vezes pode ser aborrecido, é um facto. Talvez se fossem mais cutscenes e menos still images com diálogos, pudesse existir um maior ritmo nesses diálogos, mas a verdade é que o dinamismo nos diálogos é feito através de janelas, isto é, uma espécie de mistura entre os quadradinhos da banda desenhada, com um fundo a emular uma rede neural, que se vai movendo em formato 3D, dando então essa dinâmica de movimento, que na verdade não tem.

É óbvio que estou a falar disto antes da jogabilidade em si porque a verdade é que o jogo vai ter este registo de diálogo várias vezes, diria que é quase meio-meio, e por isso, e nomeadamente pelo início do jogo ser bastante lento na introdução do universo e dos conceitos e da jogabilidade, tenho que sublinhar isso.

Não me interpretem mal, se há coisa que Scarlett Nexus faz, é acompanhar-nos na perceção de todos os componentes do jogo, na verdade eu diria que poucos RPG’s conseguem fazer isso de uma forma tão exaustiva e de fácil compreensão, mas o lado negativo é que por vezes pode ser um pouco mais aborrecido “a arrancar”. O jogo tem de facto uma forte componente RPG, apesar da jogabilidade ser tipicamente Hack N’ Slash. Em termos de RPG podemos mudar a aparência da nossa personagem com items que podemos ir recolhendo ao longo do jogo ou que compramos, assim como a nossa arma, e vários tipos de “poções” para nos ajudar em momentos mais aflitivos. Para além disso há ainda um sistema de Plug-In’s, isto é, slots onde podemos incorporar alguns melhoramentos de status na nossa personagem.

Temos ainda uma enorme árvore de habilidades, que, como é habitual, vamos desbloqueando aos usar pontos de habilidade que recolhemos ao subir de nível da nossa personagem. A árvore está dividida em vários fatores, tanto de ataque, como de esquiva, passando ainda pelo número de plug in’s que podemos usar, de aumento de status na nossa party, ou mesmo da duração do Drive, do qual já falo mais à frente na componente de jogabilidade. Para além da árvore de habilidades, há ainda um sistema de progressão das personagens que compõem a nossa party, que conforme, vamos criando laços com elas, vamos desbloqueando novos movimentos e habilidades.

Este sistema de laços com outras personagens de uma forma bastante simples e eficaz. Podemos ir criando laços a desenvolver conversas por mensagens com outras personagens, a fazer pequenas quests com elas para as ajudar, ou oferecendo prendas que tanto podemos comprar nas lojas de artigos, como encontrar no mapa do jogo. Ao fazê-las vamos então desbloqueando novos ataques que essas personagens vão utilizando quando estão na nossa party, e até movimentos que nos emprestam quando nos ligamos em rede, e já explico essa parte também.

Vamos lá a essa jogabilidade, porque já falei aqui de algumas componentes e podem não estar a interiorizar tudo. Ao início é tudo bastante simples, temos um botão para o ataque rápido e outro para o ataque forte, um para saltar e um para desviar, e depois um gatilho para usar o nosso poder da mente para atirar objetos. Há combinações entre ataques rápidos e fortes, como é habitual, e ainda combinação com o ataque psíquico, mas é tudo relativamente fácil e simples de executar. No entanto conforme passam as horas de jogo, tudo se vai complicando até ser brilhantemente caótico e super divertido e desafiante até.

E há várias razões para isso, não só porque vamos desbloqueando movimentos novos, que passam pelo tradicional duplo salto, ou o dash quando saltamos, os combos de ataque físico vão sendo mais complexos e mais devastadores também, mas sobretudo pela capacidade que vamos adquirindo com os nossos parceiros de formação. São eles que nos vão emprestar os seus poderes, que passam por uma maior capacidade de poderes psíquicos, por elementos como a eletricidade ou o fogo, pela capacidade de clarividência e ver os pontos fracos dos inimigos e mesmo quando os inimigos ficam invisíveis, pela própria capacidade de invisibilidade, entre outros.

Estes poderes são nos emprestados por tempo limitado, ao carregarmos no R1 e mais uma tecla de ação correspondente a esse elemento da equipa, e são desativados ou pelo terminar do tempo de utilização, ou por levarmos dano. Existe um tempo de cool down, mas não precisamos de deixar que a barra encha de novo, podemos os utilizar mesmo que pouco cheia, apenas fará com que o utilizemos durante menos tempo. Quando nos juntamos, neste campo, a outra personagem com o mesmo poder psíquico do que nós, quando a barra da utilização do poder dessa outra personagem estiver no máximo conseguimos usar um “super” ao carregarmos com os dois gatilhos.

Sim, a mecânica vai muito na onda de Persona, sem dúvida, com as combinações frenéticas, estratégia perante a exigência dos inimigos, e gestão da utilização, a darem-nos água pela barba, mas a tornarem-se super recompensadoras. Para além disso quando conseguimos encontrar o ponto fraco dos inimigos e desfazer a sua barra de proteção, podemos executar um ataque especial, acompanhado com animação a preceito. O mesmo acontece com alguns elementos que exigem uma maior utilização do nosso poder psíquico, onde o ataque será maior e mais devastador, mas que implica que repliquemos o movimento ou as teclas que nos são pedidas no ecrã.

Como já perceberam, de repente, já são quase as teclas todas do comando, numa ação super frenética, que ainda se torna mais intensa e desafiante quando nos deparamos com Bosses, e onde o target lock será essencial, assim como ter a perfeita noção da capacidade dos nossos colegas e daquilo que nos podem oferecer durante a batalha. Devo dizer que as poções vão estar disponíveis através dos direcionais e que podem alterar a tática que os vossos companheiros usam, se mais defensiva ou mais ofensiva, portanto até aí têm uma componente de estratégia interessante.

Muitas vezes é complicado colocar por escrito a ação frenética do jogo, e eu diria, tal como acontece com Persona 5 Strikers, que analisamos também aqui, não conseguimos fazer jus a isso mesmo, mas os vídeos ajudam a perceber a dinâmica, e provavelmente a demo que está disponível também tira qualquer dúvida sobre isso.

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Scarlett Nexus é um jogo para ser apreciado, são cerca de 25 horas de campanha, com uma história poderosa, que vai ter muitos twists and turns ao longo da jornada, onde nos vamos afeiçoar a personagens, sofrer e rir com elas, e mais do que tudo, nos vai ligar à sua demanda pessoal, e a salvar a Humanidade. A jogabilidade é impecável, super fluída, com muita dinâmica, exigente mas sempre recompensadora, com um grafismo impecável em ação, com muitas animações pelo meio ao invocarmos os nossos parceiros e os seus poderes, sempre sem perder fluidez ou sequer que seja demasiada coisa a acontecer no ecrã, e tudo isso porque está muito bem conseguido em termos gráficos.

Scarlett Nexus vem subir a fasquia no género, vem derrubar uma prorrogativa de surge o Anime primeiro e o videojogo depois, e pode muito bem ser um sucesso marcante a esse nível, porque o jogo está muito bem conseguido, mas também porque quando sair o Anime agora neste mês de julho, toda a gente vai adorar a série, e vai querer sem dúvida alguma pegar no jogo.