Developer: YS Net, Neilo, YSNET inc.
Plataforma: PlayStation 4, PC
Data de Lançamento: 19 de Novembro de 2019

Para todos aqueles que compraram uma Dreamcast para jogar Shenmue I e II, este é um dos momentos mais aguardados de sempre. Para todos os outros também, porque verdade seja dita, há várias gerações de jogadores que se cruzaram com esta obra prima, seja na Dreamcast na altura, em 1999 com o primeiro, depois o segundo em 2001 saindo também para Xbox, seja aqueles que gostam de retrogaming e que já voltaram a esta saga, ou aqueles que a revisitaram através das remasterizações. No entanto a questão é: será que Shenmue III vem tarde ou a saga envelheceu mal?

É essa resposta que vamos tentar dar da melhor maneira possível ao longo desta análise. Uma análise nada fácil, onde teremos de colocar os nossos sentimentos mais profundos, já que foi um jogo que marcou uma geração, marcou até o desenvolvimento de tantos outros RPG ou JRPG e que principalmente no Japão, sustentou a vida de uma consola tão memorável como a Dreamcast. Vamos lá tentar, e começamos pela componente estética do jogo. Shenmue é o típico jogo que precisa que os seus ambientes sejam recriações perfeitas, mas também de uma beleza invulgar, a razão é simples, vamos deambular perante vilas e cidades, temos que sentir os locais vivos, lindos para perdermos o nosso olhar perante as longas horas em que percorremos pequenos trilhos a apanhar ervas ou à procura de uma máquina arcade para jogar. Nesta questão gráfica existe um misto de sentimentos da minha parte, se por vezes, e mais particularmente na vila de Balui, vamos sentir essa beleza dos quadros nipónicos, onde o nascer e pôr do sol são momentos de contemplação, mas a fotografia está melhor do que propriamente a fluidez e a sua representação. Vamos ficar com esse gosto doce/amargo de que a paisagem é tão bonita de se ver mas as texturas não estão a acompanhar, algumas pixelizações, alguma quebras de frame rate, um ou outro glitch e sentimos aquela comichão do corpo de que queríamos que fosse perfeito, mas são demasiadas as imperfeições. Os efeitos de luz por vezes são desconexos com as flores nos campos a ser iluminadas em plena noite escura, ou a propagação da luz das lamparinas a serem borrões. Sentimos sempre que Shenmue III está demasiado perto daquilo que seria numa Dreamcast do que nas consolas e Pc’s desta geração, e temos dificuldade em compreender quando estivemos à espera 18 anos pelo jogo.

Esperar 18 anos é uma tarefa dura, e só os melhores realizadores de cinema é que conseguem criar essas histórias românticas de um casal que se reúne novamente 18 anos depois para serem felizes e para viver o amor proibido, mas Shenmue III não é um desses casos. Não me interpretem mal, mas este jogo é um claro caso de contextualização no espaço e no tempo em que é lançado, em que é impossível não ficar sempre com a ideia na cabeça de: “podiam ter feito melhor por esta altura do campeonato“. E para acabar com a rudeza e ir para as partes boas, tenho mesmo que destacar a péssima dobragem e interpretação dos actores, jogar em inglês é um autêntico suplício, com as personagens a parecerem robôs a falar, a escolha das vozes foi má, algumas dobragens e até legendagens não fazem sentido nenhum, complicando aquilo que é um dos pontos altos do jogo e da série, que é o enredo e o quão fundamental é percebê-lo para se jogar e para ter uma experiência completa e recompensadora.

Mas vá, falemos de coisas boas, apesar de eu achar que vou apontar alguns defeitos pelo caminho… Shenmue III pega na história onde o segundo ficou e se não se lembram da história, têm um vídeo que podem ver no menu inicial que recupera os momentos mais importantes dos dois jogos, com imagens e vídeos para contextualizar e até olhar para o salto tecnológico, o que é uma óptima adição. Para além disso, o facto de começar precisamente na gruta onde encontrámos as duas representações dos dois famosos espelhos que procuramos, dá um sentimento de continuidade, de ligação e de relacionamento. Por isso a primeira tarefa que vamos ter em mão é tentar encontrar o pai de Shenmua e vamos começar pela vila da Bailu e a boa maneira de Shenmue vamos ter de andar a fazer perguntas a toda a gente e a repeti-las vezes e vezes sem conta até conseguirmos desbloquear um novo local e por aí adiante. Temos o nosso caderninho que nos vai ajudar a saber o que fazer e a dar-nos indicações, mas nem sempre vamos encontrar o norte, porque por vezes não remexemos em todas as gavetas que devíamos ou porque não falámos com todas as pessoas que devíamos, apesar de já sabermos a resposta ou de já termos a perfeita noção do que fazer a seguir, e aqui o jogo entra num caminho meio pantanoso que é a falsa liberdade de escolha, na verdade aquilo a que se resume é chatear toda a gente para seguirmos em frente e não falar com as pessoas certas e fazer as perguntas certas para obter um novo objectivo. Por isso, o jogo facilmente se torna repetitivo e cansativo se não fizermos tudo o que está à volta ou que é paralelo.

Falando nisso, é claro que vão poder treinar e lutar contra os melhores, o sistema de combos está melhorado, sendo que já não precisam de decorar todos os combos, porque são demonstrados no ecrã ou porque ao subirem determinada técnica até ao seu ponto máximo podem atribuir uma tecla para a usar. Os combates mantêm o ambiente dos antecessores, podemos bloquear até certo ponto, podemos evadir, e depois é tudo uma questão de timing e de leitura das movimentações do oponente, continua a ser desafiante q.b., mas recompensador ao mesmo tempo, perante o desenvolvimento das técnicas que vamos treinando. Aqui os treinos também podem ser algo chatos, o manter a posição do cavalo é uma seca, ou de andar em círculos, mas na verdade são dos mais necessários porque se correlacionam directamente com a nossa stamina e vitalidade. Os combates são a melhor parte do jogo, alternando os momentos mais monótonos do jogo, e mais lá para a frente até a atingir momentos épicos. Também temos Quick Timed Events, que são bastante divertidos e dão dinamismo e adrenalina ao jogo sendo outro do ponto alto do jogo.

Quanto à história, entramos em acção logo após termos descoberta uma gruta secreta onde existem duas representações dos famosos espelhos de Fénix e do Dragão. Ainda sem uma resposta a esse mistério, vamos à busca do pai de Shenmua que nos vai acompanhar nesta demanda. É claro que Lan Di continua a ser o objectivo principal e a vingança de Ryu Hazuki está por consumar, mas há muito mais para desbravar. Infelizmente não vamos ter o desfecho que pretendíamos, vamos acumular informação e inimigos, mas vão acabar por ficar mais questões do que as que tínhamos por resolver, e por isso é fácil de perceber que existe uma tentativa de prolongar a série para lá deste Shenmue III. Se continuarem a esticar a corda a essa frustração de não termos o nosso “closure”, poderá prejudicar seriamente a série.

Shenmue III é assim aquele amargo de boca, com a tecnologia que já foi desenvolvida desde 2001 e com o crescimento em todas as vertentes da indústria dos videojogos, o jogo acaba por ficar aquém das expectativas, um jogo que perante a sua grandiosidade e importância na história, tinha agora todos os elementos que lhe faltava na altura para ser magnânimo, e em vez disso parece ser um jogo que poderia ter sido editado novamente na Dreamcast. É uma pena…

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