Developer: Atlus
Plataforma: Nintendo Switch
Data de Lançamento: 12 de novembro de 2021

Sempre que a Atlus anuncia um novo jogo da franquia Persona ou da franquia Shin Megami Tensei o entusiasmo à sua volta começa a notar-se entre os jogadores, algo que é fácil perceber já que ambas são provavelmente aquelas que fizeram a Atlus tornar-se a companhia que é hoje. Jogos que têm sido aclamados pela crítica, e que as vendas têm provado que também os jogadores vão de encontro essa ideia.

Com o anúncio de Shin Megami Tensei V para a Nintendo Switch, o entusiasmo gerado à volta do jogo não foi diferente. O jogo tem sido muito desejado pelos fãs de RPG, e até tiveram direito a uma remasterização de Shin Megami Tensei III enquanto esperavam pela chegada deste novo jogo da franquia.

O jogo leva-nos até Tóquio, onde somos um estudante do Jouin High School, que depois das aulas, vai até à estação de comboio do bairro de Shinagawa. Chegado a esse local gera-se uma enorme confusão na estação, onde percebemos que algo aconteceu num comboio e na sua linha. Enquanto esperamos que o problema se resolva, uma das nossas colegas pede-nos que a ajudemos a procurar o seu irmão; nós aceitamos ir ao encontro dele, e abandonamos a estação de comboio em direcção ao local que ela nos indicou.

Chegando a esse local, percebemos que um rapaz está a fazer um vídeo a falar de acontecimentos estranhos que se estavam a passar num túnel, e ao mesmo tempo vai entrando no túnel para o explorar. Nós fazemos o mesmo e é já dentro deste túnel que tudo começa a tremer, e acontece um desmoronamento do túnel, levando a que o nosso personagem e o rapaz fiquem debaixo daquele local, perdendo os sentidos.

Quando voltamos a acordar, estamos num local desconhecido, cheio de areia, mas ainda assim perto da saída do túnel, embora tudo à nossa volta seja bastante estranho, com um cenário de destruição e de vazio bastante grande. Se tudo à nossa volta já era estranho, pior fica quando aparecem vários demónios prontos para nos matarem, é nessa altura que aparece um ser chamado Aogami, que nos diz que se queremos sobreviver o melhor é darmos-lhe a mão. Ao darmos-lhe a mão, ocorre uma fusão entre os dois corpos, e ficamos transformados em Nahobino, um ser que não é nem humano, nem demónio. Acontece que nesta forma, Aogami não tem qualquer controlo sobre este corpo, e apenas consegue falar connosco, passando para nós a responsabilidade de lutar contra todo o tipo de demónios que apanharemos pelo caminho.

A história do jogo é muito mais complexa que apenas isto, até porque o local onde nos encontramos é chamado de Netherworld, que na verdade conseguimos perceber que continua a ser Tóquio, mas totalmente destruída, sem humanidade, e onde os demónios invadiram por completo aquele local. É com o avançar do jogo, e com a introdução de outros personagens que percebemos o que se está a passar, ao ponto de termos a possibilidade de andar em Toquio que conhecemos no inicio do jogo, mas também em Toquio de Netherworld que é onde passaremos a maior parte do jogo. Embora existam muitas mais revelações e a história avance bastante, serão muitas das nossas decisões que podem mudar o curso de jogo, não desvendarei muito mais, para não dar spoilers, mas existe algo que é preciso salientar, ou seja, os chamados demónios, não são os demónios da religião cristã, ou a ideia de seres malignos.

Em toda a franquia Shin Megami Tensei, os seres referidos como demónios são seres não humanos com habilidades fora do normal, diria que são seres do oculto ou relacionados com mitologias das várias regiões do globo. Isto é, para nós europeus é uma mistura de deuses, demónios, anjos, seres paranormais, entre outras coisas. É importante ter esta noção bem presente ao jogar o jogo, para não levarmos as conversas ou a palavra “demon” sempre para o lado do mal, até porque o que não faltaram diálogos no jogo, onde muitas vezes temos de tomar os partidos de alguns deles, e ter esta noção presente, ajuda bastante.

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Partindo para os diálogos, devo dizer que além dos diálogos normais, onde recebemos diversas informações em conversa com NPCs que encontramos pelo caminho, temos também os diálogos que fazem parte das missões, muitas vezes aqui teremos de fazer escolhas, que podem alterar o rumo de uma missão. Para terem um exemplo, numa das missões secundárias do jogo vão pedir-vos para matar um certo demónio, e quando chegamos ao local para o matar, ele tenta negociar connosco. Ao ponto do jogo nos deixar escolher matá-lo ou matar quem nos pediu para o matar. Existem outros diálogos ainda mais complexos, e ai não mudamos apenas o curso de uma missão, mas podemos mesmo mudar o curso completo de toda a história, e confesso que tudo isso torna o jogo muito interessante deste ponto de vista.

Se falamos de RPG’s não podemos fugir da componente dos combates e aqui estamos a falar de combates por turnos, onde a nossa party irá combater contra a party inimiga. Primeiro começará uma party, e depois de todos os membros atacarem será a vez da outra party atacar, as regras normais dos combates por turnos. Durante os combates podemos usar diversos tipos de itens, seja para recuperar HP ou MP, assim como podemos usar Shards e Gems de ataque para atacar os inimigos. Além disso, temos os poderes de cada um dos membros da nossa party, onde temos o ataque físico normal, e claro, os ataques mágicos, que vão consumir MP.

No aspecto dos ataques, o jogo tem uma particularidade que faz uma diferença significativa em relação a grande parte dos jogos deste género. E começa logo com a sua diversidade, já que além dos ataques físicos, os ataques mágicos são elementares, de fogo, gelo, eléctricos, de luz, entre outros. Contando com os ataques físicos, ao todo temos 7 tipos de ataques, mas que podem variar imenso com o tipo de skill utilizada, existindo skills que atacam apenas um elemento, como outras que atacam vários elementos. Além disso, mesmo sendo do próprio elemento, temos diversidade nas skills, já que umas podem por vezes ter outro tipo de adições como além do dano dar poison ou mesmo dar sleep, ou outro tipo de coisas. Com esta diversidade o difícil será escolherem aquelas skills que vós agradaram mais, mas por outro lado obrigará o jogador a não usar sempre a mesma party, alternando entre membros com habilidades diferentes durante todo o jogo, de maneira a ter uma party equilibrada consoante a situação.

Ainda relativamente aos combates, existe algo bastante importante, que são as resistências a certos ataques de acordo com o seu elemento ou fraqueza, e isso acontece tanto em relação a vocês como aos inimigos. Este ponto é tão relevante, que para terem noção, caso façam um ataque que seja com o elemento da fraqueza do vosso inimigo, ganham um ataque extra nesse turno, e isso acontece também quando conseguem dar um ataque crítico. Por outro lado, se fizerem um ataque que ele tenha resistência, o dano dado será bastante reduzido. Todos estes pontos acontecem também ao contrário, ou seja, os inimigos também têm essas possibilidades em relação à vossa party.

Outro ponto nos combates de extrema importância e que muitas vezes poderá virar um combate contra ou a vosso favor tem a ver com as habilidades chamadas, Magatsuhi Skill, existem várias, por exemplo temos uma chamada Omagotoki: Critical que fará com que todas as acções que tenham naquele turno tenham o dobro do efeito, isto é, os ataques passam a ser todos eles críticos, e sendo ataques críticos, vão ter a possibilidade de fazer duas rondas de ataques no mesmo turno. Para dar outro exemplo, a Rasetsu Feast irá diminuir os atributos de todos os inimigos durante 3 turnos. Quero com isto dizer, que neste campo a variedade também é grande, mas são habilidades tão poderosas, que bem usadas fazem toda a diferença num combate.

Mas não pensem que só vocês tem esta incrível habilidade, já que os vossos adversários também a têm, e os benefícios que tiram dela, será exactamente o mesmo. Dai afirmar que um combate que está nosso favor poder ficar desfavorável. Felizmente não é algo que possam estar sempre a usar, irá aparecer uma barra a indicar quando a podem usar, tornando assim tudo mais equilibrado neste sentido.

Algo bastante interessante em Shin Megami Tensei V é a possibilidade de podermos ter demónios a nos acompanharem, o número de demónios que nos acompanhará vai variando, já que no inicio apenas temos um determinado número de slots, mas a partir dos Miracles (que já falaremos mais à frente) podem aumentar o número de slots. Existem diversas maneiras de passarmos a ter demónios que nos seguem, uma delas acontece naturalmente a fazer algumas das quests do jogo, onde os próprios demónios se propõem a nos seguirem. A outra maneira, é a falar com eles quando estamos em combate, neste caso, em vez de os atacarem escolhe a opção de “Chat” e podem conversar com eles, de maneira a os convencerem a vós seguirem, nem sempre vão conseguir os convencer, além de não ser possível ter demónios repetidos a vos seguirem.

Referir que existem demónios de vários tipos, para terem um pequeno exemplo, temos: Fairy, Fiend, Divine, Foul, Haunt, Wargod, Beast, Jirae, Yoma, Wilder, Raptor, Night, entre muitos outros.

Embora possam ter vários demónios a vós seguirem, a party é limitada a 4 elementos de cada vez, podem sim, alterar a qualquer altura os elementos da party, mesmo em combate, sendo isso contado como a acção do elemento que pedir essa troca. Como é fácil perceber, e visto que nos combates é bastante importante ter em atenção as fraquezas e as resistências dos inimigos, assim como dos nossos membros, facilmente conseguimos alterar um ou outro membro que possa estar em desvantagem, para outros que nos dará uma maior vantagem em relação aos inimigos.

Algo que vai entusiasmar qualquer um que se dedique a Shin Megami Tensei V, é a parte das fusões entre demónios, a fusão simples irá realizar a fusão encontre dois demónios diferentes, de maneira a obter um totalmente novo. Descansem, antes de iniciarem qualquer fusão ficam a saber qual o demónio que vão adquirir, e por isso podem tirar a conclusão se valerá a pena ou não avançar. Além da fusão entre dois demónios que estejam a seguir-nos, existe outra que apenas temos de ter um dos demónios necessários, mas ter o “conhecimento” do outro, neste caso terão de gastar dinheiro (do jogo) para avançar.  Já as fusões mais desejadas, as fusões especiais requerem de 2 a 4 demónios, e são aquelas que vos oferecem os demónios mais desejados. Em qualquer uma das opções de fusão, apenas podem criar demónios que sejam iguais ou abaixo do nível de Nahobino.

Falando exactamente disso, dos níveis de Nahobino e dos demónios que nos seguem, são aumentados a partir de XP que ganham ao vender combates, de completar quests, sejam elas secundárias ou principais. Sempre que sobrem de nível, são aumentados alguns dos atributos, ao todo são 5: Strength, Vitality, Magic, Agility e Luck. No caso dos demónios não temos qualquer escolha no que toca aos atributos que são aumentados, já no caso de Nahobino, embora alguns sejam aumentados automaticamente, temos a possibilidade escolher um dos atributos para aumentar 1 ponto.

Quanto as Miracles que vós falei anteriormente, são os melhoramentos que podemos fazer, neste caso não estão ligados ao nível do personagem, mas sim a “Glory”, uma espécie de pontos de apanhamos espalhados pelo mapa do jogo, e que podemos gastar para melhorar diversos aspectos do nosso personagem, e até dos demónios que nos acompanham. Os nossos elementos também podem ser melhorados nos Miracles, e caso os melhorem, obviamente as skills que usem desses elementos vão melhorar também.

Ainda no aspecto dos melhoramentos, quer de Nahobino como dos demónios que nos acompanham temos as Essences, que são núcleos que estão ligados ao poder dos demónios. Nós temos a possibilidade de ligar esses núcleos, alterando assim as resistências e fraquezas, mas também podemos alterar as nossas skills.

Como podem ver Shin Megami Tensei V tem muito para explorar, e confesso que ainda ficou alguns pormenores por revelar, muitos deles complicados de explicar sem conhecerem o jogo. Algo que tem de ter em mente antes de iniciar este jogo é a sua dificuldade, este não é um RPG casual, é um RPG que exige bastante do jogador, tem uma dificuldade acima da média, e mesmo na dificuldade mais baixa, “Casual”, o jogo já dará bastante luta. É um RPG de culto, mas ao mesmo tempo para um nicho de jogadores que gosta de experiencias bastante difíceis, “como se fosse” um Dark Souls dos RPG. Mas para quem quer muito jogá-lo sem ter de enfrentar uma dificuldade tão grande, irá sair um DLC gratuito que introduzirá uma dificuldade facilitada, a Safety. Mas para quem gosta de experiencias mais complicadas, existe ainda a dificuldade Normal e a Hard.

Já que falamos em dificuldade, não podemos esquecer os Bosses do jogo, todos eles incríveis, sempre com cutscenes de introdução e depois batalhas muitas vezes épicas onde temos de usar as melhores estratégias para os superarmos. E onde terão certamente de ir trocando de membros da party para conseguirem superá-los, seja por falta de MP, por alterarem a estratégias de combate a meio, ou mesmo por um demónio que vos acompanha esteja quase a ir desta para melhor.

O mapa do jogo é bastante grande, estando dividido por vários locais, e nem que seja pelas quests secundárias como pelos itens escondidos, vale bem a pena explorarem-nos até à exaustão. Ao longo dos mapas existem pontos para salvar o jogo, onde é permitido fazer viagens rápidas entre eles, facilitando a deslocação, seja na exploração, ou mesmo para finalizar quests. Ainda no local onde salvamos o jogo podem comprar e vender itens, no Cadaver’s Hollow, e ir até ao World of Shadows, que será o local onde podem fazer as fusões dos demónios, adicionar Miracles e ainda onde podem utilizar as Essences.

Em termos gráficos o jogo está interessante, embora não seja dos melhores jogos que já vimos a correr na Nintendo Switch. Os personagens tem detalhes interessantes, assim como algumas zonas do mana, infelizmente tem algo extremamente datado para um jogo de 2021, as paredes invisíveis, isto é, locais onde tudo indicava que conseguirmos progredir, seja a andar ou saltar, mas que o jogo não permite, já que existe uma parede invisível que não nos deixa avançar. É uma daquelas coisas que irrita qualquer jogador que goste de explorar, é preferível colocar um enorme muro que não nos permita avançar, mas que se veja do que um local que parece que podemos ir explorar e o personagem fica a bater contra algo que não existe sem conseguir avançar.

No aspecto sonoro o jogo também é bastante competente, que em termos de musicas, que embora não sejam muitas, existem quando são necessárias, e de efeitos quer nos combates como nas várias zonas do mapa. Em termos de diálogos o jogo está excelente, com um óptimo voice acting em todas as cutscenes.

Shin Megami Tensei V é um daqueles jogos que fascina qualquer amante de RPG por turnos, oferecendo uma história interessante, e que mesmo depois de algumas horas de jogo nos consegue surpreender. Admito que não será o melhor RPG para os iniciantes neste género, mas será um jogo que ficará na memora dos fãs da franquia. Oferece inúmeras horas de jogo, não desapontando quem o decidir adquirir.