Developer: BlueTwelve Studio
Plataforma: PS4, PS5 e PC
Data de Lançamento: 19 de julho de 2022

Devo dizer que estava com altas expectativas em relação a este jogo. Depois do primeiro trailer de apresentação em 2020 e da demonstração de todo o ambiente que envolvia este pequeno gatinho, a proposta encantou-me pela sua beleza e simplicidade, assim como o todo o mistério daquela cidade distópica.

Posso dizer, desde já, que a BlueTwelve Studio não me desapontou, muito pelo contrário. Aliás, o selo da Annapurna Interactive é quase uma garantia de que vamos ter algo fora da caixa, como aconteceu, por exemplo, com Twelve Minutes de Luís António.

Vamos então olhar para Stray por tudo aquilo que é e representa. No início criamos uma ligação quase umbilical à personagem principal deste jogo, um pequeno gato que, ao lado de tantos outros gatos abandonados, tenta sobreviver na superfície, fugindo às intempéries e bebendo água das goteiras. No entanto, enquanto deambulávamos com os nossos companheiros de quatro patas, acabámos por cair num submundo que jamais pensaríamos existir.

É aqui que todo o jogo se vai desenvolver, numa cidade desprovida de Sol, de água, de vida. Estamos a falar de uma cidade desenvolvida num sistema que divide os ricos dos pobres, a classe operária dos afortunados, através de um muro que os separa e que os afasta do conhecimento da realidade. Essa realidade é que há vida lá fora, que o céu é azul e o sol brilha, que há uma possibilidade de ser feliz novamente, que há esperança.

E antes de falar da jogabilidade e das questões técnicas, deixem-me aprofundar um pouco mais estas questões, porque são elas que tornam este jogo singular e que o tornará de culto.

As metáforas não são inocentes, são objecto para uma reflexão mais profunda e comparada a tudo aquilo que vivemos nos últimos tempos. O muro pode facilmente ser uma clara alusão ao tal muro para separar o México dos Estados Unidos da América, a divisão “social” para reflectir sobre as favelas do Rio de Janeiro, a cúpula onde a civilização robótica sobrevive debaixo da terra, numa espécie de bunker, pode ser vista como o isolamento a que fomos forçados devido a uma pandemia, aliás a epidemia que é referenciada como a causa dessa alienação da vida facilmente pode ser vista como uma ligação directa à pandemia devido ao vírus do COVID-19. Mas há mais, para mim a ligação a 1984 de Orson Wells está ainda bastante patente numa sociedade vigiadas pelas camaras espalhadas por toda a cidade e pela polícia robótica que mantem a ordem, sem saber o porquê e que repudia a arte urbana ou até a música.

A crítica social continua em várias das estórias e das personagens que vamos encontrando pelo caminho e que enriquecem o jogo. É através delas e de uma suposta ligação com os humanos de uma outra era, que vemos até que ponto uma classe ou um estrato social pode ser egoísta exilando outra/outro para sobreviver. Nada que não estejamos a ver neste momento por esse mundo fora, e por isso é que Stray é muito mais do que apenas o jogo do gatinho adorável. Os robots que vamos encontrando pelo caminho e que, de certa forma, nos vão guiar, contam estórias de heroísmo, de altruísmo, de sacrifício, de amor e perda, assim como de reencontro e esperança.

Por entre os 12 capítulos do jogo que podem ser facilmente concluídos entre as 4 e as 6 horas de jogo, vamos mergulhar numa cidade claramente inspirada em Cyberpunk 2077, cheia de néons e graffitis, onde toda a arte urbana que encontramos, especialmente nos primeiros capítulos da Favela, são pistas para desbravarmos. É curioso como o jogo é tão vertical e de uma forma muito Assassin’s Creed até, onde sem qualquer tipo de mapa sabemos para onde ir, ou simplesmente explorar. Por entre puzzles de ambiente, recolha de partituras para um músico de rua aprender novas canções, cofres cuja combinação está por detrás de uma fotografia no Bar ou partir uma clarabóia atirando um balde de tinta lá do alto, Stray é muito diversificado na sua proposta.

Para além destes exemplos focados na primeira grande área que vamos abordar no jogo e que tem várias missões secundárias e coleccionáveis para desbravar em duas fases, temos também secções de fuga, onde temos que fugir dos temíveis Zurks, bichos que sugam a vida e a origem da pandemia; temos secções de puro stealth onde não podemos ser vistos ou até criar emboscadas atraindo os drones inimigos com o nosso querido miar. É claro que grande parte do jogo será recolher informações de um sítio para entregar no outro, ativar uma alavanca para abrir uma porta, matar Zurks para garantir a passagem, mas nunca houve um único momento de repetição ou de mínimo tédio.

Quanto à jogabilidade, Stray oferece-nos uma recriação fiel de todos os movimentos de um gato na vida real. Não é à toa que tal acontece, todos os developers têm um gato ou até mais e todos foram usados como referência, tanto do ponto de vista artístico como do ponto de vista das animações. Aliás temos que referir que a ideia surge precisamente de dois ex-funcionários da Ubisoft que olhando para os seus gatos de estimação Murtaugh e Riggs e aquilo que faziam casa fora, que decidiram começar a elaborar Stray. E isso nota-se.

Desde o enrolar-se em si mesmo com a cauda a dançar, o enroscar-se nas pernas das pessoas, neste caso dos robots, o arranhar carpetes, cortinados ou o apoio de braço de um sofá, passando ainda pelo beber água de uma tigela ou de uma poça, o coçar-se ou a tratar da sua própria higiene. Tudo está recriado ao mais ínfimo detalhe com a questão sonora a não ser deixada ao acaso, com a recriação fiel dos seus miares, e que diga a minha gata Camila, que se passou com o som que vinha da televisão e do DualSense da PS5, à procura de um gato pela casa fora, gato esse que está dentro da TV.

A construção dos níveis está particularmente bem conseguida por aproveitar precisamente a condição que um gato nos oferece dos seus movimentos. Seria de esperar a capacidade “atlética” nos saltos de plataforma para plataforma, e isso será parte fundamental do jogo, mas também a forma inteligente em tantos outros movimentos. Exemplo disso é o puxar uns cortinados com as suas garras afiadas até este cair e desvendar um caminho para passar, o arranhar portas para fazer barulho para nos abrirem passagem, ou o simplesmente empurrar delicadamente com a pata uma lata de tinta para causar o efeito desejado.

Para comunicar com o mundo, o nosso gatinho terá a ajuda do seu parceiro nesta jornada, um pequeno drone apelidado de B-12. É ele que nos vai traduzir a linguagem que vemos espalhada pelos vários locais, desde um dialecto próprio dos robots, passando por imagens e memórias que vamos recolhendo de outros tempos e de uma outra vida. É também B-12 que nos vai iluminar o caminho, literal e figurativamente, seja com a luz que emana para vermos os locais mais sombrios, seja depois com uma luz que oblitera os pequenos seres que obrigaram a todo o refúgio a ser fechado em si mesmo. Este robot ainda terá a capacidade de carregar vários itens consigo, o que nos dá imenso jeito.

A componente técnica de Stray é de altíssima qualidade e em grande parte pelas opções estéticas e de level design que apresenta. Apesar de ser bastante linear existe sempre um sentimento de liberdade de movimentos e de decidirmos o que fazer quando o fazer. A vasta escala que apresenta, diversidade e pormenor faz com que tenhamos sempre algo para ver, para descobrir, sem entrar no espalhafatoso tecnológico, jogando com os contrastes do néon e das sombras, com várias influências, entre as quais a asiática. Isso aliado à verticalidade notória do jogo em que subir parece sempre o rumo mais lógico sem precisar de setas ou um mapa foi algo que me surpreendeu pela positiva. E é claro, o nosso querido gato fielmente recriado, modelado e animado, gera uma enorme empatia.

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Stray é muito mais do que apenas o jogo do gato. É um mundo nos olhos de um pequeno ser de quatro patas que coloca em perspectiva tudo aquilo que a sociedade, por vezes, se tem tornado. E às vezes é preciso perder-se tudo para se dar significado às pequenas coisas. Um jogo obrigatório, ainda para mais para quem tem o PlayStation Plus Extra ou Premium, visto que está disponível de forma gratuita.

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