Developer: BKOM Studios, Team 17
Plataforma: PC
Data de Lançamento: 13 de outubro de 2022

Tem sido bastante interessante ver como a Team 17 tem editado um variado leque de jogos com propostas mais independentes e, com isso, mais interessantes e fora do comum. Sunday Gold tem uma direcção artística particular, inspirando-se em Disco Elysium na componente de Role Playing Game e dos diálogos entre as personagens, mas rapidamente vemos também um pouco de XIII nos grafismos que indicam a acção ou o combate por turnos a recordar os primeiros Final Fantasy. E em vários momentos vai suplantar estas referências, mas já lá iremos.

Primeiro, dar conta da história que envolve as 3 personagens que vamos controlar durante o jogo. Frank, um ladrão moderno que se considera uma espécie de Robin Hood, mas que rouba aos ricos para se enriquecer a ele mesmo, Sally, uma brutamontes que muitas vezes lidera o grupo com o músculo mais importante de todos, o cérebro, e Gavin, um informático, um hacker paranóico cujo temperamento é extremamente volátil.

O jogo arranca dois anos antes da história principal, onde Frank e as suas duas parceiras, neste caso Sally e Ruth, estão no meio de um “trabalho” e, de repente, são apanhados. Bem, Ruth é capturada ou morta, não sabemos, mas Frank e Sally conseguem escapar. Dois anos depois deparamo-nos com um Frank que está “pendurado” com uma dívida a um mafioso e, mais uma vez, metido em sarilhos por causa disso. Sally aparece com a solução, um “gig” que vai resolver o problema e apresenta Gavin. Tendo Gavin trabalhado para uma megacorporação, a ideia é roubar informações confidenciais da tal Hogan Industries e vender a quem pagar mais. Obviamente as coisas não saem como planeado e a megacorporação é muito mais do que aquilo que diz ser e, como tal, a questão será muito mais complexa.

Sunday Gold tem “cenário” e contrariamente a Disco Elysium que se perdia nas caixas de diálogos e imagens minúsculas, mostra todo a arte gráfica em letras garrafais e a preencher o ecrã. A mistura do ambiente anos 70, com reminiscências dos anos 90, mas que no fundo acontece em 2070 com néons e luzes típicas de um cenário cyberpunk, cativou-me desde o primeiro minuto. Para além disso há um certo ar de filme neo noir, daqueles de um detetive à antiga, mas com conteúdo e características modernas.

As 3 personagens que controlamos fogem aos standard’s que estamos acostumados a ver, dando-lhes uma personalidade acima da média. Frank é magro, alto e com um penteado à Rockabilly e é conhecido como “O Barbeiro”, talvez pela arte de manusear uma navalha, já Sally é uma loira enorme e forte com um queixo quadradão e Gavin é um “nerd agressive”, careca e com cara de parvo. É engraçado como sendo tão diferentes, funcionam tão bem em equipa e têm uma química quase inexplicável.

Cada um tem a sua especialidade e com isso um minijogo associado. Frank é um mestre a abrir fechaduras e como tal, temos um minijogo onde temos que encontrar o ponto fraco e acertar no timing certo para forçar cada um dos aros dessa fechadura. Já Sally pode usar a sua força bruta para mover objectos pesados, por exemplo, e aí temos que conseguir focar a sua força num ponto apresentado, usando o botão direito e esquerdo do mouse. Gavin consegue aceder a computadores e ficheiros num minijogo onde enfrentamos um quebra-cabeças de descodificar códigos em várias tentativas.

O jogo divide-se assim em vários momentos, o de investigação onde funciona como um tradicional point and click, isto é, clicando em objectos para interagir com os mesmos, tentando resolver os quebra cabeças que cada área nos proporciona. Muitos deles são bastante desafiantes e obrigam-nos a ter uma boa memória e atenção aos detalhes para que não fiquemos sem saber o que fazer a seguir. Em vários momentos somos confrontados com inimigos que surgem nessas áreas com que teremos que nos debater, e aí, entra a componente de combate por turnos.

O combate por turnos é super recompensador e exigente. Há efectivamente secções de combate, especialmente com os Bosses, que vão exigir muita estratégia, domínio e controlo, assim como tempo. Tive alguns encontros que demoraram uma boa meia hora, por entre erros e aprendizagem dos adversários, assim como a complexidade do adversário por si só.

Os combates funcionam com a atribuição de Action Points (AP), onde cada acção tem um custo destes AP. Geralmente temos cerca de 7 a 9 AP para usar por personagem e por ronda, sendo que um ataque normal usa 1AP, os ataques dispersos usando as armas ao dispor um pouco mais, as habilidades próprias de cada personagem andam pelos 3/4AP e o ataque especial 5AP. Pelo meio temos a possibilidade de usar o inventário para recuperar saúde ou compostura, mas também ganhar adrenalina para usarmos mais AP.

Outro elemento que teremos também que gerir é o nosso inventário, visto que cada personagem poderá usar vários tipos de arma, mas muitas delas específicas para cada personagem. Frank poderá utilizar armas de longo alcance e uma navalha, Sally punhos de ferro ou com espigões e armas de curto ou médio alcance e Gavin tacos de baseball ou raquetes de cricket e armas de curto alcance. Podemos ainda equipar as nossas personagens com coletes à prova de bala, balas de perfuração ou outros artifícios para dar mais adrenalina ou saúde.

Cada personagem tem também habilidades especiais. Frank pode motivar a equipa dando-lhe mais pontos de adrenalina, assim como acalmar as hostes diminuindo a compostura, Sally poderá dar pontos de saúde à equipa, assim como reanimar um elemento que morra durante o combate, e Gavin poderá utilizar os seus conhecimentos de informático para utilizar granadas disruptivas.

Bem sei que tenho falado aqui de compostura e se calhar estão a perguntar o que é isso neste jogo. Bem sei que elementos como saúde e adrenalina são mais usuais nos videojogos, mas aqui a compostura tem a ver com capacidade de manter a calma durante os combates.

Se perdermos demasiado a compostura, e os níveis em cada uma das personagens é diferente, entramos em pânico, e isso resulta num timer que aparece a cada turno da personagem nesse estado, com poucos segundos para decidirmos as nossas acções, antes que elas sejam tomadas aleatoriamente. No caso de Gavin que é já de si, meio chanfrado, vão ter que ter um cuidado extra, até porque, quando panica, começa a ver inimigos a mais a sofrer danos dos mesmos. Achei esta componente da compostura muito interessante e diferente do habitual, para além de dar uma certa adrenalina a cada confronto.

A cada nível que chegamos, recebemos dois pontos que servem para melhorar habilidades. A escolha é livre, mas possuem focos diferentes. Por exemplo, aumentar o nível das especialidades faz com que os personagens precisem de pontos de ação ao executá-las. Ou podemos melhorar habilidades de combate para causar mais dano, facilitando os combates.

Em termos de banda sonora, tudo encaixa perfeitamente. O jogo em si tem um ambiente neo noir com um toque de mistério e investigação e a trilha sonora acompanha isso mesmo, mutando-se para algo mais vivo e dinâmico no combate por turnos. Uma parte interessante é a jukebox que podemos interagir no pub que planeamos as missões que tem as músicas do do jogo e podem ser mudadas manualmente.

O voice acting é acima da média e faz toda a diferença. Não só combina bem muito bem com as personagens, mas também com as suas personalidades. Frank é um ladrão malandro e faz comentários perfeitos com seu estilo. Sally é uma brutamonte calma e calculista, e mesmo em situações críticas consegue demonstrar isso. Gavin é o nerd que tem medo de tudo e fica desesperado em momentos críticos. Aqui, tanto o voice acting quanto a personalidade dos personagens brilharam, trazendo mais graça e empatia a cada um.

Sunday Gold é obrigatório para todos os jogadores de PC. Combina muitos bem dois estilos tradicionais do PC Gaming com uma narrativa interessante e com personagens icónicas. Não inventa a roda, mas está tão bem construído desde a sua raíz até aos pormenores do voice acting que me marcou e é, sem dúvida, uma das revelações do ano, e um dos meus jogos favoritos deste ano.

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