Developer: Wales Interactive
Plataforma: PlayStation 4, Xbox One, PC e Nintendo Switch
Data de Lançamento: 31 de Março de 2020

Os FMV (Full Motion Videos) fazem parte de um estilo da narrativa que tem dado passos tímidos e sem ainda um grande nome que possa servir de bandeira para catapultar o género para um patamar mais relevante. No entanto, existem sinais de haver um interesse crescente no desenvolvimento destas experiências.

O exemplo mais recente é Bandersnatch, o conhecido episódio experimental de Black Mirror. E apesar de não ter atingido o impacto desejado, mostrou que é perfeitamente possível entrar numa corrente mais mainstream, proporcionando uma alternativa híbrida – e muito interessante – entre o cinema e os videojogos.

Ao contrário de outros jogos focados na narrativa que nos últimos anos conquistaram uma invejável reputação, como os títulos da Telltale Games, os Life is Strange, ou mesmo o Detroit Become Human, os FMV utilizam actores reais; o que tanto pode ser visto como um factor de encanto, ou como um desafio, uma vez que conta com os limites que não se verificam nas animações. Porém, a mecânica fundamental é praticamente similar, colocando o jogador perante dilemas de comportamento e diálogo que irão influenciar todo o seguimento da história.

Amy Tennant é uma médica e cientista, e também o cérebro por trás de um avançado projecto de nanotecnologia, que será depois comercializado pela empresa a qual trabalha, a Kensington Corp, em tratamentos médicos. Como qualquer tecnologia não tem em si um objectivo moral, e o seu uso vai sempre depender das intenções de quem a tem no seu poder, era inevitável que caísse em mãos erradas, resultando na contaminação de uma assistente de Amy.

Na eminência de um desastre biológico, cabe à jovem médica descobrir quem está na origem da conspiração, embora a maior dificuldade resida em desconhecer em quem poderá confiar. Amy vê-se numa agitada luta contra o tempo. Porque enquanto tenta salvar a vida à sua estagiária, outras ameaças se vão revelando. É um triller como tantos outros que já vimos, contudo, com a particularidade de sermos nós a decidir como tudo se irá desenrolar até um dos seus nove finais possíveis.

Os actores têm um bom desempenho no geral. Não estarão certamente nos próximos candidatos aos óscares, mas quase todos entregam performances convincentes. Especialmente Michelle Mylet, a protagonista, e Al Weaver, o seu principal colega.

A atmosfera é tensa, como é de esperar. Quase toda a história decorre no laboratório da Kensington Corp, que tal como o jogo, tem o nome The Complex. Como tal, podem esperar um ambiente com elevados contrastes de luz, o que se adequa perfeitamente, tendo em conta o contexto. A fotografia e o cenário são alguns dos pontos fortes do jogo e ajudam no envolvimento com a história.

Há um bom equilíbrio entre a duração das cenas e as decisões que requerem a nossa intervenção, embora o tempo para responder seja sempre demasiado curto, mesmo quando o contexto não o justifica. Existe por vezes a sensação de que somos chamados a decidir em situações que pouca relevância têm, e que apenas são colocadas no nosso caminho para criar volume no tempo da experiência. Todavia, no seu conjunto, acabam por ter importância na definição da personalidade da protagonista e na sua relação com as outras personagens (algo que podemos consultar num menu próprio).

Tem os seus problemas. Particularmente no ritmo da história, já que passa de um desenvolvimento lento, para um súbito final. A explicação é a de ser um jogo para se jogar mais do que uma vez e descobrir os vários finais. Apesar disso, fica a impressão de ser demasiado curto e com uma estrutura que podia ter sido idealizada de outra forma.

The Complex é a mais recente tentativa da Wales Interactive romper a barreira da irrelevância. Provavelmente ainda não será o título que vamos poder considerar como um ponto de viragem, mas consegue, ainda assim, oferecer uma boa obra de entretenimento.