Developer: SuperMassive Games, Bandai Namco
Plataforma: Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 22 de Outubro de 2021

Quando se trata de criar uma experiência cinematográfica de terror, ninguém consegue bater a SuperMassive Games. Foi assim com Until Dawn, que criou um culto e uma identidade muito particular dentro do género dos survival horror. Posteriormente, e já num formato multiplataformas, o estúdio usou a mesma fórmula para nos trazer a antologia The Dark Pictures, que todos os anos lança um novo jogo.

Explora muitíssimo bem os elementos que fizeram dos filmes de terror e mais particularmente do género slasher uma febre no final dos anos 80 e início da década de 90. Nesta receita o desenvolvimento das personagens não é menos importante do que o suspense, a grande diferença é que teremos uma enorme influência na maneira como as personagens se relacionam, ditando mesmo os seus destinos.

Começou num navio fantasma com Man of Medan, passando pela macabra pequena cidade de Little Hope, e levando-nos agora até ao Iraque, visitando dois espaços temporais, ainda que um deles de forma muito breve. O modelo é igual ao apresentado nos jogos anteriores, onde além do suspense, teremos um grupo de personagens que tentaremos salvar enquanto tentam sobreviver não só à ameaça em questão, mas também uns aos outros.

É o final do ano de 2003, num país tudo menos amistoso para as tropas americanas. Um grupo de soldados em missão no país que outrora fora controlado por Saddam Hussein é enviado para uma região remota, com base numa informação de que existiriam armas de destruição maciça. Ao chegarem, percebem que esse palpite estava longe de estar correcto, e o que encontram na realidade são forças hostis iraquianas que resultam num confronto, causando baixas dos dois lados.

Porém, o pior ainda estava para vir, já que enquanto se dá esta troca de tiros, o chão desaba, revelando um misterioso templo sumério. Poucos sobrevivem, e após alguns incidentes que se verificam imediatamente a seguir, restam apenas cinco personagens: o coronel Eric King, a sua esposa Rachel, o tenente Jason, o sargento Nick, e Salim – um tenente iraquiano.  O aspecto das patentes é relevante, uma vez que em muitos casos, as nossas decisões passam a ordens, o que além de não impactarem somente a personagem em evidência, estarão também no centro de vários conflitos entre as personagens.

Como é hábito nesta franquia, as personagens foram criadas de forma a que todas tenham um papel na história. Todas as personalidades são pensadas de forma a preencherem um espaço e uma intenção na história, tal como as relações entre as personagens. Um bom exemplo é o de Salim, um iraquiano que servirá para contextualizar o jogador ao nível cultural e político, sendo provavelmente a personagem mais interessante, e aquela que rapidamente se tornará a nossa favorita.

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 Sem terem como sair, não terão alternativa senão investigarem o interior de um templo que em tempos foi habitado por uma antiga civilização suméria, cujo desaparecimento está ligado a uma horrível maldição. Este anátema, ironicamente, tem igualmente origem numa guerra que, tal como em muitos outros eventos ao longo da história, fez com que o homem fosse longe de mais de modo a lidar com uma ameaça.

Os sumérios podem ter expirado, mas não a sua maldição, que persiste e é materializada em terríveis criaturas. Seres estes que matam sem qualquer descriminação, e com uma sede que parece nunca querer terminar. É, portanto, a conjuntura ideal para nos sentirmos como presas dos nossos maiores medos, e que em muitas situações nos faz lembrar dos wendigos de Untill Dawn.

O ambiente subterrâneo e claustrofóbico ajudam imenso na atmosfera de suspense e terror, cuja lanterna é a única coisa que nos separa do total desconhecido. A própria arma dá-nos uma falsa sensação de segurança, dado que nunca sabemos que estamos a ser observados, e o sentimento de paranoia é constante. O cenário em si é, possivelmente, o que melhor entranhou as intenções do estúdio em transportar o jogador do conceito para a jogabilidade. E, sim, incluo todos os títulos da SuperMassive.

Até nos modos multijogador é talvez aquele que mais se destaca dos seus antecessores. Além de provocar sustos com bastante frequência, a cadeia de comando também gera uma dinâmica muito peculiar, levando a que certos jogadores se tornem vítimas das escolhas de outros. É por isso perfeito para juntar amigos num domingo à tarde, e darem umas gargalhadas à custa uns dos outros.

A jogabilidade permanece praticamente idêntica. E não havia razão para mudar, visto que sempre funcionou bem. Continua a consistir na exploração do cenário, e depois investigar e interagir com os objectos. É aí que nos distrai e acumula tensão para nos momentos certos nos conseguir assustar, sendo complementado com quick time events que simulam a destreza, ou como reagimos a situações de stress.

Esta espécie de minijogos é excelente para nos deixar ansiosos, porque muitas vezes irão ditar a sobrevivência da personagem. Portanto, sangue frio é necessário, assim como uma imensa rapidez de reflexos. Preparem-se, porque em algumas alturas parece que pretende mesmo que o jogador falhe, e nunca sabemos quando nos será pedido para agir.

Todavia, nada disto teria a mesma dimensão sem uma boa qualidade gráfica que tornasse todos estes momentos o mais reais possível. E se antes já impressionava visualmente, agora com versões optimizadas para as consolas da nova geração está simplesmente assombroso. As expressões faciais das personagens podiam estar um pouco melhores, é verdade, mas tanto as paisagens no deserto, como as circunstâncias em que exploramos as grutas estão com uma propriedade quase fotorrealista. Porta-se melhor no modo performance, com FPS’s mais estáveis e sem quebras, mas em ambas opções temos um rendimento bastante aceitável.

House of Ashes é a última entrada na antologia The Dark Pictures, e mais uma excelente adição ao franchise. Quem gostou dos jogos anteriores certamente gostará deste, sendo outro fantástico trabalho de um estúdio que é hoje o maior especialista em criar títulos de suspense e terror.