Developer: Supermassive Games
Plataforma: Xbox One, Xbox Series, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 18 de Novembro de 2022

Foi em 2019 que a Supermassive Games decidiu apresentar-nos à nova franquia The Dark Pictures que, seguindo a receita de sucesso de Until Dawn, nos abria portas a uma série de jogos dentro dos mesmos moldes. Esta antologia de terror lançou um episódio por ano, sendo que encerra agora a temporada com o seu quarto jogo – The Dark Pictures Anthology: The Devil in Me.

São jogos com histórias mais curtas do que aquelas que podemos encontrar em Until Dawn, e mais recentemente em The Quarry, mas o tipo de narrativa e as mecânicas são em tudo muito idênticas, proporcionando excelentes experiências de terror. Cada exemplar, no entanto, tem as suas particularidades, e em The Devil in Me não é diferente, com algumas surpresas interessantes que enriquecem a jogabilidade.

Foi uma antologia de jogos com várias propostas diferentes, começando com a atmosfera de paranoia em alto mar de Man of Medan (2019), passando depois por sobrenatural mais clássico em Little Hope (2020), e levando-nos depois a conhecer uma terrível maldição em House of Ashes (2021). Esta primeira season termina provavelmente com o conceito mais original de todos os títulos da Supermassive Games desde Until Dawn, com The Devil In Me a trazer uma direcção diferente relativamente ao contexto de terror, mas nunca fugindo aos elementos que caracterizam o franchise.

É uma outra abordagem de terror psicológico a que estamos acostumados quando comparamos com os títulos anteriores do estúdio, mas não menos assustadora. É até mais imprevisível e difícil de antecipar, deixando-nos mais reactivos e, com isso, contribuindo para a ansiedade da ocasião. O estúdio vinha sendo acusado de inovar pouco nos seus últimos jogos, e esta foi talvez a resposta encontrada para mostrar que também é capaz de tentar fórmulas alternativas e eficazes.

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A construção da narrativa, porém, tem os mesmos ingredientes de todos os outros jogos lançados pelo estúdio, onde um grupo de personagens são atirados para uma condição de sobrevivência, enquanto o jogador vai influenciando os seus destinos. Tal como nos títulos anteriores, a personalidade dos intervenientes vai sendo moldada pelas nossas decisões, assim como as relações entre cada um, o que será fundamental para que certos acontecimentos ou opções possam acontecer. Pouco mudou nesse sentido, e ainda bem, já que sempre funcionou em pleno, especialmente do ponto de vista do enredo e da intriga.

Em The Devil In Me temos como figura central Henry Howard Holmes. O nome pode ser desconhecido para muitos, mas é considerado o primeiro serial killer da história americana. Viveu durante o século XIX, e foram confirmados dez homicídios, embora tenha confessado 27 no total e ser suspeito de outros 200. Um aspecto que o distinguia era o de gostar de matar as suas vítimas num edifício, conhecido por Murder Castle, um peculiar hotel em Chicago.

Os pormenores macabros deste hotel são bem conhecidos, e eram o recreio da mente perversa do seu autor. H. H. Holmes gostava de brincar com as suas vítimas, levando a que estas sentissem o horrível pânico de se sentirem observadas, caçadas, encurraladas, e não terem por onde escapar. As divisões e os quartos do Murder Castle foram pensados especificamente de maneira a que as presas fossem conduzidas para onde ele desejava, e divertir-se depois quando caíam nas armadilhas que colocava estrategicamente.

A história de The Devil In Me começa com a equipa da Lonnit Entertainment a ser convidada para visitar uma recriação muitíssimo fiel do Murder Castle. Esta pequena produtora tem um programa de documentários sobre assassinos em série, e vê aqui a oportunidade de poder ultrapassar os problemas financeiros, com um episódio marcante que possa impulsionar o negócio. Declinar o pedido para conhecer o misterioso Charles Du’Met – o autor do convite – está, claro, fora de hipótese, tal como esta excursão pela réplica do sinistro Murder Castle. Todavia, são pessoas habituadas a estas aventuras, e não deixam transparecer qualquer preocupação, aceitando o desafio prontamente.

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Rapidamente irão perceber que este Murder Castle é demasiado parecido ao original, e muito mais do que eles desejariam. Ironicamente, o documentário passará a ser sobre eles, e irão enfrentar tudo o que as vítimas de H. H. Holmes viveram nos últimos minutos de suas vidas. O desespero e o horror de Katherine Wilder, Charles Lonnit, Erin Keenan, Jamie Tiergan e Mark Nestor passará a ser o deleite de alguém com intenções verdadeiramente diabólicas, que soube montar as mais terríveis armadilhas com o objectivo de apanhar um por um.

Os traços das personalidades de cada um dos membros da equipa de filmagens da Lonnit Entertainment irão sendo revelados durante a história, assim como outros mistérios que nos deixarão deveras surpreendidos. E à semelhança dos jogos anteriores, será importante investigar o máximo possível de forma a que nada nos escape, já que todas as informações poderão ser críticas para a sobrevivência das personagens. É uma parte do jogo que permanece sem alterações, e que será sempre aliciante para os mais curiosos.

O menu de consulta no geral não teve grandes mudanças, e continua a apresentar coisas como os Secrets, as Premonitions, as características das personagens, o objectiv, tal como as escolhas e os momentos determinantes. É o básico do que conhecemos dos jogos da Supermassive Games, e que tem sido crucial para criar o contexto da narrativa. É algo que, não só serve de fio condutor para todos os detalhes referentes à história, mas também para descobrirmos faseadamente tudo aquilo que ainda não nos foi mostrado.

Podem contar, no entanto, com diversas novidades relativamente ao gameplay, e em particular na perspectiva, que deixou definitivamente a fixed camera para se focar inteiramente na terceira pessoa. A razão para isso é que a movimentação dos protagonistas terá de ser mais livre, uma vez que poderemos fazer muito do que acontece em outros jogos, como saltar, esgueirar por locais apertados, arrastar e empurrar objectos, e até uma espécie de equilibrismo. A acrescentar a isso temos agora puzzles para resolver; nada de muito complexo, mas que depende desta nova mecânica de mobilidade para ser possível.

Contudo, a surpresa mais interessante é que agora as personagens têm utilidades e talentos especiais; podem ser apenas objectos que alguém possui – como um simples isqueiro para iluminar o caminho – ou competências para resolver problemas específicos – como conhecimentos de electricidade para mexer em quadros eléctricos. É muito bem-vindo, e um aspecto que, em situações em que tenhamos de fazer escolhas entre personagens, acreditem que terá o seu peso.

Quanto ao multiplayer, temos novamente o Movie Night e Shared Story. O primeiro é para ser jogado localmente, à vez, entre 2 a 5 pessoas, com cada um a escolher uma personagem. Já o segundo é unicamente online e para dois jogadores, onde jogam simultaneamente com personagens diferentes. Infelizmente, o Movie Mode que foi introduzido em The Quarry não transitou para The Devil In Me, e é pena, dado que era uma forma única de experimentar diferentes finais.

Graficamente não se pode dizer que tenha existido qualquer evolução. A qualidade é óptima, mas no mesmo patamar dos últimos dois jogos do estúdio. Nos cenários exteriores, senti que a qualidade visual foi ligeiramente sacrificada para que a performance nestes novos moldes em third person não sofresse em demasia; já dentro do hotel, particularmente em áreas mais escuras, o nível de detalhe sobe consideravelmente, conseguindo impressionar. A parte sonora é igualmente de elogiar, seja na música, ou nos efeitos, com um voice acting que, embora não sendo do melhor que o estúdio já conseguiu, é, ainda assim, competente.

The Dark Pictures Anthology: The Devil In Me é um digno último capítulo da primeira temporada. Algumas das novidades podiam ser, a espaços, melhor executadas, mas louva-se a coragem para tentarem inovar, e saírem da sua zona de conforto. Quem gostou dos outros títulos da Supermassive Games não sairá desiludido, e terá aqui mais uma dose de sustos à sua espera.