Developer: Lancarse, Square Enix
Plataforma: PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e Nintendo Switch
Data de Lançamento: 22 de Setembro de 2022

Embora os JRPG’s partilhem de muitos moldes idênticos e elementos em comum, ocasionalmente surgem exemplares que tentam furar as fronteiras do género e inovar. É raro, mas felizmente acontece, e é claramente o caso de The DioField Chronicle. Este jogo desenvolvido pelo estúdio Lancarse e publicado pela Square Enix, troca o combate por turnos pela estratégia em tempo real, e mostra como são possíveis outros caminhos para os RPG’s japoneses, mas igualmente profundos.

Na verdade, é pena até que outros títulos não explorem esta abordagem mais vezes, porque é notório o imenso potencial. Imaginem a trama política de Game of Thrones, com a atmosfera e a dinâmica de Fire Emblem, no entanto, com um combate mais inclinado para o RTS. É uma mistura que pode parecer incomum à primeira vista – e de facto é – mas que funciona surpreendentemente bem. Por esse motivo, The DioField Chronicle nem precisa de se esforçar para cativar o jogador desde o início, oferecendo uma experiência que nos deixa constantemente curiosos para saber como tudo se vai desenrolar.

O reinado de Alletain vive em paz há dois séculos na ilha de DioField. Contudo, este período de serenidade tem os dias contados, uma vez que o crescimento de um império na vizinhança começa a afigurar-se como uma preocupante ameaça. A razão é a mesma de sempre: recursos. Ou neste caso, um importantíssimo mineral com o nome de Jade, que existe em abundância no território de DioField. A procura por este mineral não acontece por acaso, dado que é necessário para qualquer fonte de magia, traduzindo-se em poder militar.

O protagonista chama-se Andrias, e juntamente com os seus companheiros de armas, formam um pequeno grupo de mercenários chamado de Blue Foxes. Como já devem ter adivinhado, estes soldados vão acabar por envolver-se neste conflito, dando começo à evolução da história. Como qualquer jogo de estratégia, a sua duração será tudo menos curta, com mais de 40 horas para jogar, e divididas por 6 capítulos. Muita da profundidade narrativa é apresentada por meio das personagens principais, para o qual muito contribuem as interessantes cutscenes, e um fantástico voice acting, com o pormenor de podermos contar com a voz de Doug Cockle, mais conhecido por interpretar Geralt of Rivia na saga de The Witcher.

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Com o decorrer da história será sempre difícil traçar a linha entre os heróis e os vilões. É uma guerra, e inevitavelmente todos acabam por sair manchados. Porém, é para mim um dos pontos fortes da história, já que ajuda a desenvolver as personagens, dando-lhes uma aura mais credível. Podem também esperar diversos plot twists, o que significa que a direcção que a história está a tomar nem sempre é definitiva. O seu enredo político é fértil a transformar benfeitores em tiranos, e nunca sabemos exactamente com o que contar.

Para aqueles que gostam de ter um maior conhecimento sobre o lore do jogo, têm disponível uma biblioteca em Elm Camp – um local que serve como posto intermédio entre missões, com várias lojas. Podem visitar esta biblioteca e consultar mais a fundo algumas curiosidades sobre a história, assim como detalhes que de outra forma não poderíamos saber. Não é fundamental para o contexto narrativo, mas será útil para quem quiser investigar sobre o passado deste universo.

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Todavia, é no gameplay que The DioField Chronicles consegue realmente brilhar. Tem um estilo RTS de combate em menor escala, e com pausas táticas para decidirmos a estratégia imediata conforme a circunstância. Perante o perigo, os membros da squad reagem automaticamente, atacando o inimigo, no entanto, cada personagem tem habilidades especiais que usamos conforme o que for mais conveniente para o cenário em questão. É um Real Time Tactical Battle (RTTB), ou seja, um misto de um Real Time Strategy, com algumas características de um turn based na forma como escolhemos os ataques mais poderosos de cada um.

Muitas coisas terão de ser consideradas na altura dos combates, como as posições tanto dos nossos soldados como dos inimigos; o timing em que infligimos certos golpes, mas, principalmente, quem atacará quem. Praticamente todos os inimigos são resistentes contra determinados ataques, o que obriga o jogador a não só saber identificar as qualidades dos oponentes, como ganhar uma certa compreensão sobre a generalidade das unidades em batalha.

Como é habitual em JRPG’s, os efeitos das habilidades são espetaculares, especialmente aquelas que funcionam em área e as invocações de criaturas. É um estilo de combate que quando aprendemos a dominar minimamente, é difícil de parar visto ser entusiasmante e estar bem executado. Não tem um grau muito elevado de dificuldade, e mesmo quando cometemos alguns erros é possível ainda dar a volta à situação. Isto se não falarmos de algumas boss fights, que estão noutro nível de desafio e por vezes levam demasiado tempo a serem concluídas.

O sistema de progressão é algo confuso e irá demorar algum tempo até percebermos exactamente como funciona. Não é que tenha uma dimensão que possa assustar quem procura algo mais simples, mas tem especificidades que precisam ser apreendidas para evoluirmos no sentido correcto. Todas as classes podem levar upgrades através de skill points, assim como os atributos básicos podem ser melhorados com ability points. O nosso esquadrão de mercenários vai similarmente crescendo em veterania, e para isso contribui o Unit XP que vão ganhando em combate.

Pode parecer muita coisa, mas basta entender a lógica por trás e veremos que não é assim tão complicado. A economia existente foi bem pensada para que o acesso ao que de melhor tem para oferecer não nos seja severamente negado, e, na realidade, é quando The DioField Chronicles se torna verdadeiramente absorvente, em razão de nos aplicarmos a tentar descobrir o melhor possível para a nossa squad. Até porque apesar de as possibilidades de personalização não serem exageradamente extensas, proporcionam, ainda assim, o suficiente para nos manter entretidos com os efeitos.

Os títulos da Square Enix costumam ser bastante ricos neste particular, e aqui não é diferente. A curva de aprendizagem não é a mais descomplicada, mas compensa com a quantidade de opções. Onde acerta em cheio, é que não obstante as batalhas sejam por norma desafiantes, por mais difíceis que sejam, com o planeamento adequado e com boas decisões, nenhuma chega ao ponto de se tornar frustrantemente cansativa. E o sistema de progressão tem um importante papel nesse aspecto.

Quanto à parte gráfica, há que dizer que está muito competente. Não deslumbra, mas o objectivo é principalmente a performance, e aí cumpre com mérito. Contudo, a qualidade visual tem mesmo assim o seu charme, cativando o jogador à sua maneira. Os cenários durante a exploração são normalmente interessantes, e os efeitos das habilidades lançadas pelas personagens são sempre espetaculares.

A banda sonora também tem um bom nível, seja naquele tipo de música que habitualmente vemos nos JRPG’s, como nos efeitos sonoros durante os combates. Contudo, é no voice acting que realmente consegue impressionar, com um trabalho absolutamente fantástico por parte dos actores, que mostra como se comprometeram com as personagens. Um ou outro diálogo se repete, mas nada de exagerado.

É mais um excelente jogo da Square Enix. Quem gosta de uma boa ambientação JRPG e tem uma paixão por RTTB’s, certamente não vai querer deixar de dar uma oportunidade a The Diofield Chronicles. Vale bem a pena.