Developer: Bloober Team
Plataforma: Xbox Series X|S e PC
Data de Lançamento: 28 de Janeiro de 2021

The Medium é um jogo de horror psicológico na Terceira pessoa, que nos traz uma jogabilidade de dupla realidade inovadora, patenteada pela Bloober Team. Os jogadores irão jogar como Marianne, uma medium com diversas habilidades psíquicas, tendo a possibilidade de explorar o mundo real e o espiritual, de forma alternada e simultânea, para descobrir um mistério negro, envolto em segredos perturbadores, espíritos sinistros e puzzles desafiantes que apenas uma medium pode resolver.

Tudo começa com uma jovem rapariga a ser assassinada por um homem. Se é apenas um pesadelo, uma memória ou uma premonição, mas Marianne sabe que algo não está certo, aliás que nunca esteve certo. A vida de Marianne sempre foi difícil devido à sua capacidade de interagir com duas realidades distintas, de conseguir falar com os mortos, com os espíritos, de reactivar as suas memórias, os seus medos, e por isso mesmo sempre foi tratada como uma anormal.

No entanto houve sempre na vida de Marianne uma pessoa que nunca a tratou assim e que a protegeu e também a ajudou a ajudar os outros, e essa pessoa era o seu pai, Jack. E digo era, porque o pai de Marianne morreu, e o jogo começa precisamente naquele que é o funeral de Jack e na tentativa de Marianne acompanhar o espírito do seu pai para o além.

É nesse mesmo cenário que Marianne recebe uma chamada, uma verdadeira chamada do Além, de um tal Thomas, que apela à nossa Medium para se deslocar até um hotel abandonado, o Niwa Hotel. Com a promessa de que lá Marianne encontrará todas as respostas que procura, incluindo a resposta para aquele “pesadelo” que tem recorrentemente, que Marianne se desloca até lá.

É neste Niwa Hotel que toda a ação se vai desenrolar, e onde facilmente vamos perceber que estamos perante um Hotel supostamente deserto de pessoas, mas não deserto de almas que ficaram presas a misteriosos acontecimentos. É aí que vamos encontrar Sadness, o espírito de uma pequena rapariga que apenas quer ter companhia e brincar, mas que no entanto se vai demonstrando fulcral na percepção de toda a trama e uma ajuda preciosa.

Não quero de todo estragar a experiência de seguir esta narrativa, pois é um dos pontos fulcrais do jogo, e a forma como está entrelaçada agarra-nos de uma tal forma que as horas de jogo passam a voar, mas para uma melhor compreensão da trama, apenas dizer que Marianne irá, de facto, encontrar Thomas, mas também vai encontrar a origem de todo o problema e a dimensão do mesmo, e encontrar essas respostas não vai se fácil nem simpático.

The Medium acontece em 1999 na Polónia, por isso este Niwa Hotel foi criado no auge do regime comunista, tendo sido abandonado de forma misteriosa, mas com vários rumores de que um massacre foi a razão pela qual foi abandonado. Aliás, apesar de não ter este nome, o hotel existe na vida real sob o nome de Cracovia, precisamente na cidade de Cracóvia, e foi renderizado para recriar esse mesmo ambiente, o que ajuda e muito na credibilidade do espaço que estamos a vasculhar. Nessa busca por Thomas, por entre aquilo que resta deste complexo destruído, rapidamente percebemos que esse massacre é real, e de que muita gente o tentou esconder, falta saber o porquê e para quê. No entanto Marianne vai descobrir que Thomas, não só tem um perfil muito parecido ao da nossa personagem, como que aquilo que aconteceu em Niwa tem muito mais a ver com o seu passado do que ela possa imaginar.

Como já perceberam é a narrativa, a trama, que une todos os pontos positivos do jogo, e já vamos falar de jogabilidade, ambiente e grafismos, mas é este mistério, a construção das narrativas das várias personagens que se vão ligando umas às outras, os próprios Ecos de um passado horripilante que vamos encontrando, que dão a magnitude deste jogo que nos deixa agarrados do princípio ao fim, quase que exigindo que acabemos as cerca de 10 horas de jogo num só dia. E sim digo dia, porque eu não lido muito bem com a tensão dos ambientes escuros e do medo constante que a banda sonora nos vai alimentando a cada passo que damos. Apesar de não ser propriamente um jogo de terror visceral, existe uma boa dose de terror psicológico, muito a ver com essa noção de que o perigo espreita a cada esquina, por cada porta que passemos, por cada armário que abrimos, a cada passo que ouvimos e que não sabemos de onde vem.

Atenção eu não sou propriamente a pessoa que fica com os jogos de terror na equipa do nosso Salão de Jogos, portanto ter gostado desta forma e desta “medunfa” constante já diz muito sobre o jogo, mas que percebam um pouco melhor, eu explico. O jogo cria vários momentos de tensão, e a forma como o faz, é muito daquilo que o filme Shining fez, aliás as ligações a este clássico do cinema são muitas, desde logo, o facto de ser um Hotel, dos ângulos das cameras ao percorrermos corredores, a ligação espiritual, as entidades, as crianças, há muito de Shining neste jogo, e é bom, porque a referência é de excelência.

Para quem se lembra desse clássico com Jack Nicholson, facilmente recordará como o terror que sentimos nesse filme, é o de perdermos os sentidos, da noção da realidade, e de que tudo pode ser diferente daquilo que estamos a ver, e é esse mesmo medo que sentimos em The Medium, o medo de que na outra realidade, ou de que da outra realidade, algo apareça, algo surja, mesmo quando estamos tranquilinhos da vida apenas a ler postais que vamos apanhando pelo caminho. E esse medo adensa-se ainda mais quando a determinada altura percebemos que a entidade monstruosa e aterrorizante conhecida como “The Maw” (com voz de Troy Baker, que faz um trabalho surpreendente no papel de uma entidade assassina), também é capaz de atravessar os dois mundos para nos caçar.

Esta tensão é ainda aprimorada por dois factores, um deles é o posicionamento das cameras em ângulos específicos que são um fator significativo na aplicação da sensação de isolamento e opressão, assim como um sentimento de “nudez”, isto é, que de alguma forma estamos impotentes, porque vamos virar a esquina e se for para apanhar um enorme “cagaço”, é exatamente isso que vai acontecer.

Complementando a camera fixa está a direção de arte, que consegue estabelecer dois mundos diferentes, mas que trazem as suas próprias tensões e medos: o mundo dos espíritos – inspirado pelas obras do artista polaco Zdzisław Beksiński – é carregado de imagens estranhas e perturbadoras, com diferentes áreas carregadas de tipos de subjetividades representando violência, abuso, destruição entre outros; e depois o mundo real de Niwa e os seus arredores, trazem, por sua vez, uma sensação de abandono, mais “realista”, com ambientes abandonados e definhados, com os eventos que aconteceram por lá a misturarem-se às manchas nas paredes e escombros no chão.

A música também complementa e potencializa estas sensações, graças ao trabalho das composição de Arkadiusz Reikowski para o mundo real e de Akira Yamaoka (responsável pelas composições de Silent Hill) para o espiritual. A trilha raramente se expõe demais, mas ajuda a manter a sensação de desconforto ao navegar por estes territórios.

Passemos então à questão da jogabilidade, que é bastante simples, para além dos controlos para nos movimentarmos e observarmos objectos, temos um botão para interagir com os tais objectos, outro para subirmos ou descermos plataformas e mais um para nos agacharmos e outro para corremos em estilo marcha, isto na nossa realidade.

No entanto e como já viram pelos vídeos de jogabilidade, a grande inovação é a interacção em realidades distintas, e aí temos mais um conjunto de botões para interagirmos nessa realidade espiritual que vai desde carregar a nossa “luz” no braço esquerdo de Marianne que pode ser utilizada para criar um escudo espiritual para conseguirmos passar por zonas em que um sem número de traças nos querem comer vivos, ou então para disparar um raio de luz para carregar por exemplo caixas de fusíveis. Para além disso, e uma das mecânicas mais interessantes, é o facto de podermos sair do nosso corpo por um período de tempo para vaguearmos no mundo espiritual sem movermos o nosso corpo na nossa realidade, mas nesse caso temos um tempo limite até que o nosso espírito desapareça por completo, portanto, torna-se em mais um factor nos vários puzzles que o exigem.

Para quem está à espera que andemos aos tiros ou algo do género, desenganem-se, porque The Medium é para usar o cérebro e não os músculos dos dedos, são os vários puzzles, quer seja na percepção de como chegar a determinado objecto para abrir um novo caminho, quer seja no “viajar no tempo” para abrir determinada passagem secreta que nos vai agarrar ao jogo.

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Toda a ação passa pela compreensão daquilo que se passou neste Hotel, de juntar os pedaços da história, e de a recuperar que é o master plan do jogo. Para aqueles, que como eu, adoram puzzles, aqueles que nos obrigam a estar sempre embrenhados no decorrer da história, este jogo vai-vos agarrar facilmente, especialmente aqueles que não querem tudo de borla, isto é, não existe indicadores ou “ajudas”, será base da tentativa/erro, e na arte da dedução que vão chegar à próxima secção, ao próximo objectivo.

Esta dupla realidade em split-screen é um mimo, para além da forma gráfica em que é apresentada, que é de enorme qualidade, também a sua interacção nunca nos deixa na frustração de não sabermos o que fazer ao olharmos para duas realidades distintas, mas sim a sensação que estamos a jogar em dois lugares completamente diferentes mas que a lógica os liga permanentemente.

Graficamente o jogo da Bloober Team está um mimo, a correr a 30FPS e a 4K, nota-se o esforço desta pequena equipa em dar ao jogador uma realidade detalhada, mesmo quando são duas ao mesmo tempo e em split-screen, e como jogo exigente que é, até por isso mesmo, não nos podemos queixar nesta capítulo. De facto só seria possível fazer este jogo na nova geração de consolas, sendo um exclusivo Xbox Series S|X, jogámos na consola mais potente da Microsoft e não sentimos nem quebra de frames, nem texturas com falhas, mas sim um detalhe enorme nas caracterizações das personagens e do ambiente envolvente, assim como de todos os objectos com os quais interagimos, e num jogo com várias horas de cut scenes, em nenhuma delas notámos falhas, a não ser, e temos que o dizer, em algumas sincronizações labiais que nos deixou mesmo com aquele sentimento de “ahhhh caraças, deviam ter visto isto”.

The Medium é um excelente trabalho da Bloober Team, talvez até, o seu melhor, e percebemos facilmente porque demorou tanto tempo a ser desenvolvido. A equipa polaca manteve-se fiel ao seu conceito, mesmo quando tecnicamente parecia difícil o executar, esperando por uma nova geração de consolas para o fazer como deve ser, e isso é de louvar. É uma ode ao terror psicológico, a filmes de culto como o Shining, e acredito que, até porque está disponível no Game Pass, se torne também um jogo de culto. É um jogo que arriscou a inovar, a dar mecânicas novas e até uma nova forma de jogar, sem deixar de prestar homenagem aos jogos que possibilitaram chegar a este resultado, e nesta altura do campeonato ser-se original não é fácil, e fazê-lo com mestria muito menos, e The Medium consegue-o fazer.