Developer: 11 bit studios
Plataforma: PlayStation 5, Xbox Series X|S
Data de Lançamento: 10 de maio de 2022

Foi há cerca de 8 anos que a 11 bit studios lançava This War of Mine, um jogo que nos traz a crua realidade da guerra de uma perspectiva diferente da maioria dos jogos. Existem diversos jogos cujo cenário explora a guerra, e temos os casos das franquias imensamente conhecidas de Call of Duty ou Battlefield que nos oferecem uma perspectiva em primeira pessoa da frente da guerra, mas também existem os casos dos jogos de estratégia que nos colocam a comandar todo um exército, como por exemplo a franquia Company of Heroes.

Em This War of Mine teremos uma perspectiva completamente diferente da guerra, vista do lado civil, e do lado de quem quer sobreviver à crua realidade de falta de recursos; de a qualquer momento podermos morrer por uma bala perdida, por uma bomba caída, ou por falta de alimentos. É um jogo de sobrevivência acima de tudo, em que por vezes para conseguirmos aguentar a fome, teremos de roubar a outros para escaparmos à nossa morte, e trazer a morte de outra pessoa. Uma realidade que infelizmente não está assim tão longe de nós, com a guerra da Ucrânia a entrar-nos pela televisão adentro todos os dias, e a vermos a triste realidade que muitas pessoas estão a passar.

Outro aspecto que não deixará ninguém indiferente são alguns assuntos que são tratados no jogo de uma maneira crua e dura, quer por bandidos que usam a guerra para matar outras pessoas, para as ferir e roubar, ou mesmo problemas de drogas e prostituição também não são deixados de lado. A 11 bit studios não se esqueceu de nada, e tentou trazer os horrores e as consequências da guerra até ao jogador, incluindo os problemas do foro mental.

É um jogo com 8 anos, e que agora foi relançado para a PlayStation 5 e Xbox Series X|S, cheio de melhoramentos, quer gráficos como de interface do utilizador, e que – infelizmente, pelos piores motivos – está mais actual do que nunca. O jogo chega-nos em duas novas versões, a This War of Mine: Final Cut que oferece o jogo original cheio de melhoramentos, mas também a versão mais completa This War of Mine: Complete Edition que, além do jogo base, também vem com This War of Mine: Stories, isto é, com os 3 DLC lançados até hoje para o jogo.

Se nos focarmos por agora em This War of Mine: Final Cut, temos um jogo passado em Pogoren, uma cidade fictícia que se encontra cercada numa guerra entre uma guerrilha e o exército do país, e onde os habitantes têm de sobreviver de uma maneira desesperada. É mais ou menos o que está a acontecer neste momento com na cidade de Mariupol na Ucrânia, ou por exemplo o que aconteceu na cidade de Sarajevo durante as guerras nos territórios da ex-Jugoslávia. Com as devidas distâncias, claro.

O jogo começa com um grupo de três sobreviventes dao conflito ao qual tentam sobreviver, presos num cerco, e numa cidade totalmente destruída. É exactamente a destruição, a primeira imagem que temos do jogo; um edifício completamente destruído, que serve de abrigo para estes três sujeitos que se ajudam mutuamente para conseguirem aguentar dia-após-dia. Essa sobrevivência depende das coisas mais simples, como tentar obter comida, recursos para construções básicas, água, e mais uma ou outra coisa. Além disso, o jogo mostra-nos também a crueldade da falta de descanso, da doença e até da escassez de medicamentos.

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Teremos uma perspectiva 2D em side-scrolling, onde podemos andar dentro dos edifícios, subir e descer escadas, escalar locais e explorar tudo e mais alguma coisa. O ambiente é bastante escuro, e apesar de não ser a preto e branco, todas as cores do jogo são suaves ou bastante escuras. Por isso, não esperem encontrar muita cor; é tudo em tons mais tristes, o que faz sentido, visto o ambiente que se quer passar para o jogador. No aspecto do comando do nosso grupo, apenas podemos comandar um elemento de cada vez, mas podemos alternar entre eles apenas carregando num botão. Todos eles têm uma biografia para os podemos conhecer melhor, de forma a ficarmos a saber o que tinham sido anteriormente, e até um pouco das suas personalidades e gostos.

Quanto aos elementos que não estamos a comandar, eles próprios executam acções sozinhos, embora nunca se envolvam em acções importantes para o desenrolar do jogo. Algo que ajuda muito o jogador a não ter tempos mortos é que é possível colocá-los a fazer tarefas e mudar para outro elemento, ficando esse elemento a completar essa tarefa de maneira autónoma. O jogo requer diversas tarefas como criar alguns electrodomésticos, tais como fogões para cozinhar, ou mesmo ferramentas como pás que nos ajudam a limpar lixo empilhado (e vão encontrar muito), assim como construir alguns móveis como camas ou cadeiras. E claro, vamos ter a possibilidade de construir armas para nos protegermos.

A exploração é um dos elementos essenciais do jogo, já que é desta maneira que arranjamos recursos, seja a comida, como todos os materiais necessários para a construção dos itens falados anteriormente. Além da exploração do abrigo onde nos encontramos, vamos também poder explorar outros edifícios da cidade, embora essa exploração só aconteça durante a noite. O jogo está dividido em duas partes, o dia e a noite, sendo que o dia é passado no nosso abrigo onde podemos realizar todas aquelas tarefas, ou mesmo descansar. Já a noite é a hora de explorar, e apesar de esta exploração não ser obrigatória – ou pelo menos não tem de ser feita todas as noites –, é, contudo, essencial para obtermos recursos preciosos.

Durante a noite, podemos escolher a qual dos elementos caberá a exploração, assim como aqueles que ficam a descansar, e até os que ficam a vigiar o abrigo – já que tal como nós, podem existir sobreviventes que atacam o nosso abrigo, e tentam roubar os nossos bens. O jogo tem isso de muito interessante, já que mostra a crueldade da luta pela sobrevivência dos civis nos vários aspectos, quer do nosso que queremos sobreviver, como dos outros que tudo farão para também eles conseguirem arranjar bens. Durante a nossa exploração vamos encontrar locais completamente desabitados, e aí a exploração é rápida e fácil, mas também podemos entrar em abrigos de outros sobreviventes, e nesse caso vocês podem simplesmente ir embora e esperar por outra noite para explorar outro local, ou arriscarem-se a roubá-los, tentado fazer tudo com o mínimo barulho possível.

Neste caso, será a vossa consciência que irá decidir, podem até decidir roubar um abrigo de outros sobreviventes, mas podem deparar-se com famílias que têm filhos a passar fome, ou com alguns elementos doentes, mas igualmente bandidos que roubam tudo e todos. É um jogo que retrata experiências que, felizmente, nunca tivemos de passar, mas que no jogo acontecem imensas vezes. E, certamente, quanto estiverem entre a vida e a morte, vão fazer escolhas que moralmente são reprováveis. Mais interessante ainda é que embora as escolhas sejam nossas, isso terá interferência no próprio elemento que estão a comandar, e de como este se sentirá depois das vossas escolhas.

É importante terem cuidado com tudo o que vão carregar, já que o espaço da vossa mochila é finito, e quando esta está cheia não vão conseguir carregar mais nada. Até nesse aspecto é necessário o jogador ter em conta exactamente o que precisa, quer para o melhoramento do abrigo, como para os alimentos necessários para o seu grupo não passar fome, além da incontornável necessidade de medicamentos. Ainda na parte de obter materiais, por vezes alguns vendedores podem aparecer à porta do vosso abrigo para fazer trocas, ou mesmo pessoas a pedir ajuda, e é duro quando alguém aparece a pedir medicamentos ou comida e nós também não temos para lhes dar, e percebemos que isso levará à morte de alguém.

Quanto à versão This War of Mine: Complete Edition onde podemos também jogar This War of Mine: Stories, aqui teremos três histórias, embora a base do jogo seja exactamente a do jogo original. No entanto, teremos estas três histórias mais desenvolvidas no aspecto do seu enredo, e com isso também colocando alguns entraves ao jogador no aspecto de algumas escolhas que poderá fazer. Temos então Father’s Promise, The Last Broadcast e Fading Embers.

Em Father’s Promise teremos a triste realidade de um pai e de uma filha, Adam e Amelia, que tentam sobreviver à guerra. Quando a guerra se iniciou, esta era uma família como tantas outras, que ficou completamente despedaçada pela brutalidade da guerra. Primeiro, a mãe de Amelia morreu de uma doença, já que não conseguiram obter medicamentos para a curar devido ao conflito. Por seu lado, com a morte da mãe, Amelia deixou de falar e ficou doente, tendo Adam de conseguir arranjar alimentos, defender a filha e ainda obter medicamentos para esta não piorar a sua situação. Foi talvez a história que mexeu mais comigo, talvez por ser pai, mas a verdade é que é duro por certas situações que aconteceram nesta história.

Para piorar a situação, teremos o irmão de Adam que quer usar Amelia para conseguir usar os corredores humanitários, e assim fugir da guerra, mesmo sabendo que a menina não irá aguentar andar de um lado para o outro na sua condição física actual. Como não é difícil adivinhar, devido ao cansaço de Adam, um dia iremos desmaiar, e a menina é raptada, sendo a partir daí que Adam terá uma luta inigualável pela sobrevivência, e uma incansável procura pela sua querida filha.

The Last Broadcast foca-se no lado mais pessoal de um antigo locutor de rádio, que embora em plena guerra. continua a fazer transmissões sobre o confronto, tentando ajudar a população a estar o mais protegida possível, e dando informações úteis. Aqui iremos comandar Malik e a sua esposa Esma, que é a verdadeira personagem da história, já que Malik necessita de muleta para andar, e será ela que irá fazer toda a exploração para encontrar os itens necessários para a sobrevivência do casal.

Além do lado da sobrevivência, esta história oferece ao jogador a dura realidade da verdade ou mentira, e das suas consequências. Isto porque relatar certos factos poderá meter esta família em maus lençóis, mas não os relatar fará com que o exército continue a exercer crimes de guerra, e será o jogador que terá de escolher o que deverá ser relatado. É uma luta estranha, já que a verdade deve ser contada, mas por outro lado, a vida também está em jogo.

Por último, temos Fading Embers, que se debruça sobre um tema que em tempos de guerra, e outras coisas extremas, fica sempre esquecido, ou para segundo plano. Se estão a pensar em arte e cultura, então acertaram. Esta história traz-nos a história de Anja, Ruben, Zoran e Milena, todos eles ligados de alguma forma à cultura ou à arte.

Anja é neta de um artista, e Zoran e Milena estão ligados à arte devido ao seu trabalho. Zoran é o encarregado do museu de Pogoren, já Milena também ela responsável por um museu, procura incansavelmente preservar toda a arte e cultura. Por fim, Ruben foi o sobrevivente de um ataque a um templo religioso e que conseguiu salvar alguns objectos daquele local.

O início da aventura será apenas com Anja e Ruben, e Anja será a protagonista, com o avançar da aventura aparecerá Milena, e depois Zoran. Dos quatro, Milena é a única que não podemos comandar, e também a mais radical no aspecto de preservar arte e cultura. Para ela, todos estes objectos estão acima da vida de qualquer pessoa, e além de toda a parte de sobrevivência da guerra, teremos aqui também diversas disputas e reacções que para uns podem aparecer normais, para outros totalmente anormais, mas que inevitavelmente fazem parte destas circunstâncias de guerra.

Devo dizer que a jogabilidade de This War of Mine está fantástica. A versão que testei foi a da Xbox Series X, e tudo corre como esperado. Durante a acção com os personagens usamos o analógico esquerdo para os movimentar, podendo ainda dar zoom in/out na câmara, para termos a perspectiva que queremos do cenário. E na exploração, ter uma perspectiva mais aampla ajuda para conseguirmos ter noção do que se passa à volta. Já no nosso abrigo, ter um zoom maior ajuda a ver todos os detalhes. E sendo um jogo em que é muito importante a interacção com objectivos e certos locais do cenário, a interface de utilizador está óptima, sendo bastante fácil navegar com o D-Pad nesses locais.

Já que falamos de detalhes vamos então ao grafismo, que está incrível. Agora com uma resolução a 4K e 60fps que deixa o jogo super fluído e cheio de detalhes. Os tons do jogo são incríveis para o tipo de jogo apresentado, e cria-nos sempre aquele ambiente hostil em que parece que aquele será sempre o nosso último dia naquele local.

This War of Mine: Final Cut chega na hora certa com a sua versão next-gen. Se nunca jogaram o original, então aconselho vivamente que lhe deêm uma oportunidade. E se gostam de jogos de sobrevivência, então este é de caras um excelente jogo para colocarem à prova as vossas habilidades. É um jogo que infelizmente está mais actual do que nunca devido ao conflito na Ucrânia, mas que também poderá ajudar a abrir os olhos de quem não consegue perceber a dura realidade da guerra para os civis que apenas tentam sobreviver.

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