Developer: Factor 5
Plataforma: PlayStation 4, Nintendo Switch
Data de Lançamento: 29 Janeiro 2021

Para perceber Turrican é preciso fazer uma viagem de 30 anos e regressar até 1990 quando a franquia começou a dar os primeiros passos nos computadores e consolas da altura. O jogo foi lançado na Commodore Amiga, mas teve versões para o ZX Spectrum e Atari. A franquia evoluiu e foi chegando com novos jogos a novas plataformas, caso da Mega Drive, Super Nintendo e também, ainda que com menos recursos, ao Game Boy

Turrican Flashback é um conjunto total dessas experiências que muitos jogadores viveram na primeira metade dos anos 90. Aqui não há remasterizações nem remakes, os jogos que a coleção nos oferece são iguais aos daquela época, mas agora com novos recursos de jogabilidade que já vou falar sobre eles. A sensação que me dá é que o objetivo foi transportar os jogadores, que agora são 30 anos mais velhos, para aquelas memórias de infância e de mostrar aos novos jogadores, como é o meu caso, uma vez que tinha um ano quando Turrican foi lançado, que na altura já se faziam bons jogos que ainda hoje, influenciam novas aventuras.

Há quatro jogos da franquia aqui neste Turrican Flashback. São eles, Turrican I, Turrican II: The Final Fight, Mega Turrican e Super Turrican. Jogos em que se nota alguma evolução de uns para os outros, mas que mantém o ADN do primeiro impacto que se tem com o jogo. 

Mas afinal quem é Turrican? É basicamente um guerreiro que foi criado geneticamente para recuperar o planeta Alterra, uma colónia perdida que foi feita pelo Homem, numa galáxia próxima, mas que foi abandonada. De uma forma geral, existem cinco mundos em Alterra, cada um deles separados por uma poderosa rede geracional de um ecossistema conhecido como Multiple Organism Unit Link, ou MORGUL. Sistema esse que foi afetado depois de um grande terramoto que levou os colonos sobreviventes a falar de uma tecnologia que enlouqueceu. Depois de várias tentativas fracassadas para tornar o planeta habitável, a esperança está finalmente na criação genética que dá pelo nome de Turrican. O personagem é uma espécie de robot equipado para disparar com vários tipos de armas/poderes que vai adquirindo ao longo da campanha e que além de saltar e baixar-se pouco mais faz. As limitações da altura continuam no personagem, mas há elementos na jogabilidade que facilitam agora jogar Turrican.

Os controlos agora são mais responsivos e os ataques fluem como antigamente não era possível, mas mesmo assim não é nada fácil no início devido a algumas limitações de movimento do personagem. Outra coisa que na altura não se falava muito era em “gravar o jogo” para depois desligar e voltar lá mais tarde. Isso era quase uma visão utópica do que viria a acontecer uns anos mais tarde. Apesar de haver alguns jogos com esse recurso, através de memória interna ou mesmo através de códigos entre níveis, eram raros os que usavam esse recurso. Agora tudo muda, não só é possível gravar o jogo quando bem nos apetece para mais tarde voltar lá, como há ainda um novo modo que é a grande novidade deste Turrican Flashback, o modo Rewind.

Esta nova maneira de jogar permite-nos recuar no tempo se fizermos uma escolha errada ou até mesmo sermos atingidos por algum inimigo. Se no modo Trophy Challenge, as coisas se mantém como antigamente, onde quando perdermos as vidas e os Continues que temos ao nosso dispôr, levamos com um valente Game Over para começar tudo de novo, neste modo Rewind, apesar do processo ser idêntico em Continues e Game Over, podemos evitar a morte sempre que quisermos andar com o tempo para trás. Isto torna as coisas um pouco mais fáceis para quem não tiver a paciência, ou a audácia de outros tempos e queira apenas terminar Turrican. No entanto há algo que não se pode recuar, o tempo que cada nível tem para ser terminado e quando ele acaba, lá se vai uma vida, o que significa que mesmo com esta nova maneira de jogar, há um certo desafio em tudo o que Turrican Flashback oferece.

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Os níveis de Turrican não são lineares da esquerda para a direita e muitas vezes fazem-nos voltar para trás com caminhos escondidos e itens que nos aumentam o nível ou nos dão uma nova vida. Há vários inimigos ao longo do nível, sejam eles animais em formas bastante peculiares ou monstros que habitam naquele ecossistema. Também há vento que nos “empurra” ou dificulta os saltos que parecem fáceis e ainda há trovoada que nos pode atingir em certas zonas. Há uma série de desafios notáveis para a altura em que o jogo foi feito. No final de cada nível há os tradicionais bosses deste tipo de jogos, onde a imagem fica estática e não nos deixa sair daqueles limites. Cada um tem os seus poderes e a nós cabe-nos acabar com eles sem perder muitas vezes para poder seguir para outros níveis. Sinceramente estava à espera de grandes figuras icónicas nos bosses, mas aquelas formas estranhas com quem lutamos, não são lá muito carismáticas.

O jogo permite também modificar o nosso display e alterar a maneira como o estamos a ver na nossa TV e apesar do 4:3 estar lá sempre vincado, podemos acrescentar sombras ou pixeis mais perfeitos, de forma a vermos o jogo da melhor maneira possível e até recordar a maneira como alguns jogadores o viam nos seus computadores antigos. Apesar de manter a aparência com os gráficos datados, olho para Turrican Flashback como um bom jogo que até nos vicia e com uma banda sonora de se lhe tirar o chapéu.

Chris Huelsbeck foi o grande responsável pelos sons do jogo ao longo da franquia e posso dizer-vos que é uma delícia. São poucos os jogos que têm uma banda sonora tão boa como esta. Normalmente fico aborrecido com alguns loops que oiço noutros jogos deste género, mas Turrican tem algo de especial. Tem ritmo, tem diversidade e mesmo com as limitações que se impunham consegue fazer obras primas que, sinceramente desconhecia. Sendo eu uma pessoa também ligada à rádio e à música achei um dos pontos mais fortes do jogo. Composições como “The Final Fight”, uma música épica de Turrican 2, não se ouve todos os dias por aí.

O grande mal de Turrican Flashback é mesmo não ter evoluído para um remaster ou remake, porque para recordar jogos de há 30 anos já existem outras formas, quer seja em emuladores ou em jogos do género Sega Mega Drive Collection, onde incluem não só uma franquia, mas sim vários outros títulos que nos deixam saudade, mas a escolha da Factor 5 foi esta, a de manter vivo o espírito indie de outros tempos. A ideia não é descabida, mas deixa-me algumas reticências. É que agora se uma enorme quantidade de empresas se lembrar e lançar a sua coleção tal e qual como estava há 20/30 anos, para quê falar em nova geração?

É fácil perceber que Turrican Flashback se destina aos jogadores nostálgicos que, de alguma maneira ou de outra, estão ligados à franquia. É capaz de cativar novos jogadores com interesse em saber como eram os jogos no início dos anos 90. Eu gostei da experiência apesar de nunca ter jogado os jogos antigos, mas os gráficos datados não são visualmente apelativos, embora também não sejam tão maus quanto isso se pensar que foram feitos para um jogo com 30 anos. Mas o problema é mesmo esse e penso que devia ter evoluído nesse aspeto. A banda sonora, essa, é uma obra prima que nos faz regressar ao passado e perceber que havia boas coisas a serem feitas.