Developer: Dontnod Entertainment
Plataforma: PlayStation 4, Xbox One e PC
Data de Lançamento: 01 de Dezembro de 2020

A Dontnod Entertainment já nos habituou com alguns bons jogos. A série Life Is Strange é o maior triunfo da empresa francesa que continua bastante ativa no que toca a jogos baseados na narrativa e com escolhas por parte dos jogadores. Depois de lançar este verão Tell Me Why, chega agora com Twin Mirror, um thriller verdadeiramente misterioso que coloca o personagem principal em dilemas com a própria consciência.

A história é cheia de mistério e segredos para desvendar. Para enquadrar melhor, estamos no papel de Sam Higgs, de 33 anos, que está de volta a Basswood dois anos depois de ter abandonado a cidade antes de lançar um artigo no jornal que gerou alguma polémica. O regresso não é pelos melhores motivos. Higgs recebeu a notícia que o seu melhor amigo que vivia nesta cidade faleceu e voltou, para ir ao seu funeral. Acaba por não comparecer na cerimónia fúnebre, mas foi depois ao velório, onde encontrou velhos amigos e outros, que não parecem assim tão amigos. Quando lá chega, Higgs é abordado pela filha novinha do seu colega que faleceu e pede-lhe para investigar a morte do pai. No Bar onde se realiza o velório acaba por beber uns copos e é aí que a história começa a ganhar dimensão.

Na manhã seguinte, acordamos no hotel e encontramos a nossa camisa com sangue sem saber muito bem aquilo que se passou. Um momento que me fez viajar até Fahrenheit, jogo da Quantic Dream, também focado na narrativa, lançado em 2005 e que nos colocava numa situação parecida onde havia um corpo ensanguentado no chão de uma casa de banho e não sabíamos se éramos nós o assassino. O caminho será perceber o que se passou na noite de copos e a partir daí continuar a investigar a morte, responsável pelo nosso regresso a Basswood.

Twin Mirror coloca várias questões mentais, mas a mais incidente é na nossa consciência que surge personificada com uma personagem que só Sam vê e fala com ele de forma natural, sem que outros à sua volta percebam, pelo menos até certa parte da história. Essa consciência guia-nos pelo que temos de fazer, ou pelo menos aconselha-nos, mas a palavra final é e será sempre nossa. O nosso Duplo pode começar a criar alguns problemas com o avançar dos acontecimentos e vai levar-nos a viagens pela nossa memória que o jogo retrata de uma maneira bastante peculiar. Isto tem o seu quê de sobrenatural, mas era a única solução para fazer algo do género. Essas viagens são engraçadas e são jogadas em alguns mini jogos bastante diferentes daquilo a que os jogos nos têm habituado. Acredito até que seja demasiado fora para alguns, mas até gostei do resultado.

Ao contrário de jogos anteriores da Dontnod, Twin Mirror não sai por episódios, mas sim logo completo sem ser preciso esperar uma semana, ou um mês para jogar um novo capítulo. O jogo leva cerca de 6 a 7 horas para ser completado, mas há sempre a hipótese de repetir ou pelo menos de jogar diversos capítulos e fazer escolhas diferentes daquelas que fizemos na primeira vez. Isto altera em parte o rumo das personagens dentro da história que foi contada, embora o efeito final não seja assim tão diferente. Sinceramente adorei jogar um jogo com este tempo, numa altura em que tudo parece virado para jogos enormes que nunca mais acabam. Nada contra, mas sabe bem ver que estes jogos mais curtos também têm o seu espaço.

Com este novo modelo de jogo completo, a minha preocupação era o ritmo dos acontecimentos. Não é que estes jogos tenham grande ação, mas há sempre aquelas partes em que a adrenalina é mais elevada e outros momentos, onde a ação é mais parada. Senti que desta vez há um equilíbrio maior do que em Tell Me Why por exemplo. Talvez desse para separar Twin Mirror em três capítulos, e todos com as mesmas fases de envolvência, isto é, primeiro somos introduzidos ao contexto, depois procuramos por provas ou algo do género e por fim resolvemos a situação, ou neste caso simulamos aquilo que se passou baseado na nossa recolha de provas ou depoimentos das pessoas de Basswood com quem falámos. A parte terrível destas situações é quando falta uma simples prova e não a encontramos por este ou aquele motivo e aí, as coisas tornam-se uma seca. Sem exageros, numa das partes de pesquisar provas cheguei a estar quase 45 minutos sem encontrar nada e isso pode levar ao desespero como aconteceu comigo nesse caso particular.

Em sentido inverso, as partes que gostei mais foram as de simulação de acontecimento. Para dar um exemplo, quando vamos até ao local de acidente que vitimou o nosso amigo, é necessário fazer uma reconstituição desse desastre. Através de algumas pistas base, podemos optar por esta ou aquela situação e ver o resultado disso para perceber se foi mesmo assim. Neste caso em concreto a primeira conclusão teria de ser se o motorista vinha embriagado, se tinha tomado qualquer coisa, se estava sóbrio, ou se o carro ardeu primeiro e depois descarrilou, ou vice versa. O jogo não nos deixa seguir em frente enquanto não encontrarmos a verdade dos factos, sempre com a ajuda do nosso Duplo. 

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Visualmente o jogo mantém-se fiel às origens Dontnod e mantém o bom estilo gráfico, mas há algo que peca em Twin Mirror nas expressões dos intervenientes. O chamado acting fica aquém das expectativas para um jogo desta envergadura que se pretende mais emocional do que uma simples cara standard. Não é que os personagens não tenham alguns comportamentos corporais diferentes entre eles, mas a realidade é que quando alguém está a falar connosco, parece que não transmite verdade ou autenticidade às palavras nos movimentos da boca. Talvez a única exceção no meio de tantos personagens seja o nosso Duplo, a tal consciência que aparece em forma de amigo imaginário personificado num corpo que, esse sim, nos vai transmitindo algumas emoções, o que não deixa de ser curioso. A banda sonora que acompanha a narrativa está bem encaixada e transmite aquela angústia e melancolia em determinados momentos chave.

A nível de jogabilidade continua simples e fácil de jogar como os títulos anteriores e mesmo que sejam novos neste tipo de jogos, não vão ter qualquer tipo de entrave para se iniciarem neste mundo de jogos com narrativas e opções de escolha. Há um vasto leque de personagens, mas há, claro, um núcleo principal e outro mais secundário com quem nos cruzamos uma ou duas vezes apenas. Os nomes ainda são bastantes, mas o menu ajuda a perceber quem são os personagens e o contexto em que eles aparecem. Isto vai facilitar a nossa compreensão pela cidade estranha de Basswood e o porquê de algumas pessoas não saírem daquela zona. O menu bem dividido também nos dá informação do que falta fazer em determinada cena para que não estejamos perdidos em certos momentos.

Twin Mirror é mais uma boa história da Dontnod que nos agarra até final para perceber quem realmente é o mau da fita. Um enredo com algumas reviravoltas surpreendentes fazem deste jogo um bom thriller repleto de mistério. Aplaudo a decisão de lançar logo o jogo todo completo e não nos fazer esperar pelos capítulos futuros. Quem gosta deste tipo de narrativas tem aqui mais um jogo bastante interessante. Não tem a qualidade de um Life Is Strange, mas talvez o legado seja demasiado pesado para comparar.