Developer: Naughty Dog
Plataforma: PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 28 de Janeiro de 2022

UNCHARTED é talvez um dos bens mais valiosos da PlayStation, o seu factor multi geracional das consolas da Sony, uma personagem icónica da marca, um estúdio também ele icónico, a Naughty Dog e agora até a sua transposição para o cinema, demonstra como a personagem de Nathan Drake é um símbolo da PS.

Até por isso, é quase sempre inevitável que UNCHARTED venha à baila na ponte entre gerações de consolas da Sony, tal como aconteceu com o lançamento mais recente da PlayStation 5 onde, através da Plus Collection, veio UNCHARTED 4: O Fim de um Ladrão.

Um pouco mais de um ano depois disso surge agora UNCHARTED: Coleção Legado dos Ladrões, que traz o tal jogo de 2016 que referimos antes e ainda UNCHARTED: O Legado Perdido, remasterizados e aproveitando todo o potencial da nova consola da Sony, seja através de uma melhor resolução, capacidade de atingir novos patamares de frame rate, para além de aproveitar do feedback e gatilhos hápticos do DualSense e uma nova proposta aúdio proveniente da possibilidade do Aúdio 3D.

Visto que já analisámos o jogo há pouco mais de meia década, vamos primeiro aos pormenores técnicos e práticos que estas remasterizações oferecem aos jogadores da PlayStation 5.

UNCHARTED: Colecção Legado dos Ladrões explora todas as potencialidades da PlayStation 5, desde logo podemos ver como a remasterização de Uncharted O Fim de um Ladrão e O Legado Perdido consegue oferecer uma qualidade superior em termos de resolução e frame rate.

No Modo Fidelidade vamos ter acesso a uma resolução 4K nativa a 30 frames por segundo, no Modo Performance o frame rate chega aos 60 frames por segundo com uma resolução 4K feita através de upscalling da resolução base a 1440p para aqueles que tiverem uma televisão 4K, para aqueles que têm um Full HD vão ter uma resolução 1080p supersamplada da resolução 1440p base com melhoramentos em termos de anti-aliasing, por fim o Modo Performance+, vai permitir aqueles que tiverem uma televisão com um refresh rate de 120hz reproduzir os 120 frames por segundo numa resolução de 1080p.

Outro dos elementos melhorados nesta versão é o aúdio, com o 3D Aúdio da PS5 vamos poder ouvir todo o mundo destes dois jogos de uma maneira diferente, basta ouvirmos como o som da água é reproduzido quando Nate nada e o efeito espacial de todos os seus movimentos dentro e fora da água, tal como quando Chloe se lança por entre uma zona rochosa com quedas de água à sua volta e percebemos claramente tridimensionalmente de onde o som vem e para onde vai, dando a profundidade e imersão ao jogo.

O mesmo acontece nas zonas mais perigosas e cheias de confrontos, onde facilmente percebemos de onde estão a disparar contra nós, para além da diferença do tipo de armas que utilizamos. Isso e até a posição dos inimigos através de alguns comentários que vão fazendo.

Por fim destaque ainda para a capacidade do DualSense em dar uma maior imersão com cada soco que damos, com a tensão que puxar cordas ou balançarmo-nos nelas nos dá nos gatilhos hápticos, já para não falar da utilização das armas em si, e ainda a condução de veículos, onde sentimos efectivamente o peso dos veículos, assim como os trambolhões que damos com eles ou quando os atolamos na lama.

É de facto uma experiência superior na PlayStation 5 que com a velocidade de processamento e do seu disco SSD, não temos quaisquer tempos de loadings entre cenas e capítulos.

Posto isto, recordemos um pouco da premissa de UNCHARTED: O Fim de um Ladrão, para aqueles que, por ventura nunca tiveram oportunidade de o jogar, ou já não se lembram.

Quando Nathan Drake estava numa posição de viver uma vida normal, junto da sua Elena, depois de tantas aventuras e de se ter reformado da vida de caçador de tesouros, eis que surge o seu irmão Sam, que se vê envolvido numa situação de vida ou de morte. Para o salvar, terão que juntos encontrar o tesouro perdido do pirata Henry Avery, de forma a poder pagar a liberdade de Sam. Só que a trama não é assim tão simples como isso e haverá muitas voltas e reviravoltas ao longo da estória. No entanto não estarão sozinhos na corrida a este tesouro, Raith, um antigo “amigo” de longa data, multimilionário e coleccionador, está à procura desse mesmo tesouro e conta com uma verdadeira força especial para o ajudar, a Shoreline.

Há muitos “twists and turns” durante o jogo, e como é habitual, parece mesmo que estamos a jogar um filme de acção, com momentos mais exploratórios, de resolver puzzles, e de repente estamos metidos numa alhada a fugir a alta velocidade em cima de uma mota. É essa diversidade e dinamismo que a Naughty Dog consegue sempre trazer com peso e medida para todos os seus jogos.

As mecânicas do jogo são aquelas que os próprios níveis exigem. Existe uma variedade de níveis desde as tradicionais escaladas por tudo o que é sítio, os que envolvem puzzles, quer sejam os para atingir uma nova zona, quer seja os matemáticos os menomónicos, ainda os que envolvem livrarmo-nos de inimigos e talvez as duas grandes novidades: o de exploração com o nosso jipe em zonas quase de open world e as perseguições ou fugas alucinantes. Entre passado e presente não nos falta diversidade, o que faz com que nunca nos sintamos entediados.

Apesar das mecânicas serem já bastante usuais na saga UNCHARTED, a sua fluidez e pequenas novidades são notáveis. Os movimentos de Drake não são “quadrados”, adaptam-se à circunstância, seja a colocar a mão numa parede porque está a ir contra ela, seja a esgueirar-se perante uma multidão, parece que nunca estamos a jogar apenas um jogo, mas a mover a nossa personagem de um filme, devido à realidade dos seus movimentos. É claro que a força e astúcia de Drake a escalar montanhas e a fazer saltos e a cair sem partir umas costelas devolve-nos a realidade de que estamos num jogo, mas faz parte.

Uma das novidades que surgiu neste jogo foi o facto de Nate desta vez estar munido de um “grapling hook“, utensílio que vai usar para balançar entre plataformas ou para subir outras, ou mesmo para se lançar contra os inimigos. Outra é o facto de podermos marcar os nossos inimigos para controlarmos de melhor forma os movimentos dos nossos inimigos e até planear os nossos ataques furtivos. Neste aspecto podemos andar pela vegetação para matá-los sem darem por isso, não tendo que entrar em confronto directo com uma “porrada” deles.

Outra das novidades que surgiu neste jogo foi a utilização do guincho do nosso jipe para derrubar obstáculos ou criar novas plataformas, assim como para conseguirmos puxar o nosso jipe para zonas inacessíveis, atando-o a uma árvore para ganhar tracção e força. Até mesmo em zonas que envolvem a utilização deste guincho, podemos assistir aos nossos camaradas a conduzir o nosso jipe para nos ajudar em determinadas situações, tal como referia em mais acima, é apenas mais uma prova da boa IA que vamos encontrar no jogo.

Tal como acontecia em anteriores jogos, vamos ter várias armas à disposição, sendo que vamos apanhando as que os inimigos vão deixando ou descobrindo tantas outras, cada uma delas, dando uma forma diferente de enfrentar as nossas dificuldades. Todas elas com efeitos diferentes, mas todas elas fáceis de manejar. De referir que poderão escolher no menu do jogo se querem que exista um sistema de auto-aiming ou se preferem fazer as coisas por vocês mesmos.

O Modo Estória, termina-se facilmente por entre as 15 a 17 horas, sendo que terão ainda a oportunidade de jogar várias vezes para tentarem as dificuldades superiores, ou para encontrar os vários tesouros espalhados por vários níveis.

Nota ainda para a banda sonora do jogo, que mais uma vez nos preenche e preenche a narrativa nos seus variados momentos, nota ainda para o trabalho de Nolan North e Troy Baker na sua versão original, e para a versão dobrada em português, por ser mais uma vez, especialmente nos jogos da Naughty Dog, dos melhores trabalhos que vimos na PlayStation, com destaque para Sérgio Calvinho (Nathan Drake), João Craveiro (Victor Sullivan) e Sofia Duarte Silva (Elena).

Nesta coleção temos ainda O Legado Perdido que foi editado em formato standalone cerca de um ano depois de O Fim do Ladrão. Aqui sem Nathan Drake como personagem principal, mas uma velha conhecida da franquia, Chloe Frazer, que conhecemos de Uncharted 2: Among The Thieves onde desenrolou um dos papeis principais, numa espécie de romance Mr Smith com Nathan Drake que preferiu ficar com a doce Elena em vez da rebelde e aventureira Chloe.

Talvez até por isso, por ser uma jovem tão carismática nesse mesmo jogo, e por de alguma forma ser a “underdog” num triângulo amoroso é fácil de nos aproximarmos desta personagem. Para facilitar a nossa relação com Chloe, vamos viajar até à sua terra natal, a Indía, na busca do Golden Tusk (Presa Dourada) de Ganesh, um deus Indiano, que leva-nos para a região de Western Ghats, nas ruínas do chamado Império Hoysala, conquistado e saqueado durante as invasões Persas.

O que nos deslumbra é a qualidade do mundo que nos é apresentado, seja pela representação facial das nossas personagens, seja pela grandiosidade das vastas paisagens pelas quais desbravamos caminho. A representação da realidade, seja a zona de guerra, o mercado indiano, ou as gigantes florestas, tudo é magnânime e supreende sempre. A verdade é que enquanto The Order tentou ser um filme jogável, UNCHARTED conseguiu sempre ser o filme de acção jogável que todos queremos, a velocidade a que acontecem coisas, a fórmula fácil com que jogamos várias das suas cenas sempre sem perder fluidez ou jogabilidade, continua a ser um encanto.

Jogabilidade essa que não difere do último Uncharted, a não ser no facto de termos uma mulher como protagonista e portanto um pouco mais frágil, com movimentos de luta um pouco diferentes e sem a capacidade física para executar tudo o que Nathan Drake fazia. Um dos exemplos é que não vamos conseguir esburacar veículos à lei da bala, vamos ter de encontrar explosivos para o fazer, seja a roubar de inimigos ou a arrombar caixas. Outro exemplo é o facto da nossa personagem poder sacar de um gancho do cabelo para arrombar as fechaduras, aqui temos de rodar o analógico direito até uma certa posição em que vibre para acertar e conseguir abrir as caixas.

Apesar de curto, deverá demorar entre as 7 e as 10 horas para concluírem UNCHARTED: O Legado Perdido, o que juntamente com as horas de UNCHARTED: O Fim de um Ladrão vai-vos dar mais do que horas suficientes.

UNCHARTED: Coleção Legado dos Ladrões embarca assim numa necessidade que cada vez é mais comum, a de trazer os ícones de volta à ribalta explorando as capacidades tecnológicas dos dias de hoje e nomeadamente da PS5 e do seu DualSense. Nota-se que é uma remasterização e que houve um cuidado para sentirmos o salto geracional, quer nos gráficos apresentados, quer na integração das capacidades do DualSense e do 3D Aúdio para uma maior imersão.

A única limitação que a coleção traz prende-se com o tempo que o jogo já tem, isto é, 6 e 5 anos, respectivamente, que, hoje em dia demonstram algumas redundâncias nas mecânicas e nas soluções apresentadas por terem sido criados para a antiga geração. A outra é o facto da componente online multiplayers não estar inserida em nenhum dos dois, é uma pena.

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Se os dois jogos em separado já tinham demonstrado e até esmifrado as capacidades da PS4 e da PS4 Pro, aqui podemos ver como UNCHARTED poderá caminhar na PS5 para um futuro risonho, visto ser uma das franquias mais acarinhadas pelos fãs da PlayStation, e as suas personagens ganharem agora uma vida até nos cinemas.

Não será inocente o timing de lançamento desta colecção com a chegada do filme ao cinema, é uma estratégia bem concertada para dar um maior fôlego à franquia e fazer os fãs desesperarem por um novo jogo feito de raíz para a nova consola da Sony. É, de facto, uma remasterização que vale a pena ter na PS5, diria que obrigatória mesmo, num ano em que dois outros bastiões do género, com as devidas diferenças e semelhanças chegam à PS5, isto é, Horizon Forbidden West e God of War Ragnarok.