Developer: Big Bad Wolf Studios / Nacon
Plataforma: PlayStation 5, PlayStation 4, Xbox Series X|S, Xbox One, PC
Data de Lançamento: 19 de maio de 2022

Nem sempre é fácil transpor um jogo de tabuleiro e todo o seu universo para uma experiência de videojogo, mas é verdade que existe sempre um enorme potencial inerente, tanto pelo lore, como por transformar em algo palpável aquilo que apenas a imaginação pode produzir.

Foi essa a tentativa do estúdio francês Big Bad Wolf pegando no jogo de tabuleiro e de Role Playing Game criado por Mark Rein Hagen no início da década de 90, que deu origem à série World of Darkness e a vários jogos e adaptações.

Talvez por existir essa ligação umbilical, se não estiverem familiarizados com os jogos de tabuleiro, vão andar às aranhas quando pegarem neste Vampire The Masquerade – Swansong. O jogo apresenta-se com um lore já enraizado e com a dedução que serão os fãs da série a pegar neste jogo e que, por isso, percebem facilmente o mundo em que se inserem estes vampiros e como se organizam.

Para perceberem melhor este universo, estamos a falar de seres sobrenaturais que deambulam por entre a Humanidade, saciando a sua sede de sangue e controlando a sociedade Humana pelo caminho. Para controlar a sociedade, os vampiros precisam de se organizar, também eles, por clãs para governar a seu belo prazer em nome de um código que todos possam seguir. Como em qualquer sociedade ou clã, onde existe poder, existe alguém que o quer tirar, e por isso acontecem várias guerras internas ou até conspirações.

A história vai assim girar em torno de três personagens jogáveis durante uma investigação especial. Galeb um protector do clã Camarilla, Emem uma agente do clã Toreador e a vidente pessoal da liderança, Leysha do clã Malkavian. Os três são chamados à sede de Boston por “Prince”, do clã Camarilla, Hazel Iversen, por causa de um Alerta Vermelho devido a um tiroteio que aconteceu numa das zonas de Boston e onde a existência de vampiros poderá ter sido desmacarada no processo. O objectivo das três personagens que controlamos será tentar perceber o que aconteceu, como aconteceu e qual o propósito deste acto.

No início, temos uma espécie de tutorial onde vamos saltando entre as 3 personagens para aprendermos as características de cada uma. Os seus atributos físicos, sociais e mentais, que consequentemente influenciam Perícias como Retórica, Intimidação, Persuasão e Psicologia (Diálogo); Segurança e Tecnologia (Exploração); Dedução e Educação (Conhecimento). Mais uma vez, para quem não conhece o jogo de tabuleiro, todos estes elementos podem ser um pouco complicados, visto que as Disciplinas são únicas para cada personagem jogável e representam uma parte dos seus poderes vampíricos.

Utilizar os poderes das personagens é algo que têm que pensar muito bem. Temos dois medidores, um roxo para a fome que a nossa personagem tem de sangue, e outro para a sua força de espírito. Começamos sempre com uma barra completa de força de espírito, contudo, ao usarmos uma habilidade vampírica a fome da nossa personagem aumenta e não podemos deixar que, de repente, a fome seja tanta que comecemos a varrer tudo o que aparece à frente. Para colmatar a fome, podemos utilizar um humano como uma “bolsa”. Arrastando-o para um sítio seguro, longe dos olhares indiscretos e bebermos um pouco do seu sangue sem o matar. Caso o matem porque não conseguiram controlar o impulso nos comandos, é possível que, mais tarde ou mais cedo, alguém encontre o corpo e suspeite da nossa personagem.

Como já devem ter percebido o jogo vive muito da investigação, do solucionar quebra-cabeças e dos confrontos, não físicos, por assim dizer, mas a esgrimir palavras. Aliar a capacidade de dedução nos enigmas, com a capacidade de usar estratagemas e o conhecimento adquirido para ganhar os confrontos verbais mais complicados, será de uma enorme satisfação, mas nem sempre será tão fácil gerir as nossas capacidades com os pontos da força de espírito para conseguir dar a melhor resposta. É tudo uma questão de gestão e de não ir com muita sede ao pote, neste caso, ao humano.

Complicação desnecessária é aquilo que encontramos em Vampire The Masquerade – Swansong. Para além da dificuldade enorme de acompanharmos todo o universo, a personalidade das personagens e a sua ligação aos clãs, e toda a história que vem detrás, existindo apenas um codex com algumas indicações e umas linhas de texto, isto quando existe anos de história para trás e que só quem acompanha os jogos de tabuleiro vai entender; existe ainda uma outra complicação desnecessária em relação às quatro árvores de habilidades. Temos assim as habilidades da personagem, disciplinas, talentos e características. Uma divisão que se podia singir a duas, onde assim acabamos por escolher os upgrades de uma forma quase aleatória tal é a quantidade de possibilidades. Como não são muito claras e são muitas, depois caímos no erro de termos falas e acções bloqueadas porque falta um perk, isto aliado aos boosts e consumíveis que ainda complicam mais a questão.

A jogabilidade em si apresenta várias referências dos jogos de investigação. Ouvir conversas, apanhar items, desbloquear outros, seguir um rasto, encontrar códigos secretos, fazer deduções perante a informação recolhida e muitos, mas muitos diálogos. O que dá algum alento são as ramificações com que somos agraciados perante as acções que tomamos, isso dá um sentido próprio e único em termos da jogabilidade, dando até a hipótese de voltarmos ao jogo mais do que uma vez.

E talvez isso acontecesse de uma forma mais “real” se tecnicamente o jogo não estivesse desequilibrado. É que embora tenha resoluções até 4K, e jogámos num PC com as definições no máximo, a verdade é que os efeitos visuais vão do muito bom ao muito mau. Temos as sombras, os filtros, os efeitos de luz, da roupa ou da folhagem muito bem definidos e depois, temos as animações das personagens muito pobres, quase a lembrar jogos do início deste século, com falhas na sincronização labial, com texturas pobres e datadas. O desequilíbrio é atroz e vai mesmo do deslumbrante ao robótico.

Vampire The Masquerade – Swansong foi feito para os fãs dos jogos de tabuleiro e do universo de World of Darkness, mas esqueceu-se do resto dos jogadores e de conseguir fazer um jogo equilibrado em todos os pontos fulcrais, especialmente na componente visual. O conceito em si é bom, a jogabilidade é interessante, a narrativa também está bem construída, só que tudo aquilo que ata estes pontos foi feito com uma linha muito fraca e que se parte em muitos momentos.