Developer: Destructive Creations
Plataforma: Xbox One, Xbox Series S|X, PlayStation 4, PlayStation 5 e PC
Data de Lançamento: 22 de Outubro de 2021

Nos últimos tempos tenho analisado uns quantos Real Time Strategy, ainda recentemente foi o Age of Empires 4, mas também o Humankind há uns meses, mas o meu género favorito de RTS, é mesmo aquele tipo Desperados III, ou o Shadow Tactics: Blades of Shogun, ou se recuarmos mais no tempo, o mítico Commandos. Pois bem, vindo do nada, chegou-nos este War of Mongrels, e digo vindo do nada, porque a sua promoção não foi altamente expansiva, não chegou a grande parte dos aficionados do estilo ou do género, mas, já está disponível para PC (via Steam), mas também para as consolas, nomeadamente a PS4, PS5, Xbox One e Xbox Series S|X.

War of Mongrels é o sucessor espiritual de Commandos, não há que enganar, em vários momentos vão ter a mesma perceção do que eu, vão ficar extasiados por finalmente terem um jogo deste tipo nas mãos, e ainda mais vão ficar pela qualidade do mesmo. É um claro upgrade tecnológico da saga de jogos criada pela Pyro Studios, que apesar do lançamento de 4 jogos da franquia Commandos, o último editado em 2003, não chegou a ter o sucesso que poderia ou deveria, desaparecendo do mapa e ficando apenas como jogos de culto, especialmente os 3 primeiros. Aliás a Pyro Studios viria a ser fundida, em 2012, com Play Wireless e dedicaram-se a outros negócios. Entretanto a Kalypso Media Group adquiriu os direitos de licença dos jogos da série Commandos, e em 2020 a editora afirmou estar a trabalhar num novo jogo com a Claymore Game Studios, mas ainda não existem detalhes de quando será lançado.

Posto isto, a verdade é que War of Mongrels conquistou esse legado, pegou numa situação geopolítica semelhante à de Commandos, com destaque para a Segunda Guerra Mundial, e virou tudo ao contrário, conseguindo-nos surpreender, envolver, e maravilhar pelo caminho. Aqui não fazemos parte dos bons da fita, as duas personagens centrais são soldados nazis alocados na Frente Oriental da 2ª Guerra Mundial, entalados no campo de batalha por entre as Forças Aliadas, os Nazis e o Exército Vermelho. Estes dois soldados despertam para a dura realidade da guerra e da fação a que pertencem, e das atrocidades que estavam a cometer. É precisamente aí, num momento de claridade, que não obedecem às ordens superiores de chacinar mais uma povoação, que são presos e levados para um acampamento prisional, mesmo no coração da batalha. No caminho, o camião onde eram transportados foi alvejado e miraculosamente os dois sobrevivem, mas é também aí que começa a aventura para os dois, isto é, fugir do terror do qual fizeram parte, desertar, ao mesmo tempo que fogem também de serem apanhados pelas Forças Aliadas ou pelo Exército Vermelho.

Assim sendo, Manfred e Ewald, estes dois soldados Wermacht, vêm-se obrigados a abrir caminho para fugir da embrulhada em que estão metidos, e de alguma forma tentar virar o rumo dos acontecimentos, aliando-se a outros camaradas com os mesmos ideais que os vão ajudar na sua demanda, juntando-se assim exército Polaco, os denominados Armija Krajowa. Muitas das pessoas talvez não tenha consciência do que se passou na chamada Ostfront, e só agora, tantos anos mais tarde, é que começam a olhar para a realidade de uma outra forma. Foi nesta frente de batalha, que morreram mais de 20 milhões de pessoas, sendo que, o número ainda é muito mais pesado perante a forma como estas pessoas morreram. Estamos a falar de milhões de pessoas que não morreram a lutar pelo seu país ou pelos seus ideais, fossem eles quais fossem, no campo de batalha, mas sim de fome. Os relatos dessas histórias são terroríficas, e War of Mongrels, baseou-se em muitas delas, para lhes dar voz, mas também para demonstrar um lado da História que tanta gente desconhece. A Europa não seria o que é hoje sem a batalha levada a cabo na Frente Oriental.

É neste contexto, e por causa deste contexto que o jogo se chama War Mongrels, isto é, em português diríamos algo do género, os Vira-Latas da Guerra, numa clara alusão à narrativa comum das 7 personagens que vamos controlar, cada um com a sua história, mas também com um sentimento comum a todos eles, o de não pertencer a lado algum, o de serem rejeitados, o de não encaixarem nos ideais ou nas filosofias patrióticas, e de que aquilo que os une ser apenas uma coisa, a sobrevivência da decência humana.

O que é interessante nesta narrativa, é que as personagens que vamos encontrar ao longo dos capítulos do jogo, é que vão dar sentido à luta de Ewald e Manfred, e vão clarificando o verdadeiro propósito a que estão destinados. O primeiro deles é Lukas, um lituano, contrabandista, mas com um coração enorme, que acaba por recrutá-los para a guerrilha lituana, a que pertence, para lutar contra os antigos superiores de Ewald e Manfred. Ao encontrarmos Lukas, aprisionado num celeiro, que percebemos que estamos no local daquilo que foi o chamado Massacre de Ponary, onde morreram cerca de 100 mil pessoas, sobretudo judeus, polacos e russos, pelas mãos dos Nazis.

Depois vamos conhecer Greta, uma soldada do Exército Polaco, o elemento que vai muitas vezes unir todo o grupo, e que vai também alinhar da melhor forma toda a estratégia de cada missão, sendo ela a mais profissional de todos eles, até mesmo para tomar conta dos “Silent Unseens“, isto é, da dupla Lead e Rumble, que acabaram por se juntar de uma forma acidental. Estes dois andam constantemente às turras com Ewald e Manfred, por razões patrióticas e de ideias, e dão origem a várias conversas filosóficas interessantes ao longo do jogo. Lead, é um sniper altamente qualificado, e Rumble é um engenheiro, ambos treinados em Inglaterra para ajudar a Resistência Polaca.

Para fechar este grupo dos 7 Magníficos, temos ainda Joachim, um judeu, originário de Munique, que sobreviveu ao campo de concentração de Gusen tornando-se Sonderkommando, isto é, parte da unidade de trabalhos dos campos de concentração e virou-se Partisan, que é como quem diz, um membro da resistência contra a ocupação e controlo estrangeiro, que operavam de forma a sabotar, atrapalhar comunicações ou roubar cargas.

War Mongrels é um Real Time Strategy (RTS) de visão isométrica, com táticas de stealth e de muita coordenação. Por entre os 12 capítulos do jogo, vamos ter 12 mapas distintos, onde teremos vários objetivos que podem passar, por simplesmente sobreviver, até eliminar as mais altas patentes Nazis. Os mapas estão recheados de elementos para nos escondermos, escondermos os corpos que vamos eliminado, e de formas de atingir os objetivos. Com a evolução tecnológica, podemos contar com vários elementos na horizontal, como é costume, mas existe uma enorme verticalidade no jogo, devido a possibilidade tridimensional do relevo em si, mas também a possibilidade de entrar dentro dos edifícios, ou de os escalar por fora, por exemplo.

Algo que já estamos habituados neste género, é que os inimigos têm um cone de visão, isto é, zonas onde o olhar dos inimigos alcança e onde podemos ser detetados, ou que algum objeto o seja. Neste jogo o cone de visão está dividido em duas formas, o de área total, onde qualquer que seja o movimento ou objeto que apareça nessa linha de visão é logo reconhecido pelo inimigo, e depois uma zona tracejada que indica que se nos movimentarmos a rastejar ou deixarmos um objeto ou corpo, não irá ser reconhecido na linha de visão do inimigo. Como é também habitual, a cor deste cone de visão muda perante o perigo adjacente, isto é, se formos avistados passará de branco para laranja, e se não formos suficientemente rápidos, passará para vermelho, soando os alarmes, e rapidamente a sermos caçados pelos inimigos.

Como estamos em desvantagem, não esperem facilidades, até porque o jogo é bastante difícil, e na minha opinião bem, para demonstrar a dificuldade que é dar cabo de um regime, ou pelo menos tentar. No entanto temos algumas artimanhas ao dispor, sempre na direção da ação silenciosa e meticulosa, especialmente com algumas das personagens. Em termos de jogabilidade, estamos a falar de um point and click, com o auxílio das teclas para utilizar vários atalhos para fazer com que ação possa ser executada da forma mais rápida e concertada possível. O mouse para além de mover o campo de visão de mapa utiliza o botão direito para movermos as personagens para os locais que indicarmos, enquanto que o botão esquerdo funciona para as definir as ações que escolhermos.

Estas ações vão variar conforme as personagens que controlarmos, por exemplo Ewald poderá utilizar a força bruta para eliminar inimigos, e com o auxílio de uma garrafa, até pode eliminar dois de cada vez, já Manfred utiliza uma faca para eliminar qualquer oponente e tem a capacidade de escalar em zonas determinadas para o efeito. Ambos podem usar técnicas de engodo, Ewald, garrafas para que um ou mais elementos vão as apanhar, enquanto que Manfred pode utilizar um relógio de bolso que toca uma pequena melodia para atrair os inimigos. Cada um tem a sua especialidade, com Lukas a poder montar armadilhas, por exemplo, Greta poderá disfarçar-se, assim como Joachim, Lead poderá usar a sua sniper, e Rumble detetar minas e sabotar engenhos. Ao longo das várias horas vão percebendo que isto é apenas a ponta do icebergue, mas já dá para perceber a diferença entre eles.

Para facilitar as ações as teclas de F1 e por aí adiante definem a seleção de personagens, as numerais definem os vários tipos de ações que podemos escolher e depois temos ainda 3 teclas especiais para duas ações também elas especiais, e que passo a explicar de seguida. A primeira prende-se com o “Planning Mode“, com a tecla TAB ativamos este modo, em que coloca a ação em suspenso, e onde podemos planificar os movimentos das várias personagens e as suas ações. Quando terminamos o planeamento basta carregar na tecla ENTER, para ativar o plano, fazendo com que as personagens o executem ao mesmo tempo. Dando um exemplo prático, com Ewald e Manfred, podem matar dois inimigos ao mesmo tempo planificando com cada um deles, um matará com força bruta, o outro com a faca, sem que os inimigos detetem a ação um do outro.

Por fim temos ainda o “Combat Mode“, que é ativada através da tecla C, aqui entramos numa das componentes diferenciadoras do jogo. Neste modo controlamos as nossas personagens com as teclas WASD, para a sua movimentação e mouse para disparar. É como se mudássemos a forma de jogar para um shooter, só que aqui as balas são muito reduzidas, e o barulho que fazemos a disparar vai alertar toda a gente à volta, por isso, é recomendado que o utilizem como último recurso, numa situação apertada, ou então quando conseguem estar em zonas descampadas sem muitos inimigos por perto.

Parecendo que não, estas duas últimas vertentes, e nomeadamente a Combat Mode, que é algo que nunca tínhamos visto neste género, acabam por trazer dinâmicas diferentes ao jogo, de o enriquecer com opções, misturando momentos de tensão de planeamento, com momentos de ação dignas de filmes de Hollywood. Tudo isto aliado à riqueza dos mapas, também eles dinâmicos, com comboios, carros, tanques, aviões a surgirem no meio do jogo, com um número por vezes muito elevado de NPC’s, dá uma vida e uma imersão, que por exemplo, Commandos nunca conseguiu ter. É inevitável as comparações como já explicámos, mas War of Mongrels acaba por ser tudo aquilo que queríamos numa nova iteração da franquia, e vai colocar um enorme problema se efetivamente um novo jogo da saga estiver a ser fabricado, porque terá uma fasquia muito alta para superar.

O que ainda aumenta o meu grau de contentamento com o jogo, foi o facto de ser possível jogar cooperativamente com um amigo em formato online. Podem criar uma sessão ou entrar na sessão de outra pessoa que esteja a jogar, se obviamente a party estiver aberta para isso. Se forem vocês a criarem a sessão, podem escolher o capítulo, e apenas poderão escolher até onde já chegaram no single player, e podem também escolher a dificuldade. Ainda não tinha referido isso, mas a dificuldade, tal como no single player, pode ser regulada de Very Easy a Very Hard, sendo que nesta última temos objetivos particulares definidos, como por exemplo, acabar a missão num tempo específico, ou acabar o nível sem matar ninguém. Este modo cooperativo é muito interessante, porque conseguem estar a conversar com o vosso amigo em party, e delinear a estratégia em conjunto, com cada um a ver o seu mapa de jogo, portanto sem ecrãs divididos ou obrigações de estar no mesmo plano de ação, podendo assim, cada um com a sua personagem cumprir objetivos diferentes, mas também comuns com estratégias delineadas em conjunto. Foi o que sempre quis em Commandos, e finalmente vejo isso acontecer aqui.

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Graficamente, o jogo é super detalhado, e como já referi anteriormente, com os mapas tão preenchidos, e tão ricos em pormenores, a capacidade gráfica tinha que dar vida a isso mesmo, e fá-lo de uma maneira superior. Tanto o desenho dos níveis em localizações exteriores e particularmente nas interiores estão recheados de uma caracterização histórica pormenorizada, tal como a arte de fotografia das personagens principais, as suas fichas que podemos desbravar no menu do jogo, ou mesmo das cut-scenes, com um estilo muito próprio, que me fascinaram por completo. Por isso tudo, precisam de um computador com uma boa capacidade, para que consigam jogar em Ultra, mas mesmo jogando em High, como preferi fazer para não ter quebras de frame rate, o jogo está lindíssimo.

Os únicos problemas que encontrei, foram alguns bugs e glitches, com portas e vedações, uma delas bloqueando-me por completo o nível, e tive que o refazer de um save bastante anterior para resolver a questão. Outro aspeto que desgostei, teve a ver com a escolha dos atores para fazer as vozes das personagens que controlamos. Gostava de sentir, pelo menos, o sotaque alemão, lituano ou polaco, isto é, eu percebo que tenha que ser em inglês para toda a gente compreender, mas era muito mais credível que tivessem pelo menos sotaque, para os tornar mais reais, mais próximos da sua verdadeira naturalidade, especialmente tendo em conta o quão a componente histórica, e da escolha dos países de origem para cada uma das personagens, pesa na narrativa do jogo. A banda sonora foi criada por Adam Skorupa, que já tinha criado a trilha de The Witdcher, Painkiller ou Bulletstorm, e mais uma vez acerta em cheio na composição deste War Mongrels.

War Mongrels, para mim, será um jogo de culto. Tal como Commandos foi em tempos, e tal como o Desperados III, ou o Shadow Tactics: Blades of Shogun o são. Eu sou fã destes jogos de RTS, isométricos e com uma enorme componente de estratégia, planeamento e precisão, e todos os anteriormente nomeados tocam em períodos históricos que me fascinam; mas este, este tem um twist que nunca esperei, o de começar com duas personagens no “lado mau”. Dois soldados nazis, que olham para dentro de si mesmos e encontram a Humanidade que tinham perdido, e que demonstram, que qualquer dia, é um bom dia, para se rebelarem, e virarem para o “lado bom”, neste caso, um caso historicamente muito específico, e devo dizer, brilhantemente documentado e fundamentado pelo trabalho dos historiadores Michał Flont e Jack Cuccurullo; o único lado possível, o da decência humana.