Developer: Cyanide Studios, Nacon
Plataforma: Xbox Series S|X, Xbox One, PlayStation 5, PlayStation 4 e PC
Data de Lançamento: 04 de fevereiro de 2021

Vamos começar por enquadrar o trabalho da Cyanide Studios, um estúdio francês criado no início dos anos 2000 e que tem duas subsidiárias, uma em Montreal outra em Bordéus. O estúdio é conhecido fundamentalmente pelo seu trabalho no jogo Pro Cycling Manager e do Tour de France. Apesar de nada ter a ver com este jogo, não nos podemos esquecer do excelente trabalho nessa vertente e , se calhar, também por isso vamos conseguir explicar algumas da “opções” que tomaram para este jogo. No entanto não são completamente estranhos a universos mais fantásticos e espirituais, basta recordar Styx: Shards of Darkness ou Call of Cthulhu, o jogo baseado na visão destorcida de realidade de HP Lovecraft, jogo que podem recordar a nossa análise aqui. Com isto em mente será bastante mais fácil perceber algumas das considerações e paralelismos que vamos acabar por fazer com este jogo.

Falemos então deste novo trabalho da Cyanide, Werewolf – The Apocalypse: Earthblood conta a história de Cahal, a nossa personagem, um Garou que faz parte da tribo de Fianna. Encaixando-se no canto da mitologia World of Darkness, vamos entrar num mundo onda as criaturas mágicas tentam equilibrar as forças do mundo, isto é, os Wyld responsáveis pela criação da natureza e de toda a vida, os Weaver que dão forma à criação da vida e que faz a ligação entre os elementos e, por fim, os Wyrm, cujo o único propósito é literalmente “varrer” o velho para criar um novo mundo e uma renovação para uma evolução. A ideia é bastante boa, com as ligações de que os humanos deram cabo do nosso mundo, da natureza, através da poluição e do saque de recursos naturais, da ganância e das guerras, e que o Mundo precisa de um reset. E é verdade, precisa mesmo, esta pandemia veio provar isso mesmo, que a nossa Terra está saturada de humanos e daquilo que provocam e que não vai continuar a aguentar este abuso dos humanos.

A introdução ao jogo dá o mote certo e gera alguma expectativa, mas o que acontece depois começa a gerar outro tipo de sentimento perante o jogo. Começamos com Cahal a ter algumas conversas com algumas das personagens da sua tribo, nomeadamente a sua mulher e filha, humanas, numa missão de reconhecimento conduzida pela mulher de Cahal que acaba mal, sem spoilar muito, até porque acontece logo no início do jogo, a sua mulher morre e Cahal enraivecido acaba por matar por um elemento da sua tribo e cegar outro por perder o controlo. Isso leva com que Cahal se exile e tente mandar abaixo a corporação que pretende destruir a Natureza, a Endron.

Para o fazer vamos então ter que nos infiltrar em várias instalações da Endron, e é aí que entra uma grande parte da componente de jogabilidade deste jogo, o stealth. Cahal dentro das instalações pode tentar passar despercebido perante os guardas, agachado pode movimentar-se pelas áreas procurando cobertura, e se necessário, executando Takedowns aos inimigos, ou então utilizar uma besta para os matar silenciosamente. Ao fazê-lo vai ter que ter cuidado para que os outros guardas não o vejam ao fazê-lo, mas isso é a parte mais fácil, porque a Inteligência Artificial é muito fraca.

Facilmente conseguimos eliminar guardas no mesmo sítio, com cada um deles a vir ver o que se passa com o corpo que está no chão e de repente temos 5 ou 6 amontoados utilizando a mesma estratégia. Para além disso, as suas movimentações e campo de visão são no mínimo peculiares, conseguindo passar a 10 cm ao lado deles sem darem por isso. Ainda nesta componente stealth, e ao longo de todo o jogo na verdade, podem transformar-se em lobo para mais facilmente se deslocarem, utilizando as condutas para passar de uma área para a outra. A ideia não é má e, de uma certa forma, até lembra um bom Metal Gear Solid, mas a IA é tão má que é difícil levar o jogo a sério. Temos uma ainda através de um clique de um botão a possibilidade de sentirmos a presença dos inimigos, de câmara e de outros objetivos, o que ainda nos torna mais OP no jogo.

No entanto, podemos optar por uma forma mais musculada de abordar as áreas, podemos simplesmente entrar a matar, transformando-nos em Lobisomem e num verdadeiro button smasher, através de ataques ligeiros e pesados, disparar ataques e fazer combos em tudo o que nos aparece à frente. Nesta componente de combate, podemos escolher entre uma postura de Agilidade ou uma postura de Agressividade, onde na primeira os ataques e os combos são mais rápidos e permite uma movimentação mais rápida, e na segunda, ataques mais pesados, que disferem mais dano, mas que também nos torna mais lentos na movimentação.

Temos ainda dois pormenores nessa componente de ataque, o facto de termos uma barra de poder que tanto podemos utilizar para ataques especiais, como para nos curarmos, para além de uma barra de Fúria que faz com que ataquemos em Full Rage Mode, com ataques poderosos, rápidos e sem perder muita vida. A ação é intensa no combate, não nos dá a satisfação de um Devil May Cry, e os inimigos, mesmo os Mechs são previsíveis e portanto não nos desafiam verdadeiramente, apesar de spawnarem como cogumelos.

Devo ainda referir que a progressão do jogo é parca, isto é, até em termos de Skill Tree, este jogo não tem muito para oferecer. Vamos poder desbloquear algumas habilidades, divididas por Táticas ou de Combate, em que na primeira vamos poder ganhar setas para a nossa besta que desativam camaras, aumento da Rage por kill, maior camuflagem; e na segunda aumentar a nossa vida, o poder de regeneração, a agilidade e os combos que podemos fazer nessa postura, da agressividade e os seus combos, e do modo fúria chegando a podermos conseguir congelar o tempo por alguns segundos.

Para além de tentarmos destruir a Endron, Gaia vai-nos incumbir de algumas tarefas secundárias para devolver os espíritos dos nossos guerreiros à terra prometida, onde através do nosso “radar sensorial” vamos tentar encontrar esses espíritos espalhados pelo mapa e conduzi-los à luz. Existem ainda várias notas que vamos podendo encontrar pelo caminho, numa tentativa de ser colecionáveis, mas daqueles que não adicionam nada à história ou ao interesse em ler.

Apesar do jogo ser bastante mediano, uma espécie de um filme de sábado à tarde, que já vimos e que só serve para passar o tempo, o que estraga a experiência é mesmo a sua qualidade gráfica, é difícil lidar com um jogo “meh” quando a qualidade gráfica está sempre a dizer-te que “isto está errado!”.

Não estamos a falar de quebra de frames ou questões ligadas mais à física, essa até não está nada má tendo em conta as duas formas que Cahal assume e o frenesim que muitas vezes acontece com ondas de inimigos e um Lobisomem enfurecido, mas sim a qualidade das texturas, de todas as áreas pelas quais passamos, pelas texturas das personagens, fazendo pensar que estamos a jogar um bom jogo da Xbox 360 e não um jogo que saiu para a Xbox Series X em que jogámos. É difícil de ver os diálogos das personagens com um terrível lip sync e várias deformações e texturas simples, e por vezes é mesmo incompreensível, porque Cahal está desenhado com um nível superior a isso, e porque as cut scenes cinematográficas até estão bem porreiras.

Werewolf: The Apocalypse – Earthblood até poderia ser um filme porreiro de sábado à tarde, mas infelizmente é mesmo um mau filme que mudamos de canal, aquele que dizemos “epah tão mal feitinho”. Com elementos de World of Darkness e até da narrativa interessante e do paralelismo que com aquilo que andamos a fazer à Natureza do último século, mas a qualidade gráfica nem o deixou vir à tona. Acaba por ser uma pena, para um jogo que até gerou muito interesse, mas ficou curto na sua concretização.