Developer: Ryu Ga Gotoku Studio
Plataforma: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PC
Data de Lançamento: 8 de Dezembro de 2025
Foi aqui que tudo começou. Em 2006, vimos pela primeira vez a capa de Yakuza, embora os jogadores japoneses já tivessem tido contacto com o jogo em 2005, ano em que foi lançado no Japão. Ainda assim, foi com este título que se iniciou a incrível saga de Kazuma Kiryu, uma história que viria a construir, ao longo dos anos, um legado absolutamente impressionante e uma base de fãs inacreditável. Em 2017, chegou Yakuza Kiwami, o remake do jogo original de 2006, lançado inicialmente para a PlayStation 4 e posteriormente para PC e Xbox One. Esta versão trouxe consigo várias melhorias significativas, desde gráficos remodelados a um sistema de combate mais refinado, bem como cenas adicionais que aprofundaram e ampliaram o drama da narrativa original. Foi apenas há poucos dias que vimos chegar uma nova remasterização do jogo, lançada em 2025, trazendo novamente este clássico para o centro das atenções.
Apesar de, na minha opinião, a melhor forma de iniciar a história de Kazuma Kiryu seja com Yakuza 0 Director’s Cut, a verdade é que é neste jogo que nasce verdadeiramente a lenda do Dragão de Dojima. Esta nova versão traz uma maior sensação de modernidade sem perder o peso da nostalgia, permitindo que novos jogadores possam finalmente experienciar este jogo da melhor forma possível, enquanto os veteranos têm a oportunidade de revisitar um dos capítulos mais marcantes da franquia.
A narrativa tem início em 1995, sete anos após o início dos acontecimentos de Yakuza 0 Director’s Cut, num período em que Kazuma Kiryu se encontra no auge da sua vida dentro da Yakuza. Integrado na Família Kazama, uma das mais respeitadas do Clã Tojo, Kiryu é visto como um homem promissor, disciplinado e diferente da maioria dos membros do submundo. Apesar de viver num ambiente marcado pelo crime, mantém um código moral rígido, herdado do seu mentor Shintaro Kazama, que o distingue pela forma como protege os mais fracos e evita violência desnecessária. Ao seu lado está Akira Nishikiyama, o seu irmão de juramento e amigo de infância, alguém com quem cresceu num orfanato e com quem partilha uma ligação quase familiar. Ambos mantêm também uma forte ligação a Yumi Sawamura, amiga de infância que ocupa um lugar especial no coração de Kiryu.
Tudo muda de forma abrupta quando Sohei Dojima, patriarca de uma das famílias mais poderosas do Clã Tojo, tenta abusar de Yumi. Nishikiyama intervém para a proteger e acaba por matar Dojima num momento de desespero. Consciente de que este ato condenaria Nishikiyama à morte dentro da hierarquia da Yakuza, Kiryu toma uma decisão que define toda a sua vida, ou seja, assumir a culpa pelo crime. Ao fazê-lo, salva o amigo, mas sacrifica o seu próprio futuro, sendo condenado a dez anos de prisão e expulso da Yakuza, tornando-se num traidor aos olhos do clã que serviu.
Quando Kiryu é libertado, uma década mais tarde, regressa a um Japão profundamente diferente daquele que deixou para trás. Kamurochō, o distrito que outrora conhecia como a palma da sua mão, transformou-se com o avanço tecnológico e económico do país. No entanto, a maior mudança não está nas ruas, mas nas pessoas. O Clã Tojo encontra-se à beira de uma guerra interna, alimentada pelo desaparecimento de uma enorme quantia de dinheiro dos cofres da organização. Esse dinheiro torna-se o centro de uma caça implacável, envolvendo várias facções do submundo, todas dispostas a matar para o recuperar.
Kiryu, que desejava apenas reconstruir a sua vida longe da Yakuza, é rapidamente arrastado de volta para esse mundo. Yumi desapareceu sem deixar rasto, Nishikiyama tornou-se uma figura fria e ambiciosa dentro do clã, e antigos aliados passam a vê-lo como um obstáculo ou uma ameaça. A maior tragédia, porém, é perceber que o amigo que protegeu já não é o mesmo homem, corroído por anos de ressentimento, frustração e pela necessidade de provar o seu valor num mundo que sempre o colocou à sombra de Kiryu.
No meio deste caos surge Haruka, uma criança misteriosa que carrega consigo um objeto diretamente ligado ao dinheiro desaparecido. A relação entre Kiryu e Haruka torna-se rapidamente um dos pilares emocionais da narrativa. O protagonista, que sempre viveu rodeado de violência e perda, assume um papel protetor quase paternal, disposto a enfrentar qualquer inimigo para garantir a segurança da menina. Esta ligação humaniza ainda mais Kiryu, revelando um lado sensível e altruísta que contrasta fortemente com a brutalidade do submundo em que se move.
À medida que a história avança, Yakuza Kiwami constrói um enredo denso, repleto de conspirações, traições e revelações dolorosas. A investigação em torno do dinheiro roubado expõe a corrupção interna do Clã Tojo e mostra como o poder dentro da Yakuza é conquistado à custa de sangue e sacrifício. Personagens como o detetive Makoto Date funcionam como âncoras morais externas ao submundo, oferecendo a Kiryu uma perspetiva diferente e ajudando a revelar a dimensão humana por detrás das guerras de gangues.
Um dos elementos mais marcantes da narrativa é a relação entre Kiryu e Nishikiyama. O jogo não apresenta o antigo amigo de infância apenas como um vilão, mas como uma figura trágica, moldada por sentimentos de inferioridade, abandono e pela pressão constante de viver à sombra de alguém considerado superior. O conflito entre os dois não é apenas físico, mas também emocional, representando o choque entre dois caminhos possíveis dentro do mesmo mundo, um guiado pela honra e pelo sacrifício, outro pela ambição e pelo desespero.
Apesar do tom pesado e dramático, a história sabe equilibrar muito bem momentos de tensão com humor e excentricidade, principalmente através de Goro Majima. Inicialmente apresentado como um antagonista imprevisível, Majima funciona como um contraponto caótico à seriedade de Kiryu, trazendo leveza e absurdo a uma narrativa que poderia facilmente tornar-se excessivamente sombria. A sua presença constante reforça a identidade única da série, onde o drama mais intenso convive lado a lado com situações completamente inesperadas.
Para quem conhece estes jogos, sabe bem que um dos seus pontos fortes são as incríveis cutscenes, que oferecem uma experiência capaz de rivalizar com séries e filmes. Cada capítulo é cuidadosamente estruturado, revelando gradualmente a complexidade das relações entre personagens e os dilemas morais que Kiryu enfrenta. O protagonista, apesar de ser um criminoso, destaca-se pela sua integridade e empatia, criando uma ligação emocional poderosa, sobretudo na relação protetora com Haruka, cuja inocência contrasta com a dureza de Kamurochō.
Quanto à jogabilidade, Yakuza Kiwami é um jogo de ação em terceira pessoa com forte componente beat’em up, incorporando num sistema de combate profundo e versátil. Kiryu dispõe de quatro estilos distintos: o Beast, mais lento e poderoso, o Rush, rápido e focado em esquivas, o Brawler, equilibrado em ataque e defesa, e o Dragon, seu estilo mais emblemático e devastador. Cada estilo possui golpes e finalizações únicas, sendo possível desbloquear novas habilidades através de experiência obtida ao derrotar inimigos, completar missões e realizar atividades secundárias.
No que diz respeito à jogabilidade, Yakuza Kiwami apresenta-se como um jogo de ação em terceira pessoa com uma forte componente beat’em up, assente num sistema de combate profundo e versátil. Kiryu dispõe de quatro estilos distintos: Beast, mais lento e poderoso; Rush, rápido e focado em esquivas; Brawler, equilibrado entre ataque e defesa; e Dragon, o seu estilo mais emblemático e devastador.
A progressão do combate está intimamente ligada ao desenvolvimento das capacidades de Kiryu, sendo necessário acumular pontos de experiência para evoluir cada um dos quatro estilos de luta. Estes pontos são obtidos ao longo dos combates, da progressão na história e da participação em atividades e missões secundárias, permitindo desbloquear novos golpes e expandir as opções ofensivas e defensivas de forma gradual.
O combate é ainda enriquecido pelas Heat Actions, ataques especiais que consomem a barra de cólera e permitem executar movimentos espetaculares e violentos, muitas vezes envolvendo o uso de armas ou objetos do ambiente. Esta mecânica, aliada à possibilidade de interagir com praticamente tudo em Kamurochō, desde cones e placas de publicidade até katanas e motas, oferece uma jogabilidade satisfatória, criativa e brutal.
Kamurochō é, por si só, um dos grandes protagonistas do jogo. Cada rua, loja e beco esconde histórias, desafios e atividades diversas. É possível participar em uma grande variedade de minijogos, como snooker, karaoke, dardos e as sempre especiais máquinas arcade com alguns clássicos da SEGA. Para além disso, existem as habituais histórias secundárias, que enriquecem ainda mais a experiência, alternando entre situações hilariantes e momentos mais dramáticos, apresentando personagens memoráveis e expandindo o universo da série de forma surpreendente.
Graficamente, o jogo apresenta-se muito competente. Esta remasterização melhora ainda mais a qualidade do remake de 2017, com texturas mais nítidas, maior resolução e uma iluminação mais consistente. Nota-se uma melhor definição de contrastes e uma leitura mais clara das ruas de Kamurochō, o que ajuda a criar uma atmosfera urbana mais densa e viva, algo sempre fundamental para a identidade da série. Os modelos das personagens exibem um bom nível de detalhe nas expressões e animações, e a fluidez constante torna tanto a exploração como o combate muito agradáveis e responsivos. Apesar de não se tratar de uma reinvenção visual profunda, é evidente o cuidado no polimento, sempre com respeito pela identidade do remake original.
A componente sonora continua a ser um dos pilares fundamentais da franquia, mantendo um nível de qualidade muito elevado que complementa na perfeição o tom dramático da narrativa. A banda sonora alterna eficazmente entre temas intensos durante os confrontos e composições mais contidas nos momentos narrativos. O trabalho de vozes, exclusivamente em japonês, mantém-se irrepreensível, com interpretações fortes e credíveis que dão vida às personagens e elevam o impacto das cenas mais marcantes. Os efeitos sonoros também cumprem com distinção, desde o som ambiente das ruas, que reforça a sensação de um mundo vivo, até ao impacto dos golpes e objetos utilizados nos combates.
Por último, e não menos importante, merece destaque a chegada do português ao jogo. Agora, todas as legendas e menus encontram-se na nossa língua, algo que é extremamente bem-vindo, permitindo que os jogadores compreendam totalmente a história e as interações entre personagens sem barreiras linguísticas.
Yakuza Kiwami é um jogo que considero obrigatório para quem nunca teve a oportunidade de o jogar. É a melhor forma de viver esta história pela primeira vez ou de a revisitar. No meu caso, proporcionou-me uma enorme sensação de nostalgia, revivendo uma narrativa que está sempre atual. Toda a franquia de Yakuza relacionada com Kazuma Kiryu é verdadeiramente incrível e este título continua a ser um dos seus pilares mais importantes.








