Developer: Ryu Ga Gotoku Studio
Plataforma: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PC
Data de Lançamento: 8 de Dezembro de 2025
Depois de, nos últimos dias, termos trazido as análises de Yakuza 0 Director’s Cut e Yakuza Kiwami, era impossível não falar também de Yakuza Kiwami 2, um dos jogos mais marcantes de toda a franquia. Lançado originalmente em 2006 no Japão e chegado ao resto do mundo apenas em 2008 para a PlayStation 2 com o nome Yakuza 2, o jogo recebeu um remake em 2017 sob a designação actual, Yakuza Kiwami 2. Tal como aconteceu com o remake do primeiro jogo, esta versão trouxe gráficos mais modernos e detalhados, uma jogabilidade mais fluida, uma narrativa mais envolvente e ainda mais actividades para satisfazer os jogadores. A chegada do jogo, novamente em 2025, prende-se com o facto de ter recebido uma remasterização que o torna mais actual para as novas consolas e também para o PC.
Em Yakuza Kiwami 2 continuamos a acompanhar a história de Kazuma Kiryu um ano após os acontecimentos do primeiro jogo. Depois de todos os sacrifícios feitos para salvar o Clã Tojo e proteger Haruka, Kiryu tenta finalmente afastar-se do submundo do crime, procurando levar uma vida tranquila, longe das guerras entre famílias. No entanto, como é habitual na sua vida, essa paz dura muito pouco.
O ponto de partida da narrativa surge com a ascensão de Yukio Terada à presidência do Clã Tojo. A escolha não é consensual, uma vez que Terada possui ligações profundas à Aliança Omi, a maior organização rival, sediada em Osaka. Apesar das dúvidas e tensões internas, Kiryu confia nele por respeito à memória de Shintaro Kazama, acreditando que Terada será capaz de manter o equilíbrio entre as famílias. Essa confiança é brutalmente abalada quando Terada é assassinado pouco depois da sua nomeação, num incidente que ocorre perante o próprio Kiryu.
Este acontecimento desencadeia uma nova crise no submundo japonês. Com o Clã Tojo fragilizado e sem liderança, a Aliança Omi vê uma oportunidade de ouro para avançar sobre Kamurocho e assumir o controlo definitivo do território. Sentindo-se responsável pelo caos que se instala, Kiryu decide agir, mesmo sabendo que isso significa regressar a um mundo do qual tentou escapar.
É neste contexto que surge Ryuji Goda, o temível Dragão de Kansai. Ao contrário de muitos antagonistas da série, Ryuji não age nas sombras nem se esconde atrás de intrigas subtis. Ele acredita que só pode existir um verdadeiro dragão no submundo japonês e está disposto a destruir tudo à sua volta para provar que é mais forte do que Kiryu. A rivalidade entre os dois é imediata, directa e profundamente pessoal, elevando o conflito a um confronto de ideais, orgulho e força bruta.
À medida que Kiryu viaja até Osaka para tentar negociar com a Aliança Omi, a narrativa expande-se para além de Kamurocho, apresentando novos cenários, novas dinâmicas de poder e uma rivalidade histórica entre duas regiões do Japão. Em Osaka, Kiryu cruza-se com Kaoru Sayama, uma detective determinada que investiga uma série de assassinatos ligados à Yakuza. Inicialmente desconfiada de Kiryu, Kaoru acaba por formar com ele uma parceria improvável, e a relação entre ambos evolui de forma gradual, acrescentando uma dimensão emocional e mais humana à história.
Conforme a investigação avança, torna-se claro que o conflito entre o Clã Tojo e a Aliança Omi é apenas a superfície de algo muito mais profundo. Antigas conspirações começam a emergir, envolvendo a máfia coreana Jingweon, uma organização que se acreditava extinta desde os anos 80.
Como é fácil perceber, a narrativa de Yakuza Kiwami 2 destaca-se pela forma como constrói uma trama envolvente que vai desde disputas entre clãs rivais até intrigas políticas e aspectos da vida pessoal das personagens. Kiryu continua a afirmar-se como um protagonista extremamente interessante ao longo de toda a história, sendo uma personagem que poucos jogos conseguiram oferecer. Outro ponto muito importante é a ligação entre Kiryu e Haruka, que funciona simultaneamente como o seu maior ponto fraco e como o seu lado mais humano e emotivo, já que ele a tenta proteger a todo o custo.
Além disso, uma adição em relação ao Yakuza 2 original é a inclusão de uma pequena narrativa protagonizada por Goro Majima. Esta chegou com o remake de 2017 e serve essencialmente para concluir elementos que foram iniciados em Yakuza 0, onde também tivemos uma forte presença desta personagem. Esta nova adição é desbloqueada à medida que progredimos na campanha principal.
Um dos maiores trunfos do jogo é a forma como as suas cidades funcionam, com espaços vivos e densos que vão muito além de simples cenários de passagem. Kamurocho regressa como o coração da experiência, recriada com um nível de detalhe impressionante, onde cada rua transmite a sensação de um bairro real, cheio de movimento, luzes de néon, lojas abertas e personagens com rotinas próprias. A cidade não serve apenas de pano de fundo para a narrativa principal, mas como um palco constante de acontecimentos inesperados, onde somos frequentemente interrompidos por encontros aleatórios, histórias paralelas e pequenos dramas urbanos.
Para além de Kamurocho, temos também Sotenbori, em Osaka, que oferece um contraste visual e cultural evidente. Enquanto Kamurocho é mais compacta e vertical, Sotenbori destaca-se pelas suas avenidas mais largas, canais iluminados e uma identidade própria, inspirada na rivalidade histórica entre as duas regiões do Japão.
As missões secundárias são outro dos pilares que definem Yakuza Kiwami 2. Espalhadas pelas cidades, surgem muitas vezes de forma inesperada e apresentam uma enorme variedade de tons e situações. Algumas exploram histórias emocionais ou sociais, enquanto outras abraçam por completo o humor absurdo característico da série. Estas narrativas são tão importantes que, sem elas, o jogo não seria o mesmo, funcionando como mais um elemento que dá vida e humanidade a Kamurocho e Sotenbori, proporcionando uma voz a personagens mais comuns.
No que diz respeito às actividades, o jogo oferece uma quantidade quase avassaladora de opções, permitindo que exista sempre algo para fazer sem estarmos constantemente focados na narrativa principal. É possível passar horas nos salões de jogos a jogar nas máquinas arcade com títulos clássicos da SEGA, cantar karaoke, participar em jogos de azar, competir em dardos ou mergulhar em sistemas mais elaborados como a gestão de cabarets ou o modo estratégico associado à Majima Construction. Estas actividades não são simples distrações, mas sistemas completos, com progressão, desafios e recompensas próprias.
O sistema de combate continua a apostar numa abordagem directa e física. As lutas decorrem em tempo real e colocam Kiryu frente a grupos de inimigos, onde o posicionamento, o controlo de multidões e o uso do cenário assumem um papel fundamental. Dispomos de vários golpes, entre socos, pontapés e finalizações, estando tudo isto profundamente ligado ao sistema de progressão, que tem um papel essencial na forma como Kiryu evolui ao longo da aventura.
O jogo apresenta uma árvore de habilidades que permite desenvolver o protagonista de forma gradual, desbloqueando melhorias que afectam directamente a eficácia em combate. À medida que novas habilidades são adquiridas, ganhamos acesso a golpes mais poderosos, sequências de ataques mais fluidas, melhorias defensivas e uma gestão mais eficiente do medidor de Heat, o que se traduz em confrontos cada vez mais dinâmicos e agressivos. Esta árvore de habilidades não serve apenas para aumentar números ou estatísticas, mas para transformar de forma visível a maneira como se luta.
A progressão não está limitada a um único tipo de melhoria, oferecendo liberdade para investir em diferentes áreas consoante o estilo de jogo preferido. Os pontos necessários para desbloquear estas habilidades são obtidos através da participação activa em praticamente todos os sistemas do jogo, seja ao vencer combates, completar missões secundárias, avançar na história principal ou participar nas diversas actividades espalhadas pelas cidades.
Graficamente, temos um jogo que apresenta uma excelente qualidade no seu conjunto. A iluminação assume um papel fundamental na identidade visual, com ruas banhadas por néons vibrantes durante a noite e interiores cuidadosamente iluminados, criando contrastes fortes e uma atmosfera densa e realista. Os modelos das personagens apresentam, como é habitual, um nível elevado de detalhe, com expressões faciais naturais e animações que ajudam a transmitir emoções de forma convincente. Esta atenção ao detalhe estende-se aos cenários, repletos de pequenos elementos visuais que dão vida às cidades, resultando numa experiência visual coesa e imersiva que reforça o tom cinematográfico da narrativa. As cutscenes continuam a ser um dos pontos mais fortes do jogo, com momentos verdadeiramente memoráveis.
No aspecto sonoro, o jogo volta a oferecer uma banda sonora que equilibra na perfeição momentos dramáticos e enérgicos, acompanhando de forma exemplar os diferentes momentos da experiência. Os efeitos sonoros estão igualmente muito bem conseguidos, com cidades que parecem vivas graças ao som ambiente e combates onde cada golpe, impacto e objecto partido se faz sentir. O voice acting, apesar de estar apenas em japonês, continua a ser de uma qualidade absolutamente incrível.
Importa ainda referir que esta versão inclui legendas e menus em português, algo muito bem-vindo e que torna o jogo ainda mais acessível.
Yakuza Kiwami 2 continua a ser um jogo extremamente actual e capaz de agarrar qualquer jogador. Trata-se de uma obra verdadeiramente incrível, com uma narrativa envolvente, personagens marcantes e uma identidade muito própria. Juntamente com Yakuza Kiwami 1 e Yakuza 0 Director’s Cut, demonstra como o 20.º aniversário da franquia não podia ter sido melhor celebrado do que com o relançamento destas três obras verdadeiramente magníficas.








