Developer: Ryu Ga Gotoku Studio
Plataforma: PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch 2, PC
Data de Lançamento: 12 de fevereiro de 2026
A série Yakuza tem sido uma referência nos jogos de ação e narrativa, conseguindo de forma notável combinar histórias sérias e emocionais com momentos de humor e atividades secundárias únicas. Depois de os jogadores terem revivido as aventuras de Kazuma Kiryu em Yakuza 0 Director’s Cut, Yakuza Kiwami e Yakuza Kiwami 2, e mesmo com a possibilidade de jogar Yakuza 3 Remastered lançado em 2021 (em vez do título original de 2009), chega um novo jogo com melhorias gráficas, adições de conteúdo e novas funcionalidades fazia todo o sentido.
Foi exatamente isso que a Ryu Ga Gotoku Studio conseguiu com o lançamento de Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties. Recorrendo ao Dragon Engine, o estúdio trouxe um remake de grande qualidade, não só em termos gráficos, mas também com ajustes nos sistemas de combate e em várias mecânicas, novas atividades secundárias e um aprofundamento de determinados elementos da narrativa. Além disso, o jogo inclui uma nova campanha, intitulada Dark Ties, centrada na personagem Yoshitaka Mine, que funciona como um complemento narrativo perfeito aos acontecimentos da história principal.
A narrativa de Yakuza Kiwami 3 decorre após os acontecimentos dos capítulos anteriores da saga, acompanhando Kazuma Kiryu numa fase em que procura afastar-se definitivamente do submundo da yakuza. Instalado em Okinawa, Kiryu gere o orfanato Morning Glory ao lado de Haruka, assumindo um papel paternal perante as várias crianças que ali vivem. Esta nova etapa da sua vida surge como uma tentativa consciente de construir estabilidade e oferecer um futuro seguro a quem depende dele, representando um contraste claro com o passado violento que marcou o seu percurso.
O início da história deixa, no entanto, evidente que Kiryu não terá a paz que procura. O seu passado volta a persegui-lo quando o terreno onde se encontra o orfanato se torna peça central de um conflito maior. Numa das cutscenes iniciais, exatamente por causa desse terreno, surge uma figura idêntica a Shintaro Kazama – que todos vimos morrer em Yakuza Kiwami – a alvejar o chefe do Clã Tojo, Daigo Dojima. Este acontecimento abala profundamente a estabilidade da organização e cria, desde os primeiros minutos, um clima de incerteza que antecipa um conflito mais vasto, envolvendo disputas territoriais e interesses políticos.
O projeto de desenvolvimento imobiliário e militar planeado para Okinawa coloca diretamente em risco a permanência do Morning Glory. E o que começa como uma ameaça aparentemente administrativa evolui rapidamente para algo mais complexo, desencadeando investigações e confrontos que revelam ligações entre empresários influentes, membros da yakuza e figuras políticas. A conspiração ganha dimensão à medida que a narrativa avança, obrigando Kiryu a intervir não apenas para proteger as crianças, mas também para compreender quem está verdadeiramente por detrás das decisões que afetam a região.
À medida que a história se desenvolve, o foco alterna entre Okinawa e Kamurocho. A instabilidade dentro do Clã Tojo torna-se cada vez mais evidente, com diferentes membros a disputarem influência num período de fragilidade interna. Entre essas figuras destaca-se Yoshitaka Mine, cuja ascensão dentro da organização desempenha um papel determinante no desenrolar dos acontecimentos. Apresentado como um indivíduo ambicioso e estratega, Mine revela uma visão própria sobre lealdade e liderança, tornando-se progressivamente uma peça-chave na cadeia de eventos que acaba por envolver diretamente Kiryu.
Paralelamente ao conflito principal, a narrativa dedica um espaço significativo ao quotidiano no orfanato. Com este remake, esta vertente é aprofundada através de um sistema de gestão mais detalhado da instituição. Com Kiryu, podemos realizar tarefas diárias com as crianças, como ajudar nos trabalhos de casa, cozinhar, costurar, apanhar insetos ou participar em pequenos desafios que reforçam os laços afetivos. O progresso é medido através do Daddy Rank, que reflete a relação de Kiryu com cada criança e o estado geral do orfanato.
É ainda possível cultivar uma horta, criar animais e trocar produtos com comerciantes locais, aumentando os recursos disponíveis para a instituição. Estas atividades são opcionais, mas proporcionam uma sensação de evolução constante, permitindo observar o impacto direto das nossas ações no desenvolvimento das crianças e no crescimento do orfanato.
Embora nem todos os jogadores se identifiquem da mesma forma com esta componente mais tranquila, especialmente aqueles que procuram sobretudo combate e tensão dramática, esta vertente acrescenta valor. O contraste entre a inocência da vida familiar e a violência associada ao mundo da yakuza torna-se ainda mais evidente, aprofundando o peso emocional das decisões de Kiryu.
Ao longo dos capítulos, revelações sucessivas ajudam a clarificar as motivações dos diferentes intervenientes na disputa pelo território de Okinawa. Alianças são formadas e desfeitas, decisões políticas têm consequências diretas nas ruas e a ligação entre interesses económicos e o crime organizado torna-se cada vez mais clara. Mantendo a estrutura tradicional da série, a história é dividida em capítulos marcados por confrontos intensos, revelações sobre o passado de várias personagens e mudanças significativas que vão moldando o rumo dos acontecimentos.
A exploração é outro dos pontos fortes de Yakuza Kiwami 3, dividindo-se essencialmente entre Okinawa e Kamurocho, dois espaços com identidades bastante distintas. Okinawa apresenta um ambiente mais aberto, luminoso e descontraído, refletindo o novo estilo de vida de Kiryu, enquanto Kamurocho mantém a densidade urbana característica da série, com ruas movimentadas, estabelecimentos acessíveis e encontros aleatórios. A transição entre estas localizações acontece de forma natural ao longo da narrativa, permitindo revisitar zonas familiares e descobrir áreas remodeladas neste remake.
A cidade não funciona apenas como pano de fundo, mas como um verdadeiro espaço interativo, algo já habitual na série. Restaurantes, lojas, salões de jogos e vários locais opcionais estão distribuídos pelo mapa, incentivando a exploração constante. As conversas com NPCs, os eventos espontâneos e pequenas situações inesperadas reforçam a sensação de um mundo vivo. Em Okinawa, a proximidade ao mar e às zonas residenciais cria uma atmosfera distinta da tensão urbana de Kamurocho, proporcionando momentos de maior tranquilidade e variedade entre capítulos.
O combate mantém a habitual ação em tempo real, com Kiryu a poder alternar entre dois estilos de luta distintos que definem a forma como abordamos os confrontos ao longo da campanha. O principal continua a ser o Dragon of Dojima, estilo que representa a identidade clássica da personagem, baseando-se em golpes diretos, combinações de ataques leves e fortes, agarrões e na utilização estratégica da barra de Heat para executar técnicas especiais. Trata-se de um estilo equilibrado entre ataque e defesa, eficaz tanto em confrontos individuais como em batalhas contra múltiplos adversários.
A complementar esta abordagem surge o estilo Ryukyu, inspirado no ambiente de Okinawa e nas suas influências locais. Este estilo introduz um combate mais ágil e versátil, com maior ênfase na utilização de armas e em sequências que permitem controlar grupos de inimigos com maior fluidez. O ritmo e as animações diferenciam-no claramente do Dragon of Dojima, oferecendo alternativas importantes em situações onde mobilidade e alcance se tornam determinantes.
Nota-se também que, neste remake, o combate ganhou maior fluidez e melhor resposta aos comandos, com animações mais suaves e transições naturais entre ataques. As batalhas contra grupos são frequentes e exigem um bom posicionamento, sobretudo quando os inimigos recorrem a armas ou tentam cercar-nos. Já nas lutas principais, mantêm-se as fases distintas características da série, com adversários que se tornam progressivamente mais agressivos à medida que a sua barra de energia diminui.
O conteúdo secundário continua a assumir um papel fundamental na experiência. As missões opcionais surgem espalhadas pelo mapa e apresentam histórias independentes da narrativa principal, variando entre casos mais sérios e episódios de tom mais leve. Estas pequenas narrativas ajudam a aprofundar o universo que rodeia as duas cidades, oferecendo recompensas e revelando diferentes facetas da vida quotidiana nestes cenários.
Os mini-jogos clássicos também marcam presença, incluindo karaoke, bilhar, dardos e vários títulos retro da SEGA totalmente jogáveis. Entre os exemplos encontram-se Out Run, com a sua condução arcade icónica; Space Harrier, centrado numa ação frenética; Fantasy Zone, conhecido pelo seu estilo colorido e jogabilidade lateral; e Virtua Fighter 2, com os seus combates sempre desafiantes. Estas atividades funcionam como pausas na narrativa principal e acrescentam outro tipo de divertimento e até diversidade ao jogo.
Passando para Dark Ties, este apresenta-se como um conteúdo narrativo adicional que pode ser jogado logo desde o início. O seu objetivo é oferecer uma perspetiva alternativa e complementar aos acontecimentos centrais de Yakuza Kiwami 3. Aqui, o foco recai sobre Yoshitaka Mine, permitindo observar os mesmos conflitos a partir do interior da estrutura do Clã Tojo. A narrativa desenvolve-se em paralelo com a história principal, revelando decisões estratégicas, jogos de poder e movimentações internas que anteriormente apenas conhecíamos pelas suas consequências.
Ao longo desta campanha, começamos por perceber como Mine se tornou na pessoa que é, explorando parte do seu percurso e das motivações que moldaram a sua personalidade. A partir daí, acompanhamos o período de grande instabilidade dentro da organização, no qual assume um papel ativo em negociações, alianças e confrontos diretos que procuram proteger, ou até redefinir, o futuro do Clã Tojo. O enredo é mais concentrado e politicamente denso, privilegiando diálogos estratégicos, reuniões internas e operações em Kamurocho. Ao contrário da jornada mais emocional e familiar de Kiryu em Okinawa, Dark Ties mergulha profundamente nas dinâmicas de poder, evidenciando a tensão constante entre tradição e pragmatismo no seio do submundo.
Em termos estruturais, a expansão apresenta uma progressão mais compacta. Os capítulos são menos numerosos, mas mais focados, conduzindo rapidamente de uma decisão estratégica para um confronto decisivo. Esta abordagem cria um ritmo mais intenso e direto, reduzindo momentos de dispersão e concentrando-se quase exclusivamente na escalada do conflito interno.
No combate, Dark Ties introduz um estilo próprio associado a Mine, distinguindo-se claramente da versatilidade de Kiryu. A sua abordagem é mais agressiva e ofensiva, privilegiando combinações rápidas e pressão constante sobre os adversários. A fluidez das animações e a cadência dos ataques transmitem uma sensação de controlo técnico e precisão, contrastando com o equilíbrio mais tradicional do Dragon of Dojima.
Embora mantenha a base do sistema de combate de Yakuza Kiwami 3, a expansão reduz ligeiramente o foco na exploração extensa e na variedade de atividades secundárias. O conteúdo paralelo existe, mas surge de forma mais contida, mantendo a narrativa como o verdadeiro centro da experiência. Esta decisão faz sentido, já que Dark Ties deve ser entendido como um complemento narrativo e não como uma campanha independente. Ao revelar o que acontecia nos bastidores enquanto Kiryu enfrentava os seus próprios desafios, não reconta os mesmos eventos, mas acrescenta uma nova perspetiva que enriquece significativamente o conjunto da obra.
Graficamente é notório o benefício do Dragon Engine, trazendo Kamurocho e Okinawa à vida de forma impressionante. As ruas apresentam agora um nível de detalhe superior, com NPCs que interagem entre si, pequenos eventos aleatórios e diálogos ambientais que reforçam a sensação de um mundo vivo e dinâmico. Os edifícios, interiores e objetos do cenário receberam texturas aprimoradas, enquanto as animações de combate foram suavizadas, conferindo maior realismo e impacto às lutas corpo a corpo.
As cutscenes foram igualmente refeitas, mantendo a intensidade emocional e a narrativa cinematográfica do jogo original, mas com maior clareza visual e melhor expressividade facial das personagens. Os efeitos visuais, desde explosões e tiroteios até aos movimentos especiais de combate, apresentam-se mais detalhados, proporcionando uma experiência visual simultaneamente imersiva e fiel ao tom dramático da série.
No aspeto sonoro, o jogo mantém a qualidade a que a série nos habituou, com uma banda sonora que acompanha de forma eficaz tanto os momentos de ação como as sequências mais dramáticas. O voice acting, disponível em japonês, inglês e chinês, apresenta interpretações consistentes e expressivas, dando profundidade às personagens, incluindo as novas participações em Dark Ties. Os efeitos ambientais e os sons do combate criam bastante imersão durante a jogabilidade, seja nas ruas movimentadas de Kamurocho ou nos ambientes mais tranquilos de Okinawa.
Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties é um remake extremamente competente do terceiro título da série. Consegue preservar o núcleo da narrativa original, ao mesmo tempo que introduz melhorias técnicas e conteúdo adicional que elevam a experiência. A inclusão de Dark Ties não só acrescenta mais horas de jogo, como também permite observar aquele universo de crime, lealdade e conflitos sob uma nova perspectiva. É mais um capítulo da saga que me convenceu plenamente e que nos faz desejar por ver o quarto título da franquia receber o mesmo tratamento no futuro.








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